Inhotim – das lindezas de uma terra brasileira

Na semana passada eu estive, pela primeira vez, em Inhotim, o belíssimo Instituto de Arte Contemporânea e Jardim Botânico que fica em Brumadinho, Minas Gerais. Reconhecido como uma OSCIP (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público) pelo Governo de Minas Gerais e pelo Governo Federal, o local tem um acervo de arte contemporânea de excelência, constituído por obras que brilham sob o sol e a sombra do jardim e que também se organizam em modernas galerias espalhadas por 140 hectares. O que se vê é uma íntima interlocução entre Arte e Natureza que enche os olhos e desperta a alma para boas e profundas reflexões. A correria do dia-a-dia urbano revelou-se, quando submergia da minha memória recente, algo absolutamente desprovido de sentido. A grandeza de Inhotim me provocou rever meus vazios. Doeu. Mas me elevou.

Banco construído a partir do tronco caído de uma árvore – Inhotim, Brumadinho – MG, Brasil
Pé de quê eu não sei… mas é lindo!
Umas das lindezas que minha fóvea viu!!!
Ramos, ramos, ramos, ramos… “Balançando naqueles galhos, descansava qualquer pensamento…”
Uma Phalaenopsis assim… sendo rosa e feliz em meio ao verde todo.
Por ilhas e pontes e árvores, árvores, árvores…
Etlingera Elatior e Heliconias esbanjando vida.

Viver é muito, muito difícil

Há cerca de três meses eu fiz o download de um aplicativo que auxilia o registro de humor associado a diferentes atividades, sendo ambos os menus customizáveis, “humor” e “atividades”. Comecei a usá-lo porque vinha notando muitas oscilações de humor e quis fazer uma análise melhor a partir de registros mais detalhados, padronizados e frequentes. Bem, ocorre que aos poucos, fazer o tal do registro foi se tornando maçante, chato e altamente desmotivador porque o vazio da vida foi se escancarando com uma força brutal. Os gráficos iam mostrando oscilações ou então uma linha uniforme entre os dias que, pra dizer a verdade, não faziam nenhum sentido, de forma prática. Nem a oscilação me agradava, tampouco a linha uniforme, reta de dias típicos e normais. Daí, eu parei de registrar no aplicativo. Mas que doce ilusão a minha… eu continuei registrando minha vida do mesmo jeito e então, com muito mais consciência do que antes. E talvez essa seja a causa do meu estado desinquieto, desconfortável, esdrúxulo até. As oscilações entre euforia e forte desmotivação me exaurem, do mesmo jeito que a neutralidade… aquela linha reta e fluida me diz que a vida é besta mesmo… uma mesmice, um suceder de nadas e uma ausência de sentido. Tenho sentido que tudo cansa. As interações humanas cansam, ouvir o outro cansa, falar de mim cansa, ter que explicar porque alguém não entendeu cansa, ficar feliz cansa porque é fato que vai durar pouco e daí cansa ter que deixar de ficar feliz e ficar triste ou sei lá o que. Cansa ter que lidar com o que não dá certo, cansa a frustração. Cansa tanto falar e tanto explicar. Cansa ainda mais o desejo. Ah… como desejar cansa. O desejo é um senhor muito, muito rígido, de cara fechada, de cinta em punho e que escraviza minhas ações. Daí quando eu faço o que eu desejo, me desinquieto porque eu acho ridículo precisar disso pra ficar feliz… porque nunca sei o que me domina, a quem eu sirvo e isso cansa… até porque sei que vai durar pouco e cansa mudar de emoção de novo e de novo e de novo. Cansa ser terapeuta quando eu só quero ser gente mesmo, cansa o olhar do outro sobre mim, cansa as expectativas, cansa a saudade que eu tenho de gente que punha em paz. Cansa essa “vida besta, meu Deus”. Cansa, cansa muito ser quem eu sou, esse jeito cansado de ser.

Uma nova folha

Quando eu persigo a escrita e ela não se deixa alcançar, não se revela, não cede… às vezes eu me detenho olhando a folha, uma nova folha e penso o que caberia bem dentro de seus limites e daí, só por querer ornamentar o espaço, eu tento tão somente esculturar uma bela estética e criar, quem sabe, algum valor que mais valha que estar em branco.

Pensamento de Fayga Ostrower – II

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Colagem da artista ucraniana Anna Bu Kliewer

No momento em que Fayga Ostrower discorre a respeito da elaboração do trabalho criativo, ela diz:

“No trabalho, o homem intui. Age, transforma, configura, intuindo. O caminho em toda tarefa será novo e necessariamente diferente. Ao criar, ao receber sugestões da matéria que está sendo ordenada e se altera sob suas mãos, nesse processo configurador o indivíduo se vê diante de encruzilhadas. A todo instante, ele terá que se perguntar: sim ou não, falta algo, sigo, paro… Isso ele deduz, e pesa-lhe a validez, eventualmente a partir de noções intelectuais, conhecimentos que já incorporou, contextos familiares à sua mente. Mas, sobretudo, ele decidirá baseando-se numa empatia com a matéria em vias de articulação. Procurando conhecer a especificidade do material, procurará também, nas configurações possíveis, alguma que ele sinta como mais significativa em determinado estado de coordenação, de acordo com seu próprio senso de ordenação e o próprio equilíbrio.”

OSTROWER, F. Criatividade e processos de criação. Petrópolis: Vozes, 2014. pag. 70.

O pensamento externalizado de Fayga, neste excerto,  expõe a confusão irremediável que se cria entre nosso interior e os objetos de nossas ações, ao agirmos. Toda e qualquer matéria do fazer humano, seja a palavra, a música, o barro, a tinta, o corpo ou o cimento, se modifica impregnada de elementos intrapsíquicos, por meio de canais fluentes entre o homem e a matéria. Elementos que talvez adormeçam inacessíveis sem este contato. É verdade dizer que em sua obra, reside o artista.

“20 de julho de 2018” ou “Atrasados e Cancelados”

821346FF-FC95-4E30-A872-CF30EFD569A3De lá pra cá, de cá pra lá, as pessoas todas se agitavam para viver o que estava planejado em suas cabeças. Fosse a vida tão pragmática assim e a paz teria reinado no aeroporto de Congonhas naquela sexta-feira, 20 de julho. Mas, sabemos, não é assim que a vida é. “Tudo muda o tempo todo no mundo”… e naquele dia, tudo mudou naquele aeroporto mais do que de costume.

Na manhã do dia 20 de julho de 2018, ocorreu uma falha no radar do aeroporto de Congonhas, o que provocou a suspensão de vôos, afetando a tráfego aéreo em muitas regiões do Brasil. Enquanto nem imaginávamos o que estava acontecendo, o dia se preparava com situações inusitadas, incertezas e frustrações. 

Com meus pezinhos em segunda posição e um sorriso no rosto, estanquei ao ver a fila de embarque organizada no portão 16, e avaliei se ainda cabia um tímido desjejum naqueles poucos minutos que me restavam. Foi então que a voz no auto-falante anunciou que o vôo 3244 para Joinville estava atrasado. A informação era de que o aeroporto de Joinville estava fechado para pousos e decolagens devido a condições climáticas desfavoráveis. Tomada pelo espírito aguerrido da bailarina, pensei logo “posso saltar de para-quedas, amor. Quem precisa pousar em Joinville, se é flutuando mesmo que eu planejei estar lá?” E ri sozinha, claro, como faço quando penso estes pensamentos malucos.

Enquanto eu aguardava a Juliana e a Amandinha, “as duas outras bailarinas do trio em sua mais nova formação”, tomei um café, comi um pão de queijo e, com tranquilidade lidei com a situação com um quase desdém, como se daí a vinte minutos a fila de embarque fosse se construir novamente para ganharmos o nosso destino. 

Só que não foi assim que a coisa toda se deu. Ao final dos vinte minutos, o vôo foi cancelado, empurrando todos para a recuperação da bagagem despachada, na área de desembarque. Nós nos olhamos incrédulas, mas esperançosas e animadas de que o contratempo acrescentaria um tanto de emoção e só!  

Bom… daí por diante, durante as trinta horas seguintes foi uma avalanche de frustrações e situações divertidíssimas, alternando-se numa queda de braços interessante.

Depois do primeiro cancelamento, teve o segundo, depois o terceiro e então mais um e mais um e mais outro. E com a sucessão interminável de atrasos e cancelamentos, painel de vôos desatualizado, totens inoperantes, funcionários raros e completamente perdidos e outros vôos que misteriosamente decolavam… instalou-se o caos.

Com as malas em mãos, retornamos ao check-in e fomos incluídas no vôo 3164, das 13h20. Sem malas de novo, iniciamos uma rotina de passatempo com comidinhas e conjecturas, sessão desabafo enquanto a Amanda dormia sobre a mesa, andanças pelas lojas do aeroporto… experimentamos isto e aquilo, e nos divertimos planejando fotos e os nossos dois dias no Festival de Dança de Joinville. Entusiasmo recuperado, refizemos a rotina de embarque.    

Ah… mas este vôo também foi cancelado. A esta altura, Congonhas tinha fila demais e assentos de menos. As pessoas se amontoavam até em fila que surgia como um atalho para atingir outra fila e chegar antes em algum lugar. Tinha fila que não levava a lugar nenhum. Os monitores de vôo registravam informações antigas e que nem tinham se concretizado.

Comidinhas, esperança, risos nervosos, piadas, trombadas daqui e dali… e nessas horas a gente ainda faz novos melhores amigos porque, como a Ju disse para a senhora que vivia o auge de uma crise nervosa, “a gente tá tudo no mesmo barco…”.

Estupefatas, ouvimos o que temíamos: o cancelamento de mais este vôo, às 15h10. Iniciamos, com isso, a saga da recuperação de bagagens e por este motivo, cruzamos com o Thales e a amiga que estavam indo dançar no Festival e conhecemos o Zezinho que tinha despachado o celular na bagagem e estava tentando ir a Jaguariúna (esta história eu conto outra hora). De quebra, ainda demos duas entrevistas!

Heroicamente, conseguimos deixar o aeroporto com nossas malas e as passagens remarcadas, por volta das 18h30. Isto, depois de muita caminhada e escada, tentativa de sedução da funcionária do embarque e planos mirabolantes de invasão de algum vôo, para convencer o piloto a alterar a rota (sabe-se lá porque aquele vôo pra Brasília saiu, por exemplo…). A esta altura já tínhamos uma peça processual prontinha contra a operadora aérea, usando nossos parcos conhecimentos de Direito. Argumentação daqui, paralelos com outros insucessos dali, consultas pelo WhatsApp… e nos despedimos até a manhã do que seria nosso último esforço.

Sim, às cinco horas do dia seguinte estávamos no aeroporto para viver nossa quarta tentativa de embarque para Joinville. Reencontramos parceiros de frustrações, novos amigos de horas difíceis, como o Michel, e tentamos reorganizar a fila do check-in porque os funcionários já haviam desistido há tempos. Com estratégias em duas frentes, conseguimos ser atendidas pela Karine, atendente Latam do check-in, que nos dedicou a atenção devida.

Finalmente, estávamos a poucos minutos da aeronave! O check-in da Juliana e da Amandinha foi feito, mas, para a nossa surpresa… o meu não. Até agora, não pudemos entender o que houve… assim como a Karine, que também não compreendeu, acreditem! Ela até tentou incluir outro passageiro, considerando a hipótese de haver algo errado com o meu voucher, mas não conseguiu. Foi deste jeito que o sonho de Joinville deste ano ruiu pra mim. E foi deste jeito, que a Ju e a Amanda foram a Joinville. Com lágrimas, coração confuso e uma sensação de incompletude, desajuste.

Não posso imaginar quantas histórias tiveram o rumo alterado naquele dia. Quantas mudanças e imprevistos… Mas qual será que era o rumo certo para cada um de nós, não é? Haverá mesmo esta dualidade inocente entre erro e acerto? Será que somente a rota planejada nos leva ao melhor destino?

Eu não fui a Joinville, mas estive em muitos outros lugares nestes dois dias de Aeroporto de Congonhas. E Ju, que bom que foi com você!

Pensamento de Fayga Ostrower – I

“Quando vemos uma jarra de argila produzida há cinco mil anos por algum artesão anônimo, algum homem cujas contingências de vida desconhecemos e cujas valorizações dificilmente podemos imaginar, percebemos o quanto esse homem, com um propósito bem definido de atender certa finalidade prática, talvez a de guardar água ou óleo, em moldando a terra moldou a si próprio. Seguindo a matéria e sondando-a quanto à “essência de ser”, o homem impregnou-a com a presença de sua vida, com a carga de suas emoções e de seus conhecimentos. Dando forma à argila, ele deu forma à fluidez fugidia de seu próprio existir, captou-o e configurou-o. Estruturando a matéria, também dentro de si ele se estruturou. Criando, ele se recriou.”

(OSTROWER, F. Criatividade e processos de criação. Petrópolis: Vozes, 2014, 30ª ed., p. 51)

Madrugada

Eu não sei ao certo por qual motivo tenho acordado às quatro horas da manhã já há algum tempo. No princípio, pensei que fosse meu estado constantemente preocupado com os afazeres dos meus dias inchados. Cheguei a pensar que fosse uma ou outra dívida, dessas que a gente contrai consigo mesmo. Em uma das noites, a justificativa da falta de atividade física caiu muito bem, até porque a dor era generalizada em meus músculos. Em outras tantas, minha natureza ansiosa e inquieta querendo antecipar o dia… – bem coisa minha querer trazer o dia para a madrugada para ‘já’ resolver problemas que me aguardavam dormindo. Desisti de entender. Cada madrugada, um despertar, cada noite uma certeza de que meu sonho seria interrompido por alguma coisa obscura. Fato é que tenho estado acordada em todas as madrugadas. Daí ela vai me seduzindo com este silêncio, esta quietude que me preenche de paz e alívio. A oportunidade de ouvir o que eu digo sem voz. De fazer poesia sem pressa. De pensar sem que algo me impeça a conclusão, o apogeu. A chance de permanecer no estado das sensações, fazendo-o durar ao eterno. Tudo ganha um contorno de suavidade, de menor solidez, de fluidez. Daí, eu me lembro, com algum pesar, de lugares lindos que eu não conheci sob esta luz sutil e cálida, e que jamais conhecerei… assim, nesta aura. Nada de bibliotecas neste horário, ou parques floridos, nada de escavações no subsolo europeu, nada da vista das torres mais altas vendo cidade acordar. Sendo notívaga convicta agora, dá para entender porque o Louvre tem sido aberto à visitação noturna no verão parisiense – só quem já esteve por aqueles corredores barulhentos ao correr de manhãs e tardes saberá do que falo. Então, a situação é essa: resolvi minha carência de só estar (sem pensar, estudar, trabalhar, discutir, atender, ajudar, pintar, resolver…) dormindo menos. Eu sei… pode ser uma péssima saída. Mas, deste jeito meio bizarro e torto, eu tenho experimentado o divagar do silêncio pela minha casa e escutado os barulhos que eu nunca tinha tempo de escutar. Hoje, além de mergulhar nesta paz profunda, ainda escrevi – multitarefa que sou kkk. Mas é que… convenhamos, ser e escrever, no mundo que eu criei pra mim, são praticamente a mesma coisa.