Fumacinha

Morrer podia ser uma mudança lenta
Nada de drama ou de dor
Nada de lágrima.
O vento, ao tocar o corpo levaria dele
Um tanto do suor e do calor
Um fio, um cheiro, um brilho.
A cada sopro, menos do corpo um pouco
A capa passagem pela carne
Uma subtração de minúsculos pedaços de existência 
Uma viagem de cortes de si por aí
A derradeira desconstrução sutil e flutuante.
E assim, até virar fumacinha
Uma ex-pessoa
Seria eu mais feliz.

Encerrar-se

Morrer é um encerrar-se. Só não me parece justo que alguém finalize a obra por você. E é assim, pra mim, com cada vivente. Não me parece que alguém morra… assim como sendo sujeito do seu próprio fim. É antes um ponto final promulgado por outrem. Não são as pessoas que, antes de terminarem, decidam assim. Não me parece que nenhuma delas perceba, com grata elasticidade e tempo, e realidade, e clareza, que o final da história se aproxima. E que é hora de encerrar-se. Não me parece, tampouco, que morrer seja um bom final para qualquer um. Não me parece razoável que todas as histórias compartilhem o mesmo desfecho. Acho tão pouco inventiva esta mesmice repetida e ecoada por todos os cantos. Parece tão pouco estimulante conhecer o fim de antemão. Parece uma brincadeira de mal gosto… antes de começar já se conhece o final e antes que você esqueça do encerramento que viverá na própria carne, algum companheiro de cena acaba, termina, se esvanece no ar, se dilui. E a lembrança marcante, a determinação pungente da sua própria conclusão se instala quando caem os bravos, os fracos, os certos e os errados, os medíocres, os brilhantes e os amados. Pessoas terminam, você continua… e, desconhecendo a ordem dos fatos, a ordem dos finais, se engana em ilusão da criação autônoma da própria história até que o final conhecido se faça e te termine. Estou certa é da incerteza apavorante e dos abruptos finais. Nada mais há de seguro em todo o resto.

Para alguém de importância singular, que se encerrou em 17 de junho de 2013, a quem devotei especial amor. Saudades.