Onde há amor, nenhum mal dura
Nenhuma dor sem cura.
Onde há perdão, nenhum olhar culpa
Nenhuma fé impura.
Onde há você, nenhum caos pulsa
Nenhuma voz escura.
Onde há amor, nenhum mal dura
Nenhuma dor sem cura.
“Se o duro combate,
Os fracos abate,
Aos fortes, aos bravos,
Só pode exaltar.”
Nada mais adequado. Nenhum verso de poesia elaborada mais definitivo ou exato. Nada maior ou mais pungente do que a citação que me foi entregue hoje, enquanto comemorava na mesa de ofício, a vitória de um herói. No post de hoje, seguirá Gonçalves Dias e sua mensagem altiva sobre a força, a coragem e a persistência exigidas pela vida.
CANÇÃO DO TAMOIO
(Natalícia)
I
Não chores, meu filho;
Não chores, que a vida
É luta renhida:
Viver é lutar.
A vida é combate,
Que os fracos abate,
Que os fortes, os bravos
Só pode exaltar.
II
Um dia vivemos!
O homem que é forte
Não teme da morte;
Só teme fugir;
No arco que entesa
Tem certa uma presa,
Quer seja tapuia,
Condor ou tapir.
III
O forte, o cobarde
Seus feitos inveja
De o ver na peleja
Garboso e feroz;
E os tímidos velhos
Nos graves concelhos,
Curvadas as frontes,
Escutam-lhe a voz!
IV
Domina, se vive;
Se morre, descansa
Dos seus na lembrança,
Na voz do porvir.
Não cures da vida!
Sê bravo, sê forte!
Não fujas da morte,
Que a morte há de vir!
V
E pois que és meu filho,
Meus brios reveste;
Tamoio nasceste,
Valente serás.
Sê duro guerreiro,
Robusto, fragueiro,
Brasão dos tamoios
Na guerra e na paz.
VI
Teu grito de guerra
Retumbe aos ouvidos
D’imigos transidos
Por vil comoção;
E tremam d’ouvi-lo
Pior que o sibilo
Das setas ligeiras,
Pior que o trovão.
VII
E a mão nessas tabas,
Querendo calados
Os filhos criados
Na lei do terror;
Teu nome lhes diga,
Que a gente inimiga
Talvez não escute
Sem pranto, sem dor!
VIII
Porém se a fortuna,
Traindo teus passos,
Te arroja nos laços
Do inimigo falaz!
Na última hora
Teus feitos memora,
Tranqüilo nos gestos,
Impávido, audaz.
IX
E cai como o tronco
Do raio tocado,
Partido, rojado
Por larga extensão;
Assim morre o forte!
No passo da morte
Triunfa, conquista
Mais alto brasão.
X
As armas ensaia,
Penetra na vida:
Pesada ou querida,
Viver é lutar.
Se o duro combate
Os fracos abate,
Aos fortes, aos bravos,
Só pode exaltar.
Nota: a publicação preserva o padrão ortográfico da época.
Ela esperava
Ele nascia
Naquela hora de olhares trocados
Seguia
A miragem, a cifragem
Cedia.
Ela esperava
Ele nascia
No riso incontido da alma liberta
Sentia
A paisagem, a imagem
Euforia.
Ela esperava
Ele nascia
Naquela entrega de novas palavras
Exibia
A coragem, a mensagem
Vivia.
Ilustração modificada de: http://pin.it/aTr92Ce
Inaugurando a Semana das Crianças, meu coração quis falar com os pais. Em agudezas do cotidiano, muitas vezes pressinto uma consciência ausente da gravidade e da dádiva de ser pai e de ser mãe. Em nome deste despertar, segue meu clamor.
Sê mãe. Sê pai.
Tu te tornarás a única esperança de uma promessa
A presença mais forte que orienta e conduz
Te tornarás o alimento
O alento
A luz
Tu te tornarás a fonte e a face do amor
A verdade mais reta que conforta e mantém
Te tornarás o desejo
O anseio
Além
Tu te tornarás a expressão da única consciência
A certeza mais clara que pacienta e contém
Te tornarás a paixão
A alegria
Razão
Para pensar, deixar fermentar e pensar de novo.
“You fall in love with a man because he is everything your father isn’t. He is strong and tough and you like that. He sweeps you off your feet. You don’t even realize how much he takes over your life, how you start to became merely an extension of him, rather than a separate entity or as you dream, one grander entity, two becoming one in love, like out of a romance novel. You acquiesce on small things, then large things, then everything. Your laugh starts to quiet before disappearing altogether. Your smile dims until it is only a facsimile of joy, something you apply like mascara.”
Harlan Coben – The Myron Bolitar Collection
Perdoa meus erros e minhas angústias
Minhas curvas trêmulas escondidas.
Perdoa meus vícios e os vazios
Meus pesares de tempo servil.
Perdoa meus pesos e a sede
Meus temores sem pele e fio.
Perdoa meus cantos sem voz
Meus lamentos oblíquos
Hino atroz.
Nesta primavera quero ser semente
Encontrar um bom lugar para germinar
E com paciência, esperar
Um dia claro para florir.

Dias atrás, iniciando uma viagem profissional a Brasília, conheci um rapaz com atitude e alegria extraordinárias – principalmente para aquela hora da manhã! Ismael me entregou um sorriso e um tanto de gentileza, oferecendo-se para colocar minha mala no compartimento de bagagem.
Após vinte e quatro cirurgias para correção de fissura de lábio e palato, Ismael – que se mostrava orgulhoso de sua capacidade comunicativa -, logo iniciou um diálogo comigo, que se estendeu por todo o vôo. Não fiz qualquer esforço para conversar com Ismael. Suas palavras fluíam claras e atendiam um raciocínio organizado e repleto de entusiasmo. Curiosamente, ao narrar detalhes de sua história de vida, ele parecia me mandar mensagens que eu realmente precisava ouvir.
Talvez tenha sido uma das últimas visitas de Ismael ao HRAC (ou “Centrinho” para os amigos de longa data), hospital de Bauru há muito reconhecido como referência no tratamento de anomalias crânio-faciais. Seus inúmeros ganhos terapêuticos, frutos de muito esforço, paciência e dedicação já lhe garantem trocar pensamentos e alegrias com grande habilidade. Logo, Ismael receberá alta fonoaudiológica. É, hoje, um competente falante de nossa língua. Além disso, é também cantor e compositor. Com seu violão, Ismael se dedica a distribuir mensagens de alegria nas salas de espera do hospital – deste e de outros em Brasília. Não consigo imaginar o que deve representar sua presença, assim simples e recoberta pela arte, para a esperança de quem ainda inicia a jornada da reabilitação.
As experiências de superação de Ismael podem ser exibidas como uma coleção: sua madrinha fez uma campanha para arrecadar dinheiro para sua primeira viagem a Bauru. Foi vítima de preconceito na escola inúmeras vezes, provavelmente bem mais do que tenha compartilhado. Mas, certa vez virou o jogo a seu favor. Oito meninos se organizaram para surrá-lo porque ele não falava seguindo os padrões normais. Ele olhou para os colegas e disse: “Pó maiá!”, convidando todos eles para seguir com a malhação que intentavam. Em vez de bater, os meninos se surpreenderam e começaram a rir. Ele ganhou ali um apelido e, talvez, um pouco mais de respeito. Como “Pómaiá”, passou a ser defendido pelo grupo. Para as terapias de voz, utilizava o horário de almoço e definia objetivos ambiciosos junto com sua fonoaudióloga. Dedicou-se com afinco para produzir corretamente o som do “s” porque sabia que era importante para sua chefe ser chamada de “Cidinha” e não Maria Aparecida. Muitas vezes, ele se sentiu menor, menos, incapaz. Ainda bem que ele pôde se convencer do contrário e fazer-se exemplo de luz para a vida de outras pessoas.
A certa altura de nossa conversa, Ismael disse assim: “Você tem a beleza da saúde, é perfeita. Eu precisaria conviver com você para descobrir algum defeito”. Para nós, que integramos o grupo de pessoas sem deficiência visível, é assim: conseguimos esconder nossas imperfeições e partes mutiladas, as ausências. Mas, acredite, Ismael, elas existem, e são inúmeras, ainda que sob o véu da minha capa sem fissuras.
NOTA: Ismael concedeu, gentilmente, autorização para a postagem deste texto. Em trocas de mensagens para tal autorização, ele solicitou que fosse registrada a importância do apoio constante de sua família, amigos e de sua esposa para todas as conquistas que narrou. É… Uma alma nobre este Ismael!!