Amanhã, eu tento de novo

Amanhã, eu tento de novo
Parar o tempo
Colorir o sossego pincelando a angústia de existir
Escolhendo as palavras para por luz no que escurece a emoção.

Amanhã, eu tento de novo
Organizar, por no lugar o que andou por aí sem rumo
Pagar as dívidas e curar as feridas
Preparar dias com mais primor.

Amanhã, eu tento de novo
Cumprir as promessas, ouvir canções de seresta que apaziguam o coração.
Tento ler os versos dos mestres
Comprar presentes e os venenos úteis
Jogar o acúmulo, o lixo futuro.

Amanhã, eu tento de novo
Agendar dias de só delícias
Aprumar e rezar
Registrar a ciência
Dormir o sono da paciência
Bebericar chá e pensar
Brincar de imaginar.

Amanhã, eu tento de novo e de novo
Cuidar do meu cuidar
Ouvir canção de Oswaldo
Esticar o corpo flácido
Respirar o ar sem par
Tento comprar o necessário
Declamar fora de horário
Esvaziar meu carro.

Amanhã, eu tento de novo
Virar uma só sendo dez
Ser multidão de uma vez
Delegar a criança fácil
Acender a vela
Aguar a planta
Ser pequena e tanta.

Urgência

Se eu soubesse que não te veria mais
Eu teria esgotado minha voz dizendo que te amo
Teria feito de cada bobagem dita uma poesia de beleza infinita
Para acalentar agora esta dor no meu peito sem limite.

Eu teria refeito minha fé e criado coragem
Para conseguir teu perdão à minha ausência
Teria chorado com você a lágrima que eu sempre escondi
Teria quebrado o relógio das minhas urgências.

Ah… se eu soubesse que não te veria mais
Eu teria pacientemente ouvido o que nunca se deixava dizer
Teria estado ao teu lado e com você, sofrido
Toda a massa de dor dos dias penosos do fim.

Se eu soubesse que não te teria mais
E que jamais teu sorriso me poria a sorrir
Eu teria clamado mais por sua vida
Por uma nova sina, outro amanhã de menina.

Janeiro em dezembro

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Leva aquela calma de ontem para amanhã
O riso do menino para o homem
A luz natalina para este peito em cisma.

Pega o vigor de nascer e põe no que convalesce
O êxtase em chama na prece
A vitória antiga na iniciada lida.

Carrega no agora o amor de outrora
A criança vibrante na mulher sem cor
A esperança do antes no depois errante.

Leva o ontem para sempre amanhã
Põe janeiro em dezembro
E a semente na flor
Vê o dia na noite
Redenção na dor
Leva a alma na palma
No inverno o calor
Faz do tempo joguete
Deleite
Seu melhor valor.

Os dias

É de degraus e de vagares que se esculpem os dias
Da luz e da sombra, das ondulações do caos.
É de sóis e cinzas que se remenda a rotina
Das fantasias lunáticas da normalidade.
É da rudeza no tilintar das horas
Das farsas boas e de meias verdades.
É de manias e pesares que se torneiam as vidas
Da dor e da glória, das limitações do mal.

Viva

Viva
Corra o mesmo risco de quem, descalço e infantil, inquieto e febril, ama.
Faça o mesmo riso de quem, entregue e servil, completo e gentil, ama.
Viva a lida fácil de quem, disposto a amar, incerto e feliz, ama.
Como alguém despido de temor e com ardor, ama.
Como além do viço do calor e com fervor, ama.
Com a vida toda em vigor, ama.
Apenas por ser vida
E pelo amor, ama.