Sobre almas sem ordem e a necessidade de controle

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Eu não vivo sozinha no mundo, há na verdade bilhões e bilhões com quem divido espaços, vazios e outras coisas mais. É assim com quase todo mundo. A gente vive junto, faz isso e aquilo grudado ou afastado, bem longe ou do lado, mas o fato é que não falta contato… e é neste tal de contato que as coisas mais escabrosas acontecem.

(Paremos, irmãos, por dois minutos, de pensar nas coisas lindas e cor-de-rosa – não gosto de cor-de-rosa!, corrijo: lindas e adocicadas do contato humano).

Uma das coisas que tem me aterrorizado é este clamor pela ditadura. E daí, pensando e pensando e… mais sentindo que pensando nestes dias, refleti que o que tem me incomodado tanto é, na verdade, o que as pessoas fazem para exercer o controle e o desejo que muitas têm de serem controladas. É a obsessiva-repetição-sistemática (e camuflada de “ordem” – éééééééé… tá lá na bandeira nacional) de comportamentos ansiosos por controlar tudo o que está aqui, no exterior palpável, nesta loucura tangível onde a gente vive. Ah… aaahhhhh… que este mundo não tem controle, minha gente! A tentativa – é evidente! -, é de tentar por alguma ordem em si mesmo, organizar o caos da alma. A questão é que nesta lida insana, quando se põe em contato com outras pessoas, este alguém inflige dor e aprisiona outra alma humana.
Por isso, eu sou a favor da intervenção (pra usar a palavra mais dita do momento) psicológica. Porque ela nos apresenta a nós mesmos. E é só este conhecimento que pode por alguma ordem no caos. Massss, para quem achar que ela não serve, justificando que “é outra forma de controle”, ainda há Osho, Arte, yoga e olhar de criança, que ajudam a revelar o que há lá, naquele ponto que não tem nome, que é o que nós somos (Viva Saramago!).

Possibilidades

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Foto: Grace Cristina Ferreira-Donati Local: Quinta Real Caxias, Caxias, Portugal Monumental e singular cascata, com edificações ao redor repletas de referências românticas e bucólicas. Encontra-se classificada como imóvel de interesse público (1953).

“Há quem refugue ante portas cerradas, há quem se inquiete a imaginar a realidade que se põe ao outro lado, há quem só olha a porta e se alegra, por ser a sua existência, ela só, toda a promessa de possibilidades”.

Ecos na releitura de “O mundo de Sofia” – Eco #3

Eco #3 – página 437 “Ele [Darwin] estava pensando nas mesmas forças que continuam atuando até hoje: o clima, o vento, o degelo, os terremotos e as elevações do solo. Todo mundo sabe que ‘água mole em pedra dura tanto bate até que fura’. E isto não acontece por causa da força da água, mas pela constância, pela insistência das gotas. Lyell acreditava que tais alterações, pequenas e graduais, eram capazes de alterar completamente a natureza a longo prazo. E Darwin pressentiu que esta ideia não explicaria apenas o porquê de ele ter encontrado fósseis de animais marinhos no alto dos Andes. Durante toda a sua vida como pesquisador, ele nunca se esqueceu de que alterações lentas e graduais podiam levar a transformações dramáticas, se se considerasse o fator tempo.”

Eco: Alguém já disse que nada é, tudo está…. que a vida é impermanência (ouço isso em casa – é um privilégio). E se a cada dia, eu acordo outra… devo por na minha lista de tarefas no Todoist me olhar no espelho, escrutinar as pequenas mudanças, espiar os movimentos ínfimos e decisivos que me alteram e me mantém. Devo explorar que brilho novo ou qual opacidade nova vive. Qual parcela minha não sabe ainda nada de si e qual começo antigo poderá ganhar asas na revolução do dia.

 

Pelo Dia das Crianças e o que é viver a infância no Brasil de hoje

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Escultura de Jurga Martin

Eu poderia escrever uma poesia exultando a singeleza desta fase linda do ciclo da vida que é a infância, mas neste ano eu decidi falar sobre o que falta às nossas crianças e sobre tudo o que lhes roubamos.
O direito à alimentação saudável lhes é negado. As crianças pobres não têm o que comer. As demais recebem fast food, como prêmio pelas conquistas cotidianas.
O direito à educação de qualidade lhes é negado. As crianças pobres são mal incentivadas, apesar de heróicos professores. As demais recebem uma avalanche de conteúdos segmentados, fracos, em pacotes fechados, sem qualquer flexibilização ao seu modo de aprender. A parcela que se educa é também pelo esforço de heróicos professores e porque nossas crianças são incríveis mesmo.
O direito ao atendimento educacional especializado às crianças com deficiência lhes é negado. Mas para falar sobre isso, teríamos que discutir o conceito de “especializado”, coisa para mais de 500 palavras. Fica para outro dia.
O direito à opinião e expressão lhes é negado. Quando as crianças falam, elas pouco são ouvidas. Conversa em sala de aula é sempre sinal de bagunça. Raramente há espaço para o diálogo e o debate de ideias. Em síntese, as crianças que falam não são ouvidas. As crianças que não falam são ignoradas em suas necessidades mais básicas e nunca têm acesso a uma via alternativa de comunicação. O que eu assisto semanalmente é uma negligência desmedida ao direito da criança de se comunicar.
O direito à proteção lhes é negado. Nossas crianças são violentadas de muitas maneiras. Nossas meninas não são comemoradas quando nascem e após poucos anos são violadas pelos parentes mais próximos. Nossos meninos aprendem a conter o choro, apesar das feridas e da dor. Nossas crianças vivem na beira da estrada, têm criminosos como modelo e brincam com armas de fogo. Elas presenciam na própria casa o pior que exala de nós e são reprimidas a desenhar para que a casa permaneça como a foto da revista.
Não se trata do que o dinheiro dos pais pode comprar. Os maus tratos se esgueiram dissimulados pela capa do status elevado e se arreganham na periferia onde impera o “salve-se quem puder”.
A obrigação de zelar por esta e aquela criança é nossa. Temos todos a responsabilidade, o compromisso com a vida de cada criança brasileira. Furtamo-nos de lutar pela criança que passa ao nosso lado na rua, com roupas rasgadas e também pela criança cheirosa de família abastada que fecha os ouvidos ao que ela diz. Crianças são usadas e abusadas para satisfazer os desejos dos adultos. Não importa se o abuso é sexual ou não… ainda assim é estupro. Crianças fazem o que os adultos querem e os adultos se eximem de tomar decisões e guiar, com respeito à liberdade e aos seus direitos, a vida frágil que se inicia. Ignoramos cotidianamente as pequenas e as grandes violências.
O meu recado final é de que cuidar das nossas crianças é um dever meu, seu, do seu vizinho, da professora, do síndico, do médico, da moça que me vende cosmético, dos ministros, do presidente.
Cuidar não é reproduzir a ação da modinha do Face, ou o que a mídia, suja e mercantilista já nos disciplinou a fazer. Muito menos, deixar-se guiar pelo que a criança acha que é bom para ela, que não tem domínio de si nem dos perigos deste mundo cada vez mais insano.
Nós podemos fazer mais pelas nossas crianças, não importa o quanto incrível você ou eu nos julguemos.

Máscaras de oxigênio

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“Em caso de despressurização, máscaras de oxigênio cairão automaticamente à sua frente. Coloque-a primeiro em você e somente depois ajude as pessoas que precisarem.” Este é um trecho das orientações sobre medidas de segurança que são enunciadas nos vôos do mundo todo. Eu já a ouvi muitas vezes, considero que já compreendo muito bem a recomendação mas, medrosa que sou, ainda dedico toda a minha atenção cada vez que um membro da tripulação se põe a repeti-la aos passageiros. “Vai que desta vez eu preciso…”, é o que eu sempre penso.
Viajando sozinha e recoberta por reflexões que me foram provocadas nos últimos dias, ouvi hoje a orientação de um jeito novo, como se eu nunca a tivesse escutado: “…primeiro você, depois os outros…” foi o que a comissária falou. Na verdade, tive a sensação de que a mocinha da animação do vídeo de segurança olhou e piscou pra mim. Quase ouvi meu nome após a pausa reticente do final da frase. Acho que ouvi!
Fantasiei que a mensagem continua sendo repetida em cada vôo porque não tenho feito certo e por isso o universo resolveu insistir comigo. Na maioria dos dias, fico sem máscara porque uso todas as que eu encontro para colocá-las em quem está perto de mim e, claro, como resultado óbvio, termino o dia sem ar. Não sou a única… é um pecado habitual de muitos que se repete, se repete… até se tornar parte de quem se é. Pois é… a mocinha do vídeo e a voz austera da comissária me deram o que pensar.
De onde nasce verdadeiramente este comportamento de auto-flagelação ou de negligência de si próprio que insistimos em manter? Talvez, a capa acetinada de herói nos tenha sido vendida sem manual qualquer. Talvez, tenhamos sido convencidos de que bom mesmo é quem se doa integralmente e se esquece. Essas mensagens são propagadas aos quatro ventos numa interpretação rasa dos ideais de grandes homens. Abandonar-se não é lógico, não é inteligente e produz uma série de efeitos danosos em cascata. Relegar-se ao segundo plano é mesmo desmerecer a própria importância como instrumento do que quer que seja… é deixar de zelar por alguém que pode ser um instrumento de paz junto a outro alguém. Para se priorizar o outro, é preciso ter condições de entregar o que se pretende ou o necessário no momento do auxílio. E ninguém é capaz disso ao perder-se de si mesmo.
Acho que hoje, os esforços de muitas pessoas queridas que tentam me ensinar a cuidar de mim mesma tiveram uma vitória. Cheque você também em que condições está a sua máscara. E lembre-se: preserve sua vida antes para que tenha o que oferecer ao seu próximo. Cuide-se!

Sobre “O lar da Sra. Peregrine para crianças peculiares”

img_0718.jpgO longa lançado em setembro de 2016 e que foi disponibilizado recentemente na TV paga brasileira tem a assinatura, a digital e a alma de Tim Burton. A produção tem por base a primeira história de uma trilogia escrita por Ransom Riggs, mas a narrativa foi vestida por Tim Burton com o número e o estilo perfeitos para impressionar e impulsionar algumas reflexões.
A descrição apresentada em diversos sites de crítica, aponta os peculiares como indivíduos com traços sobrenaturais que eram respeitados no passado e são atualmente perseguidos por “peculiares do mal”.
A Sra. Peregrine, uma peculiar da espécie Ymbrine capaz de se transformar em um falcão-peregrino e manipular o tempo, tem a responsabilidade de cuidar de um grupo de crianças peculiares que vivem segregadas por não se ajustarem aos limites demarcados pela sociedade. A este ponto devo dizer que estabeleci uma relação entre as crianças peculiares da história com as crianças com deficiência dos meus dias reais ainda durante a leitura do título, meses atrás enquanto via sugestões de filmes numa revista qualquer. Finalmente, assisti o filme por estes dias e finalmente conheci os adoráveis seres especiais que dão vida à história.
Ao meu ver avistar semelhanças entre crianças peculiares e crianças com deficiência não demanda uma ginástica mental muito vigorosa. E é sobre isso que eu pretendo falar. Antes, porém, é necessário fazer um rabisco dos personagens.
No filme, Emma é uma adolescente mais leve que o ar, capaz de dominá-lo como ninguém. Ela precisa usar sapatos de chumbo ou uma cinta que a prenda quando está sentada para evitar que flutue. Vivem no orfanato também Fiona, que tem domínio sobre o desenvolvimento de qualquer vegetal e Horace, capaz de projetar seus sonhos através de um monóculo. Enoch é capaz de ressuscitar indivíduos mortos e dar vida a objetos inanimados e Millard tem o dom da invisibilidade. Ainda temos uma menina pequena, mas capaz de uma força descomunal, outra garotinha doce cheia de cachinhos e que tem uma boca enorme na parte detrás da cabeça e uma adolescente com o poder de gerar fogo.
Há ainda outros peculiares, cada qual com um dom que extrapola limites muito elevados do que consideramos sobrenatural.
O que ocorre, como ponto crucial no início da trama, é que o avô de Jake – o adolescente protagonista – lhe orienta, segundos antes de morrer sob circunstâncias bastante estranhas, a procurar por uma ilha no País de Gales onde tudo lhe será revelado. É assim que Jake chega até o lar das crianças peculiares e encontra uma sensação de identidade que logo se torna mais clara e palpável.
Com os minutos de filme se sucedendo, fui levada a evocar muitas conexões entre o conceito de estigma desenvolvido por Goffman, minhas percepções sobre desvio, diferença, habilidade e deficiência e os takes de cenas terapêuticas que vivo junto a pessoas com autismo e outras diferenças. Eu vi – vi mesmo – no filme que foi se desenvolvendo no meu imaginário, todos os meninos e as meninas, os homens e as mulheres com superpoderes que eu conheço. Ocorreu que não ficou ninguém que eu conheço de fora. A ideia de que somos todos peculiares, com dons e diferenças não me deixou dormir porque o filme que começou a rodar em mim não chegava aos créditos. Eu revivi uma enormidade de situações em que assisti pessoas terem mais força do que elas demonstravam ter, assim com ocorre com a Bronwyn. Eu conheço garotinhos que quase flutuam na minha frente (desconfio que flutuem quando ninguém está vendo!), assim como a Emma é capaz de fazer. Há quem não se faça notar, sendo invisível, e por isso mesmo é capaz de enxergar coisas que ninguém mais vê. Minha tia, que não possui destreza motora, faz vasos maravilhosos onde as flores crescem e florescem. Eu nunca consegui fazer igual porque esta não é minha peculiaridade. Nunca conheci alguém que não tivesse algo deficiente em si. Também nunca conheci alguém que não tivesse um dom. Por isso, – com o perdão do clichê – tenho pensado há bastante tempo que a diferença é o que nos iguala. O filme rotulou de peculiaridade talvez o que seja a própria condição humana.
Será que reagimos intensamente diante das diferenças porque temos medo de que as nossas próprias diferenças bem escondidas se revelem? O que marca, de fato, a distinção social entre peculiaridade e deficiência? Se você decidir jogar luz à diferença que representa uma vantagem, então teremos um peculiar, por mais esquisita, bizarra e atípica que a diferença seja. Contudo, se decidir iluminar a incapacidade, a inabilidade, o déficit, teremos uma pessoa com deficiência. Parece sim ser uma questão de escolha, do grau de abertura do foco de luz, do que se decide enxergar, inclusive em si memo. No lar da Sra. Peregrine, cada um sabe fazer algo muito bem e cada um não sabe ou não consegue realizar várias coisas também. No lar, a norma é ser extraordinário, o traço comum é o da atipia. A diferença de cada um é extravagante, determina vantagem em certas circunstâncias e desvantagem em muitas outras. O traço forte da identidade de Emma é o poder que ela tem de direcionar o ar. Mas, por ser assim, ela precisa ser segurada por colegas, amarrada em certas situações, e usa sapatos de chumbo para não sair voando por aí. Honestamente, suas órteses – ops! – seus sapatos não combinam com o vestido rodado, de tecido delicado e fluido. Mas ninguém liga pra isso. Porque eles são necessários sendo ela quem é. Olive precisa usar luvas longas para evitar queimar o que ela toca, mas não vi ninguém a tratar mal por isso. Naquela sociedade, criada numa fenda do tempo, há tolerância, aceitação, consciência dos limites bem estabelecidos para a convivência pacífica e harmoniosa. Certo. O notável professor Sadao Omote, que me instigou a refletir sobre estas questões anos atrás, diria que algo assim se configura numa utopia e me recomendaria reler Goffman e Huxley. Realmente, se os peculiares avançarem para os espaços onde vivem não peculiares teremos um novo filme, uma nova ordem, de uma complexidade sem tamanho… a mesma que nos envolve nos dias atuais e que submete as pessoas com quaisquer diferenças mais marcantes a uma odisseia diária, a vida como tarefa hercúlea. E qual existência não é, afinal?
Em um momento dramático, quando o filme já rodou o suficiente para deixar a cabeça quente de tanto pensar, os peculiares deixam sua fenda e se misturam aos típicos porque precisam destruir o que os ameaça. Depois da batalha, sem líder ou Ymbrine para lhes proteger, a conclusão é de que não precisam mais de proteção porque Jake os ensinou a ter coragem. As opções se põem assim, então, aos peculiares: viver segregados e protegidos ou misturados em exercício de coragem e enfrentamento. Agora, me diga… o que você tem escolhido pra você? E mais… qual escolha tem estimulado sua criança a fazer? Enquanto você pensa sobre isso também, preciso dizer que outras questões permanecem me afligindo, como por exemplo…. se as Ymbrines têm a função de zelar por seus peculiares, quem mesmo cuida das Ymbrines?
Espero que você assista o filme e que cuide da sua peculiaridade. Se você não se reconhece um peculiar… torço para que alguém lhe dê logo um espelho.

Viver é melhor que sonhar… como nossos pais

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Elis Regina, Belchior, Vinicius, Tom, Caetano… sempre conversaram comigo… quero dizer que sempre me dispus a uma conversa aberta e franca com eles, ainda que eu nunca tenha tido a pretensão de compreender intimamente suas mensagens. Sei que mergulham em águas profundas e não me engano achando que posso, verdadeiramente, acompanhá-los.
Essa letra de Belchior tem, dia ou outro, tomado minhas pequenas viagens daqui para lá, quando – em vez de apenas dirigir! – divago, navego e me perco (ou me encontro) pondo as ideias em ordem. Será para sempre uma canção da moda pra mim. Um hino que nos lembra quem somos de verdade e onde estamos… onde permanecemos, imóveis, quietos.

Não quero lhe falar meu grande amor
De coisas que aprendi nos discos
Quero lhe contar como eu vivi
E tudo o que aconteceu comigo
Viver é melhor que sonhar
E eu sei que o amor é uma coisa boa
Mas também sei
Que qualquer canto é menor do que a vida
De qualquer pessoa

Por isso cuidado meu bem
Há perigo na esquina
Eles venceram e o sinal
Está fechado pra nós
Que somos jovens…

Para abraçar seu irmão
E beijar sua menina, na rua
É que se fez o seu braço,
O seu lábio e a sua voz…

Você me pergunta pela minha paixão
Digo que estou encantada como uma nova invenção
Eu vou ficar nesta cidade não vou voltar pro sertão
Pois vejo vir vindo no vento cheiro da nova estação
Eu sinto tudo na ferida viva do meu coração…

Já faz tempo eu vi você na rua
Cabelo ao vento, gente jovem reunida
Na parede da memória esta lembrança
É o quadro que dói mais…

Minha dor é perceber
Que apesar de termos feito tudo o que fizemos
Ainda somos os mesmos e vivemos
Ainda somos os mesmos e vivemos
Como os nossos pais…

Nossos ídolos ainda são os mesmos
E as aparências não me enganam não
Você diz que depois deles não apareceu mais ninguém
Você pode até dizer que eu tô por fora
Ou então que eu tô inventando…

Mas é você que ama o passado e que não vê
É você que ama o passado e que não vê
Que o novo sempre vem…

Hoje eu sei que quem me deu a ideia
De uma nova consciência e juventude
Tá em casa, guardado por Deus
Contando vil metal…

Minha dor é perceber que apesar de termos
Feito tudo, tudo, tudo, tudo o que fizemos
Nós ainda somos os mesmos e vivemos
Ainda somos os mesmos e vivemos
Ainda somos os mesmos e vivemos
Como os nossos pais…

Permita-se a dor

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Há tempos tenho refletido sobre a cultura da felicidade que percorre nossas ruas, põe em nossas gargantas uma válvula que impede o extravasamento da dor e em nossa face, o brilho opaco do sorriso planejado. O resultado é um caos interno que nos desorganiza e irrompe em males perversos.
Já é possível classificar o comportamento como um ato reflexo, habilidade instalada precocemente e repetida, repetida e generalizada, consistentemente automatizada. Há um acordo tácito e amargo assumido entre quem sofre a dor e quem a assiste gritar. De um lado, a pessoa se lança a uma exagerada busca de controle e de outro, todo o entorno se mobiliza para que este plano tenha sucesso, e que, sendo assim, a dor desapareça, rápida e silenciosamente. O incoerente neste contexto é que dores não desaparecem assim… ao sabor do gosto de alguém, ou para se manter intacto o cenário da cozinha iluminada com cheiro de pão quente e margarina. É da natureza da dor doer. É um benefício biológico sentir a dor, expressá-la e buscar amparo. Dores não desaparecem assim… A criança que corta o pé sente dor. O menino que cai da bicicleta sente dor. A adolescente magoada pela amiga sente dor. O velho que perde sua esposa sente dor. Dói nascer. Dói crescer. Dói perder e… talvez doa morrer. A cada um cabe a sua dor e a todos nós cabe o respeito, o abraço longo, o peito voluntário, o colo ao lamento. Não cabe a quem assiste a dor sufocá-la, calar o grito ou estancar sua vida. Não nos cabe exigir a força que se esvai ou subestimar a ferida. Porque a cada um de nós cabe um tanto de dor, e a todos nós cabe, irrestritamente, o amor.