Quase

Eu quase compreendo a tristeza de quem chora
E quase sinto a dor da ferida
E ouço a lamúria das esquinas
E quase escorre em mim a lágrima daquela menina.

Eu quase morro a morte da Aurora
E quase revivo o riso e a voz
Por pouco não toco em mim a saudade de mil sóis
E quase embalo a saudade daquele colo… de nós.

Pina

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Eu viveria entre mármores curvilíneos que avistam um horizonte que eu não alcanço.
Eu poderia ser esquecida, deixada só entre as criaturas de pedra
Que eternizam os movimentos apaixonados das mãos de sonhadores.

Eu cairia aos pés d’O homem que Marcha
E restaria deitada no octógono que me carrega em viagem circular
Esperando o símbolo perdido se encontrar.

Eu vagaria sem pele por aquelas tiras longas de madeira queixosa
Embriagada pela luz sublime do céu envidraçado.
Eu dançaria nas ruas escuras de óleo e verniz e me juntaria, cansada, às Mulheres na Janela.

Eu amaria todos os donos de olhares apaixonados com braços que eu não abraço.
Eu poderia ser esquecida, deixada só entre as cores da aquarela
E viveria entre histórias vis e memórias secretas.

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Poesia em homenagem à Pinacoteca do Estado de São Paulo, um dos lugares que fazem meu coração sorrir.

Por mais sensibilidade e menos anestesia

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Há alguns anos, um dos meus interesses no exercício profissional tem sido o treino de habilidades sociais e comunicação social junto a pessoas que vivem na especial sintonia do espectro do autismo. Via de regra, carecem de suporte adequado para desenvolver suas competências neste campo e, assim, interagir melhor socialmente. Vivendo inúmeras situações, nas quais aprendi, apliquei e desenvolvi alguns procedimentos nesta esfera, fui guiada pelo caminho do que chamamos de empatia. Para ser breve ao introduzir sua definição, utilizarei a frase curta que repetimos aos pais quando iniciamos um trabalho como este: “Empatia é a capacidade de se colocar no lugar do outro”. Este fenômeno psicológico que nos valida como homens de boa vontade nasce pelo reconhecimento e a percepção que temos do outro, daquele que não está em nós, que constitui outro eu e se apresenta como um semelhante. Nos dias que findaram a semana, fui eu mesma, sem cenas montadas ou estratégias traçadas, aquele alguém que sente dor e sofre. Alguém a se destinar empatia, portanto. Senti em minha própria pele o conforto de recebê-la e a tristeza de vê-la, sem cerimônia, ausente. Em um sopro de razão, em meio a tanto sentir, me pus a refletir o quão rasa pode ser nossa dedicação a um semelhante e o quão negligentes podemos estar sendo ao educar e formar pessoas. Por isso, desejando ser cuidadosa ao tocar nos limites do conceito, dedicarei mais tempo e palavras, talvez mais mergulho e sensibilidade do que apenas a definição curta que repito (ou repetia) no tempo curto do cotidiano. Empatia, pelo coração de João Doederlein, é “saber ler o roteiro de outra vida, é ser ator em outro palco, é compreender. É descer ao fundo do poço de alguém, sentar-se e fazer-lhe companhia”. É saber abraçar a alma do outro, sem dedicar-lhe preconceito de posição ou status, proximidade ou aparência. É deixar-se um pouco em repouso e esquecimento, e entregar-se a respirar a respiração de alguém. Empatia é calçar os sapatos do seu semelhante para compreender e sentir o seu caminho. É arrepiar-se com o frio que ele sente. E transpirar com a alegria veraneada que lhe alegra a alma. É fazer-se braço ao abraço e escuta à palavra. É estar e ladear, apoiar e sustentar. Empatia é mais que o olhar benevolente, é permitir-se a dor ou a alegria que o outro sente, não por ele, mas junto a ele, em comunhão de vida.

Nota: Explorada a significação de “empatia”, estabelece-se por antônimo, “anestesia”.

Assim

ana_maria_pacheco_ASSIMAssim…
Que, enfim, aparecer o que eu disse
Que, de repente, se fizer como seu eu visse
Já tudo diluído estará
Já tudo lembrança pra mim
Já tarde será…
Assim que acontecer.

(02 de abril de 1998, Diário pessoal de Grace Cristina Ferreira-Donati)

 

 

Imagem: reprodução de escultura de Ana Maria Pacheco. Fonte: https://br.pinterest.com/source/prattcontemporaryart.co.uk

 

Palavras segredadas

Na menina que cruzava a estrada via-se a nudez pálida e ingênua, a timidez eriçando a pele, o olhar recoberto por si mesma. No rosto, e escorrendo em seu colo, todas as palavras densas estampadas. Todas divulgando em transparência o recato e o caos. Todas elas, ao mesmo tempo, sobre o mesmo espaço, vestindo a face e revelando a singeleza de sua vida em flor. Ah! Que palavras ilegíveis perpetuadas nesta pele… Quais amores e dores lhe definiram nesta clareza leve? Qual léxico lhe revela a alma? Qual alma que entrega a si em salva de palavras fáceis e insistentes? Por que cruza tal estrada e se exibe nas palavras segredadas?image

Imagem coletada em Pinterest: http://pin.it/YMX9jQH

Sobre sensações

Sim, há quem consiga neste mundo apenas sentir. Sem pensar, nem medir, sem refletir todo o tempo e filtrar. Sem modelar ou fingir, sem conter ou pesar. Dentre tantos, há os que percebem o que a maioria não sente. São os que absorvem a magia do invisível, as sensações do pulso do mundo.

Às pessoas que vivem no espectro das hipersensações, a muitas das crianças com autismo, relembro um pouco de alguém que também sentia muito.

Os Meus Pensamentos São Todos Sensações, de Alberto Caeiro (Fernando Pessoa)

Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.
Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.
Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto.
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.