Para além da curva da estrada…, refletindo Alberto Caeiro

Lendo a “Poesia Completa de Alberto Caeiro” (Fernando Pessoa, São Paulo: Companhia das Letras, 2005), com comprometimento total pela primeira vez, tenho me deparado com versos que fariam festejar o mais dedicado adepto do Mindfulness. É uma celebração do agora, do estado presente, dos sentidos, da percepção, do palpável, do que se alcança hoje. É uma mensagem que vai bastante além da valorização da natureza. Toca o que há de essencial na própria essência, o núcleo, o imprescindível. Na página 88, abrindo “Poemas Inconjuntos”, revela-se o poema antídoto da ansiedade. É só ler e reler…

“Para além da curva da estrada                                                                         Talvez haja um poço, e talvez um castelo,                                                           E talvez apenas a continuação da estrada.                                                       Não sei nem pergunto.                                                                               Enquanto vou na estrada antes da curva                                                             Só olho para a estrada antes da curva,                                                       Porque não posso ver senão a estrada antes da curva.                                 De nada me serviria estar olhando para outro lado                                           E para aquilo que não vejo.                                                                         Importemo-nos apenas com o lugar onde estamos.                                     Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer.                 Se há alguém para além da curva da estrada,                                             Esses que se preocupem com o que há para além da curva da estrada.   Essa é que é a estrada para eles.                                                                       Se nós tivermos que chegar lá, quando lá chegarmos saberemos.             Por ora só sabemos que lá não estamos.                                                     Aqui há só a estrada antes da curva, e antes da curva                                     Há a estrada sem curva nenhuma.”

 

Dia das Mães, 10 de maio de 2020

Meu nome é Grace, eu tenho 42 anos e viver este Dia das Mães está sendo bastante diferente do que foi vivê-lo nos últimos anos. Estamos no meio da pandemia do novo coronavírus, vivendo em afastamento social, e por isso não pude ir até minha mãe abraçá-la e declarar pessoalmente tudo o que eu guardo em meu coração, toda a gratidão pela dedicação desmedida para me fazer quem eu sou. Como não ia mesmo ter o calor do abraço, eu decidi fazer um vídeo para homenageá-la. Então, ontem eu me embrenhei por fotografias guardadas, antigas, fazendo um vai-e-vem entre o passado mais antigo e aquele nem tão antigo assim. Consegui selecionar algumas e montar o vídeo que eu queria.

Só que navegar entre fotos não é tão simples para mim. Elas exercem um grande fascínio e poder sobre minhas emoções. Conseguem me transportar para lugares, me fazem sentir cheiros, o vento, o amor e a dor dos momentos ali registrados. Eu fiz o vídeo, gostei muito de fazê-lo, mas as fotografias ficaram passeando em mim e me fizeram revisitar becos para onde não ia já há algum tempo.

Dormi, acordei e conversei com a minha amada, que tinha um sorriso lindo no rosto, terno, genuíno, forte. Falamos sobre o vídeo, declarei todo o meu amor e a minha gratidão. Daí, ela me nocauteou dizendo que carrega no peito a tristeza de não poder ter me ajudado a ser mãe.

E então, me dei conta, com mais seriedade, de que eu não serei mãe. Não mais. Não, em definitivo. Tenho uma mutação genética – reconhecida por mim desde muito pequena – que, entre outros efeitos, me pôs em menopausa aos 41 anos. No exame que fiz essa semana, avaliando ovários e endométrio, a médica disse assim… “o útero e os ovários já estão bem atrofiados, bem pequenininhos”. Achei tão louvável a tentativa dela em ser delicada, usando a palavra “pequeno” no diminutivo, mas para mim foi intenso sair da categoria do pequeno para um diminutivo enfaticamente decretado. Entrei no processo de falência do meu sistema reprodutor há mais de sete anos, mas finalmente ler “resultados normais para menopausa” me colocou em outro lugar na vida.

Hoje eu reconheço que apesar de alimentar uma perspectiva tão racional da coisa toda, repetindo a mim mesma e para os outros que estava tudo bem e que eu sempre soube que não seria mãe, eu desejei muito, muito, ser mãe. Desejei ser mãe vendo mães serem inadequadas, mas também vendo mães serem maravilhosas. Desejei ser mãe de tantas crianças que eu vi brincando na grama, correndo em festas, passeando no shopping. Desejei ser mãe de crianças que eu vi crescer pertinho de mim. Desejei ser mãe de crianças que não têm mãe.

Não sei dizer ao certo o quanto esse desejo vive no presente, o quanto é uma saudade de quando eu vivia no tempo do possível. Não sei de muita coisa sobre mim. Mas sei, mãe, que você não tem culpa de nada. Só tem uma enorme responsabilidade de ter me feito uma mulher forte, engajada, inteira, lutadora.

Jamais viverei o Dia das Mães sendo mãe, mas espero vivê-lo como filha, tendo o seu aconchego para sempre.  

Falta

The Art of Not Panicking | Wired For Happy
wiredforhappy.com
A partir de Pinterest

Falta ar
Falta flor
O sorriso solto
Sobra dor
Falta a calma que eu nunca tive
Falta a alma sublime
A leveza sem medo
Falta espaço
Na minha garganta
Falta passo
No dia inteiro
Sobra aviso
E alarme
Falta árvore
Falta alívio
Ruído de riso amigo
Falta ar
No meu abrigo.

Inteligências de Mia Couto

Não é recente a expressão de Mia Couto no mundo, mas é recente o meu mergulho na sua literatura. Há algumas semanas, terminei “Antes de nascer o mundo” (Companhia das Letras, 2009), tecido sedutoramente entre rudezas e levezas num balanço refinado de prosa e poesia. Fui criando dobras nas páginas no correr da leitura para me lembrar de registrar o que me despertou pensar mais, ver do avesso, girar conceitos, redesenhar. Segue aqui minha dobra da página 241:

“Eis a lição que aprendi em Jesusalém: a vida não foi feita para ser pouca e breve. E o mundo não foi feito para ter medida.” (Disse assim Mwanito!).

E se as tristezas forem mais do que as levezas…?

Não há dia que se faça somente de choro, ou só de riso, só de dentes aparecendo à toa, sabe? Ou só de coração batendo apertado e respiração curta, miúda e seca… Não há dia construído só disso ou só daquilo. Cada dia tem em si muitos dias que talvez não sejam… e outros tantos que certamente serão. Um dia é uma entidade bipolar por natureza. Tem dia que é pura noite, dia que nem se sente a noite, dia que se encomprida e pula a noite até ser dia de novo. Há dias em que levezas, adornadas de muitas e sutis belezas, fazem sorrir em segredo a alma e dançar a música que cadencia nossa voz. Mas tem dias… outros dias, em que tristezas são mais que as levezas. Daí, é de se pegar o dia claro que poderia ser e fazê-lo livre, viver.

Inhotim – das lindezas de uma terra brasileira

Na semana passada eu estive, pela primeira vez, em Inhotim, o belíssimo Instituto de Arte Contemporânea e Jardim Botânico que fica em Brumadinho, Minas Gerais. Reconhecido como uma OSCIP (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público) pelo Governo de Minas Gerais e pelo Governo Federal, o local tem um acervo de arte contemporânea de excelência, constituído por obras que brilham sob o sol e a sombra do jardim e que também se organizam em modernas galerias espalhadas por 140 hectares. O que se vê é uma íntima interlocução entre Arte e Natureza que enche os olhos e desperta a alma para boas e profundas reflexões. A correria do dia-a-dia urbano revelou-se, quando submergia da minha memória recente, algo absolutamente desprovido de sentido. A grandeza de Inhotim me provocou rever meus vazios. Doeu. Mas me elevou.

Banco construído a partir do tronco caído de uma árvore – Inhotim, Brumadinho – MG, Brasil
Pé de quê eu não sei… mas é lindo!
Umas das lindezas que minha fóvea viu!!!
Ramos, ramos, ramos, ramos… “Balançando naqueles galhos, descansava qualquer pensamento…”
Uma Phalaenopsis assim… sendo rosa e feliz em meio ao verde todo.
Por ilhas e pontes e árvores, árvores, árvores…
Etlingera Elatior e Heliconias esbanjando vida.

Viver é muito, muito difícil

Há cerca de três meses eu fiz o download de um aplicativo que auxilia o registro de humor associado a diferentes atividades, sendo ambos os menus customizáveis, “humor” e “atividades”. Comecei a usá-lo porque vinha notando muitas oscilações de humor e quis fazer uma análise melhor a partir de registros mais detalhados, padronizados e frequentes. Bem, ocorre que aos poucos, fazer o tal do registro foi se tornando maçante, chato e altamente desmotivador porque o vazio da vida foi se escancarando com uma força brutal. Os gráficos iam mostrando oscilações ou então uma linha uniforme entre os dias que, pra dizer a verdade, não faziam nenhum sentido, de forma prática. Nem a oscilação me agradava, tampouco a linha uniforme, reta de dias típicos e normais. Daí, eu parei de registrar no aplicativo. Mas que doce ilusão a minha… eu continuei registrando minha vida do mesmo jeito e então, com muito mais consciência do que antes. E talvez essa seja a causa do meu estado desinquieto, desconfortável, esdrúxulo até. As oscilações entre euforia e forte desmotivação me exaurem, do mesmo jeito que a neutralidade… aquela linha reta e fluida me diz que a vida é besta mesmo… uma mesmice, um suceder de nadas e uma ausência de sentido. Tenho sentido que tudo cansa. As interações humanas cansam, ouvir o outro cansa, falar de mim cansa, ter que explicar porque alguém não entendeu cansa, ficar feliz cansa porque é fato que vai durar pouco e daí cansa ter que deixar de ficar feliz e ficar triste ou sei lá o que. Cansa ter que lidar com o que não dá certo, cansa a frustração. Cansa tanto falar e tanto explicar. Cansa ainda mais o desejo. Ah… como desejar cansa. O desejo é um senhor muito, muito rígido, de cara fechada, de cinta em punho e que escraviza minhas ações. Daí quando eu faço o que eu desejo, me desinquieto porque eu acho ridículo precisar disso pra ficar feliz… porque nunca sei o que me domina, a quem eu sirvo e isso cansa… até porque sei que vai durar pouco e cansa mudar de emoção de novo e de novo e de novo. Cansa ser terapeuta quando eu só quero ser gente mesmo, cansa o olhar do outro sobre mim, cansa as expectativas, cansa a saudade que eu tenho de gente que punha em paz. Cansa essa “vida besta, meu Deus”. Cansa, cansa muito ser quem eu sou, esse jeito cansado de ser.