Tarde de amor perfeito

“Naquela tarde eu fechei os olhos e sonhei que vivia uma história muito bonita… uma história de amor, com todos os desatinos e as tempestades de uma história de amor. Por alguns instantes eu esqueci a obrigação da sensatez e do equilíbrio e me entreguei a um mundo de sensações e êxtase que rompeu a ordem do tempo e da minha realidade cinza… Imaginei um homem e uma vontade. Coloquei entre eles a minha presença sequiosa de carinho e pintei um cenário de cores fortes para me deitar. Estiquei o meu corpo no dele, aquietei minha ansiedade e vivi as iniciativas do calor. Senti a severidade do correr do tempo pulsando nos meus braços e depois a tristeza que me leva a sonhar minha imaginação fértil, fruto de mais um dia sem ninguém…”

14 de abril de 2002

Alimentar é materno

Cabe ao verbo a ação. A velocidade à luz. A medida à razão. É assim… a cada coisa cabe ser o que se é. A cada um, a dor e a delícia…
Cabe à criança brincar e se lambuzar de vida. Sorver das mães que lhe adotam o leite e a melhor energia. É para além da nutrição do corpo que uma mãe é mãe para o seu filho. É para preenchê-lo deste sopro, desta chama infinita que é o amor.

 

 

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Virgem do Leite, 1500-1525, Mestre dos Túmulos Reais – Mosteiro do Lorvão.  Museu Nacional de Machado de Castro, Coimbra – Portugal. Foto de Grace Donati 

Soneto da Fidelidade, de Vinicius de Moraes

De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

Vinicius de Moraes, “Antologia Poética”, Editora do Autor, Rio de Janeiro, 1960, pág. 96.

 

Poema declamado por Camila Morgado