Amanhã, eu tento de novo

Amanhã, eu tento de novo
Parar o tempo
Colorir o sossego pincelando a angústia de existir
Escolhendo as palavras para por luz no que escurece a emoção.

Amanhã, eu tento de novo
Organizar, por no lugar o que andou por aí sem rumo
Pagar as dívidas e curar as feridas
Preparar dias com mais primor.

Amanhã, eu tento de novo
Cumprir as promessas, ouvir canções de seresta que apaziguam o coração.
Tento ler os versos dos mestres
Comprar presentes e os venenos úteis
Jogar o acúmulo, o lixo futuro.

Amanhã, eu tento de novo
Agendar dias de só delícias
Aprumar e rezar
Registrar a ciência
Dormir o sono da paciência
Bebericar chá e pensar
Brincar de imaginar.

Amanhã, eu tento de novo e de novo
Cuidar do meu cuidar
Ouvir canção de Oswaldo
Esticar o corpo flácido
Respirar o ar sem par
Tento comprar o necessário
Declamar fora de horário
Esvaziar meu carro.

Amanhã, eu tento de novo
Virar uma só sendo dez
Ser multidão de uma vez
Delegar a criança fácil
Acender a vela
Aguar a planta
Ser pequena e tanta.

Os dias

É de degraus e de vagares que se esculpem os dias
Da luz e da sombra, das ondulações do caos.
É de sóis e cinzas que se remenda a rotina
Das fantasias lunáticas da normalidade.
É da rudeza no tilintar das horas
Das farsas boas e de meias verdades.
É de manias e pesares que se torneiam as vidas
Da dor e da glória, das limitações do mal.

O tempo

tempo_pinterest

Um dia, serei amiga do meu tempo
Só farei coisas que o agradam
Cuidarei de sua vida com zelo
Como quem carrega o último copo d´água.

Um dia, viverei o tempo com a economia do cuidado
Com a delicadeza, a gentileza do compromisso
Exercitando o uso consciente do valor
Do que se estima tanto por ser inestimável.

Meu tempo, hoje, não se flete às minhas vontades
Não se dobra ou se contamina
Não me pertence.
E, em seu rigor, manejado pelo vazio
Arrasta-me.

De 20 de agosto de 2014 (postado originalmente em Dezembro de 2015)

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Contrariedades

Há dores que não se mostram
Como há amores que não se afagam
Como há horrores que não se contam
E estertores que não calam.

Há corações que não se abalam
Como há proteções que não se bastam
Como há florações que não encantam
E intenções que não falam.

Há crises que não se deflagram
Como há reprises que não se confirmam
Como há lides que não se travam
E revides que não gritam.

Negativas

Não te aprisiones a ti mesmo
Espalha-te.
Não te atormentes ao ruído alheio
Aquieta-te.
Não te protejas do amor que recebes
Envolva-te.
Não te apresses no peito que acolhe
Repousa-te.
Não te condenes ao rigor servil
Alegra-te.
Não te abandones ao olhar vil
Proteja-te.
Não te dediques à língua que fere
Apazigua-te.
Não te julgues ao contorno que tolhe
Perdoa-te.
Não te negues o toque que envolve
Permita-te.
Não te alongues na dor da memória
Cura-te.
Não te esqueças na vida
Leva-te.
E se puderes te aceitar
Revela-te.

Homo pensants

Já estou cansado de mudar as minhas rotas de esquecer as minhas metas de esconder minhas derrotas de crescer por códigos beta e de forçar a entrada em alfa de desistir de pisar grama. Já estou farto de querer malhar sorrisos esquecer meu ex-abrigo e morrer de frio nas camas que não me sustentam mais. Estou cheio do vazio inconsistente da miséria insistente do meu luxo não vulgar. Quero cheirar lixo pra parecer gente. Tomar banho pra esquecer meu perfume que mente. Andar descalço pra sentir doer minhas bases pra fazer arder meus pés e ver gritar meus músculos pra sentir de volta a vida pra poder deixar as coisas que eu já tenho e que me enojam. Ir ao fundo para então submergir. Cair porque eu posso levantar. Tomar conta de perder porque eu preciso chorar pra sorrir. Me afundar em lama pra me sujar em água. Despencar no poço que não vai me abrigar. Perder para que eu sofra ao ganhar. Obter coisas fúteis que me fazem rastejar. Ganhar… o lixo que me escraviza e vender meu ar pra poder olhar meu eu… amar. O ridículo de mim quero ver ir embora pra matar de vergonha os ratos que me abraçam. Para que eu possa me sujar e então me sentir limpo. Pra poder viver.

Desperta…dor

O despertador desperta o que já acorda
Os olhos que já vêem
As bocas que se procuram
Com lábios que se inquietam
Que febris, se encontram
Choram ao sorrir, querem por precisar.

Inseguram-se os corpos no descompasso
Do impulso rubro de um jogo louco
Tentativa da fusão essencial
Calmaria de um refluxo que não há
Retomada de uma ausência que não é.

O dia começa, as vidas se separam
O amor toma parte da intersecção dos fatos
De um sem fim surge outro início
Diferente do primeiro, necessário como os dias
Mais clarividente que a escuridão de nossas noites.
E se voltam os corações um ao outro
Mais pela necessidade de se cristalizar e vontade de reviver
Que pela infundada responsabilidade do retorno.