A Exposição “Árvores, galhos e outros ramos”

“Árvores, galhos e outros ramos” é um projeto de Artes Integradas, premiado no Edital ProAC n.o 40/2017, de autoria compartilhada entre Grace Donati – esta blogueira aqui – e André Marques. Construído sobre o diálogo contínuo entre a Ciência, a Poesia, as Artes Visuais, o Teatro e a Performance, o projeto é a exaltação das árvores, desta vida quieta que nos permite existir. A Exposição está aberta à visitação na Galeria Municipal “Angelina W. Messenberg”, em Bauru, no interior de São Paulo. Visite a página do projeto no Facebook:  Árvores, galhos e outros ramos no Face. Ouça algumas poesias declamadas em nosso canal do Youtube:

Canal do Projeto “Árvores, galhos e outros ramos”

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Madrugada

Eu não sei ao certo por qual motivo tenho acordado às quatro horas da manhã já há algum tempo. No princípio, pensei que fosse meu estado constantemente preocupado com os afazeres dos meus dias inchados. Cheguei a pensar que fosse uma ou outra dívida, dessas que a gente contrai consigo mesmo. Em uma das noites, a justificativa da falta de atividade física caiu muito bem, até porque a dor era generalizada em meus músculos. Em outras tantas, minha natureza ansiosa e inquieta querendo antecipar o dia… – bem coisa minha querer trazer o dia para a madrugada para ‘já’ resolver problemas que me aguardavam dormindo. Desisti de entender. Cada madrugada, um despertar, cada noite uma certeza de que meu sonho seria interrompido por alguma coisa obscura. Fato é que tenho estado acordada em todas as madrugadas. Daí ela vai me seduzindo com este silêncio, esta quietude que me preenche de paz e alívio. A oportunidade de ouvir o que eu digo sem voz. De fazer poesia sem pressa. De pensar sem que algo me impeça a conclusão, o apogeu. A chance de permanecer no estado das sensações, fazendo-o durar ao eterno. Tudo ganha um contorno de suavidade, de menor solidez, de fluidez. Daí, eu me lembro, com algum pesar, de lugares lindos que eu não conheci sob esta luz sutil e cálida, e que jamais conhecerei… assim, nesta aura. Nada de bibliotecas neste horário, ou parques floridos, nada de escavações no subsolo europeu, nada da vista das torres mais altas vendo cidade acordar. Sendo notívaga convicta agora, dá para entender porque o Louvre tem sido aberto à visitação noturna no verão parisiense – só quem já esteve por aqueles corredores barulhentos ao correr de manhãs e tardes saberá do que falo. Então, a situação é essa: resolvi minha carência de só estar (sem pensar, estudar, trabalhar, discutir, atender, ajudar, pintar, resolver…) dormindo menos. Eu sei… pode ser uma péssima saída. Mas, deste jeito meio bizarro e torto, eu tenho experimentado o divagar do silêncio pela minha casa e escutado os barulhos que eu nunca tinha tempo de escutar. Hoje, além de mergulhar nesta paz profunda, ainda escrevi – multitarefa que sou kkk. Mas é que… convenhamos, ser e escrever, no mundo que eu criei pra mim, são praticamente a mesma coisa.

Amanhã, eu tento de novo

Amanhã, eu tento de novo
Parar o tempo
Colorir o sossego pincelando a angústia de existir
Escolhendo as palavras para por luz no que escurece a emoção.

Amanhã, eu tento de novo
Organizar, por no lugar o que andou por aí sem rumo
Pagar as dívidas e curar as feridas
Preparar dias com mais primor.

Amanhã, eu tento de novo
Cumprir as promessas, ouvir canções de seresta que apaziguam o coração.
Tento ler os versos dos mestres
Comprar presentes e os venenos úteis
Jogar o acúmulo, o lixo futuro.

Amanhã, eu tento de novo
Agendar dias de só delícias
Aprumar e rezar
Registrar a ciência
Dormir o sono da paciência
Bebericar chá e pensar
Brincar de imaginar.

Amanhã, eu tento de novo e de novo
Cuidar do meu cuidar
Ouvir canção de Oswaldo
Esticar o corpo flácido
Respirar o ar sem par
Tento comprar o necessário
Declamar fora de horário
Esvaziar meu carro.

Amanhã, eu tento de novo
Virar uma só sendo dez
Ser multidão de uma vez
Delegar a criança fácil
Acender a vela
Aguar a planta
Ser pequena e tanta.

Sobre almas sem ordem e a necessidade de controle

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Eu não vivo sozinha no mundo, há na verdade bilhões e bilhões com quem divido espaços, vazios e outras coisas mais. É assim com quase todo mundo. A gente vive junto, faz isso e aquilo grudado ou afastado, bem longe ou do lado, mas o fato é que não falta contato… e é neste tal de contato que as coisas mais escabrosas acontecem.

(Paremos, irmãos, por dois minutos, de pensar nas coisas lindas e cor-de-rosa – não gosto de cor-de-rosa!, corrijo: lindas e adocicadas do contato humano).

Uma das coisas que tem me aterrorizado é este clamor pela ditadura. E daí, pensando e pensando e… mais sentindo que pensando nestes dias, refleti que o que tem me incomodado tanto é, na verdade, o que as pessoas fazem para exercer o controle e o desejo que muitas têm de serem controladas. É a obsessiva-repetição-sistemática (e camuflada de “ordem” – éééééééé… tá lá na bandeira nacional) de comportamentos ansiosos por controlar tudo o que está aqui, no exterior palpável, nesta loucura tangível onde a gente vive. Ah… aaahhhhh… que este mundo não tem controle, minha gente! A tentativa – é evidente! -, é de tentar por alguma ordem em si mesmo, organizar o caos da alma. A questão é que nesta lida insana, quando se põe em contato com outras pessoas, este alguém inflige dor e aprisiona outra alma humana.
Por isso, eu sou a favor da intervenção (pra usar a palavra mais dita do momento) psicológica. Porque ela nos apresenta a nós mesmos. E é só este conhecimento que pode por alguma ordem no caos. Massss, para quem achar que ela não serve, justificando que “é outra forma de controle”, ainda há Osho, Arte, yoga e olhar de criança, que ajudam a revelar o que há lá, naquele ponto que não tem nome, que é o que nós somos (Viva Saramago!).

Alimentar é materno

Cabe ao verbo a ação. A velocidade à luz. A medida à razão. É assim… a cada coisa cabe ser o que se é. A cada um, a dor e a delícia…
Cabe à criança brincar e se lambuzar de vida. Sorver das mães que lhe adotam o leite e a melhor energia. É para além da nutrição do corpo que uma mãe é mãe para o seu filho. É para preenchê-lo deste sopro, desta chama infinita que é o amor.

 

 

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Virgem do Leite, 1500-1525, Mestre dos Túmulos Reais – Mosteiro do Lorvão.  Museu Nacional de Machado de Castro, Coimbra – Portugal. Foto de Grace Donati