Caeiro, uma vez mais

Uma vez mais, Alberto Caeiro ensinando-nos a estar presente, a apenas ser limitados que somos ao que somos no segundo em que somos. A ansiedade que nos coloca num futuro que nada é porque não existe ainda e talvez nunca se assuma presente é uma insensatez.

Não tenho pressa. Pressa de quê?
Não têm pressa o sol e a lua: estão certos.
Ter pressa é crer que a gente passa adiante das pernas,
Ou que, dando um pulo, salta por cima da sombra.
Não; não tenho pressa.
Se estendo o braço, chego exactamente onde o meu braço chega
Nem um centímetro mais longe.
Toco só onde toco, não onde penso.
Só me posso sentar onde estou.
E isto faz rir como todas as verdades absolutamente verdadeiras,
Mas o que faz rir a valer é que nós pensamos sempre noutra cousa,
E somos vadios do nosso corpo.

PESSOA, Fernando. Poesia completa de Alberto Caeiro. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

Para além da curva da estrada…, refletindo Alberto Caeiro

Lendo a “Poesia Completa de Alberto Caeiro” (Fernando Pessoa, São Paulo: Companhia das Letras, 2005), com comprometimento total pela primeira vez, tenho me deparado com versos que fariam festejar o mais dedicado adepto do Mindfulness. É uma celebração do agora, do estado presente, dos sentidos, da percepção, do palpável, do que se alcança hoje. É uma mensagem que vai bastante além da valorização da natureza. Toca o que há de essencial na própria essência, o núcleo, o imprescindível. Na página 88, abrindo “Poemas Inconjuntos”, revela-se o poema antídoto da ansiedade. É só ler e reler…

“Para além da curva da estrada                                                                         Talvez haja um poço, e talvez um castelo,                                                           E talvez apenas a continuação da estrada.                                                       Não sei nem pergunto.                                                                               Enquanto vou na estrada antes da curva                                                             Só olho para a estrada antes da curva,                                                       Porque não posso ver senão a estrada antes da curva.                                 De nada me serviria estar olhando para outro lado                                           E para aquilo que não vejo.                                                                         Importemo-nos apenas com o lugar onde estamos.                                     Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer.                 Se há alguém para além da curva da estrada,                                             Esses que se preocupem com o que há para além da curva da estrada.   Essa é que é a estrada para eles.                                                                       Se nós tivermos que chegar lá, quando lá chegarmos saberemos.             Por ora só sabemos que lá não estamos.                                                     Aqui há só a estrada antes da curva, e antes da curva                                     Há a estrada sem curva nenhuma.”

 

Black Friday de Poesia!!

Para vendas de 28/11/2019 a 08 de dezembro até às 18h!! Livro: Retalhos de alma inteira, de Grace Donati, com reproduções de aquarela de André Marques.

“Retalhos de alma inteira é um livro de poesias e contos poéticos que trata de temas cotidianos e sentimentos essenciais do homem, com rebuscada sensibilidade. A maioria das produções é construída em verso livre, e, assim como o título sugere, expõe a alma da escritora, suas percepções e sensações, sem proteções, e exibindo elevado domínio de assonâncias, aliterações, rima e ritmo. As palavras costuram ora delicadezas, ora cruezas sobre o amor, as angústias, as flores, a solidão, o tempo, as repressões e a esperança. Ler “Retalhos de alma inteira” é tornar-se linha no cerzir de muitas reflexões poéticas do que se passa em cada um de nós.”

Informações:

Capa comum: 160 páginas

Editora: Scortecci Editora; Edição: 1ª (18 de agosto de 2017)

Idioma: Português

ISBN-10: 8536651601

ISBN-13: 978-8536651606

Dimensões do produto: 14 x 1 x 21 cm

Metade, de Oswaldo Montenegro

Que a força do medo que tenho
não me impeça de ver o que anseio
que a morte de tudo em que acredito
não me tape os ouvidos e a boca
pois metade de mim é o que eu grito
a outra metade é silêncio.

Que a música que ouço ao longe
seja linda ainda que tristeza
que a mulher que amo seja pra sempre amada
mesmo que distante
pois metade de mim é partida
a outra metade é saudade.

Quer as palavras que falo
não sejam ouvidas como prece nem repetidas com fervor
apenas respeitadas como a única coisa
que resta a um homem inundado de sentimentos
pois metade de mim é o que ouço
a outra metade é o que calo.

Que a minha vontade de ir embora
se transforme na calma e paz que mereço
que a tensão que me corrói por dentro
seja um dia recompensada
porque metade de mim é o que penso
a outra metade um vulcão.

Que o medo da solidão se afaste
e o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável
que o espelho reflita meu rosto num doce sorriso
que me lembro ter dado na infância
pois metade de mim é a lembrança do que fui
a outra metade não sei.

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
pra me fazer aquietar o espírito
e que o seu silêncio me fale cada vez mais
pois metade de mim é abrigo
a outra metade é cansaço.

Que a arte me aponte uma resposta
mesmo que ela mesma não saiba
e que ninguém a tente complicar
pois é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
pois metade de mim é platéia
a outra metade é canção

Que a minha loucura seja perdoada
pois metade de mim é amor
e a outra metade também.

Fonte: LyricFind

Compositores: Oswaldo Montenegro / Oswaldo Viveiros Montenegro

Letra de Metade © Warner Chappell Music, Inc

Poemas Inconjuntos, de Alberto Caeiro (1913-1915)

Alberto Caeiro exaltou a simplicidade, os milagres que se revelam no anonimato do suceder dos dias… a rosa se abrindo, o sol se pondo, a gota caindo da folha. Neste poema, a mensagem é atualíssima, fazendo-nos refletir sobre este sentimento perene de insatisfação e da necessidade patológica de ser feliz o tempo todo e a qualquer custo. Pela liberdade de sentir o que houver para sentir: Poemas Inconjuntos!

Falas de civilização, e de não dever ser,
Ou de não dever ser assim.
Dizes que todos sofrem, ou a maioria de todos,
Com as coisas humanas postas desta maneira.
Dizes que se fossem diferentes, sofreriam menos.
Dizes que se fossem como tu queres, seria melhor.
Escuto sem te ouvir.
Para que te quereria ouvir?
Ouvindo-te nada ficaria sabendo.
Se as coisas fossem diferentes, seriam diferentes: eis tudo.
Se as coisas fossem como tu queres, seriam só como tu queres.
Ai de ti e de todos que levam a vida
A querer inventar a máquina de fazer felicidade!

Soneto da Fidelidade, de Vinicius de Moraes

De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

Vinicius de Moraes, “Antologia Poética”, Editora do Autor, Rio de Janeiro, 1960, pág. 96.

 

Poema declamado por Camila Morgado

Sobre o inverno

“Nosso inverno não é destituído de cores, não é um período vazio de emoções, mas sim uma ocasião em que todas as alegrias vividas vêm à tona, fazendo-nos rejubilar com a missão cumprida. Todas as estações vividas ainda vibram em nós e estas longas noites de inverno são a ocasião propícia que a vida nos oferece para recordarmos”.

Do livro Estações, de Adelaide Reis de Magalhães, admirável artista que me ensinou sobre as estações e sobre como manter o brilho em meus olhos.

Soneto, de William Shakespeare

Há dias procuro palavras e tento harmonizá-las em escrito novo e de alguma relevância… teimosia sem sucesso. Na perspectiva do escritor, é preciso resignação e paciência para aceitar a euforia da alma que decide viver poesia em vez de escrevê-la. Humildemente, cabe nestes momentos, ler, ler e reler, em busca fervorosa por mais e melhores sentidos. Algumas doses de Shakespeare podem operar milagres.

Que à união de espíritos puros
Eu não aceite impedimentos. Não é amor, o amor
Que muda quando mudanças encontra,
Ou se curva a quem quer extingui-lo.
Oh, não! O amor é um marco eterno
Que inabalável enfrenta as tormentas.
É a estrela de todo barco errante,
De brilho certo, mas valor inestimável.
O amor não é joguete do tempo, embora
Ao envelhecer os lábios nos entorte.
O amor não muda conforme o dia e a hora,
Mas chega inalterado até o fim dos tempos.
Se me provarem que isto está errado,
Então nunca escrevi nem ninguém jamais amou.

William Shakespeare (1564-1616)