Pensamento de Fayga Ostrower – II

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Colagem da artista ucraniana Anna Bu Kliewer

No momento em que Fayga Ostrower discorre a respeito da elaboração do trabalho criativo, ela diz:

“No trabalho, o homem intui. Age, transforma, configura, intuindo. O caminho em toda tarefa será novo e necessariamente diferente. Ao criar, ao receber sugestões da matéria que está sendo ordenada e se altera sob suas mãos, nesse processo configurador o indivíduo se vê diante de encruzilhadas. A todo instante, ele terá que se perguntar: sim ou não, falta algo, sigo, paro… Isso ele deduz, e pesa-lhe a validez, eventualmente a partir de noções intelectuais, conhecimentos que já incorporou, contextos familiares à sua mente. Mas, sobretudo, ele decidirá baseando-se numa empatia com a matéria em vias de articulação. Procurando conhecer a especificidade do material, procurará também, nas configurações possíveis, alguma que ele sinta como mais significativa em determinado estado de coordenação, de acordo com seu próprio senso de ordenação e o próprio equilíbrio.”

OSTROWER, F. Criatividade e processos de criação. Petrópolis: Vozes, 2014. pag. 70.

O pensamento externalizado de Fayga, neste excerto,  expõe a confusão irremediável que se cria entre nosso interior e os objetos de nossas ações, ao agirmos. Toda e qualquer matéria do fazer humano, seja a palavra, a música, o barro, a tinta, o corpo ou o cimento, se modifica impregnada de elementos intrapsíquicos, por meio de canais fluentes entre o homem e a matéria. Elementos que talvez adormeçam inacessíveis sem este contato. É verdade dizer que em sua obra, reside o artista.

“20 de julho de 2018” ou “Atrasados e Cancelados”

821346FF-FC95-4E30-A872-CF30EFD569A3De lá pra cá, de cá pra lá, as pessoas todas se agitavam para viver o que estava planejado em suas cabeças. Fosse a vida tão pragmática assim e a paz teria reinado no aeroporto de Congonhas naquela sexta-feira, 20 de julho. Mas, sabemos, não é assim que a vida é. “Tudo muda o tempo todo no mundo”… e naquele dia, tudo mudou naquele aeroporto mais do que de costume.

Na manhã do dia 20 de julho de 2018, ocorreu uma falha no radar do aeroporto de Congonhas, o que provocou a suspensão de vôos, afetando a tráfego aéreo em muitas regiões do Brasil. Enquanto nem imaginávamos o que estava acontecendo, o dia se preparava com situações inusitadas, incertezas e frustrações. 

Com meus pezinhos em segunda posição e um sorriso no rosto, estanquei ao ver a fila de embarque organizada no portão 16, e avaliei se ainda cabia um tímido desjejum naqueles poucos minutos que me restavam. Foi então que a voz no auto-falante anunciou que o vôo 3244 para Joinville estava atrasado. A informação era de que o aeroporto de Joinville estava fechado para pousos e decolagens devido a condições climáticas desfavoráveis. Tomada pelo espírito aguerrido da bailarina, pensei logo “posso saltar de para-quedas, amor. Quem precisa pousar em Joinville, se é flutuando mesmo que eu planejei estar lá?” E ri sozinha, claro, como faço quando penso estes pensamentos malucos.

Enquanto eu aguardava a Juliana e a Amandinha, “as duas outras bailarinas do trio em sua mais nova formação”, tomei um café, comi um pão de queijo e, com tranquilidade lidei com a situação com um quase desdém, como se daí a vinte minutos a fila de embarque fosse se construir novamente para ganharmos o nosso destino. 

Só que não foi assim que a coisa toda se deu. Ao final dos vinte minutos, o vôo foi cancelado, empurrando todos para a recuperação da bagagem despachada, na área de desembarque. Nós nos olhamos incrédulas, mas esperançosas e animadas de que o contratempo acrescentaria um tanto de emoção e só!  

Bom… daí por diante, durante as trinta horas seguintes foi uma avalanche de frustrações e situações divertidíssimas, alternando-se numa queda de braços interessante.

Depois do primeiro cancelamento, teve o segundo, depois o terceiro e então mais um e mais um e mais outro. E com a sucessão interminável de atrasos e cancelamentos, painel de vôos desatualizado, totens inoperantes, funcionários raros e completamente perdidos e outros vôos que misteriosamente decolavam… instalou-se o caos.

Com as malas em mãos, retornamos ao check-in e fomos incluídas no vôo 3164, das 13h20. Sem malas de novo, iniciamos uma rotina de passatempo com comidinhas e conjecturas, sessão desabafo enquanto a Amanda dormia sobre a mesa, andanças pelas lojas do aeroporto… experimentamos isto e aquilo, e nos divertimos planejando fotos e os nossos dois dias no Festival de Dança de Joinville. Entusiasmo recuperado, refizemos a rotina de embarque.    

Ah… mas este vôo também foi cancelado. A esta altura, Congonhas tinha fila demais e assentos de menos. As pessoas se amontoavam até em fila que surgia como um atalho para atingir outra fila e chegar antes em algum lugar. Tinha fila que não levava a lugar nenhum. Os monitores de vôo registravam informações antigas e que nem tinham se concretizado.

Comidinhas, esperança, risos nervosos, piadas, trombadas daqui e dali… e nessas horas a gente ainda faz novos melhores amigos porque, como a Ju disse para a senhora que vivia o auge de uma crise nervosa, “a gente tá tudo no mesmo barco…”.

Estupefatas, ouvimos o que temíamos: o cancelamento de mais este vôo, às 15h10. Iniciamos, com isso, a saga da recuperação de bagagens e por este motivo, cruzamos com o Thales e a amiga que estavam indo dançar no Festival e conhecemos o Zezinho que tinha despachado o celular na bagagem e estava tentando ir a Jaguariúna (esta história eu conto outra hora). De quebra, ainda demos duas entrevistas!

Heroicamente, conseguimos deixar o aeroporto com nossas malas e as passagens remarcadas, por volta das 18h30. Isto, depois de muita caminhada e escada, tentativa de sedução da funcionária do embarque e planos mirabolantes de invasão de algum vôo, para convencer o piloto a alterar a rota (sabe-se lá porque aquele vôo pra Brasília saiu, por exemplo…). A esta altura já tínhamos uma peça processual prontinha contra a operadora aérea, usando nossos parcos conhecimentos de Direito. Argumentação daqui, paralelos com outros insucessos dali, consultas pelo WhatsApp… e nos despedimos até a manhã do que seria nosso último esforço.

Sim, às cinco horas do dia seguinte estávamos no aeroporto para viver nossa quarta tentativa de embarque para Joinville. Reencontramos parceiros de frustrações, novos amigos de horas difíceis, como o Michel, e tentamos reorganizar a fila do check-in porque os funcionários já haviam desistido há tempos. Com estratégias em duas frentes, conseguimos ser atendidas pela Karine, atendente Latam do check-in, que nos dedicou a atenção devida.

Finalmente, estávamos a poucos minutos da aeronave! O check-in da Juliana e da Amandinha foi feito, mas, para a nossa surpresa… o meu não. Até agora, não pudemos entender o que houve… assim como a Karine, que também não compreendeu, acreditem! Ela até tentou incluir outro passageiro, considerando a hipótese de haver algo errado com o meu voucher, mas não conseguiu. Foi deste jeito que o sonho de Joinville deste ano ruiu pra mim. E foi deste jeito, que a Ju e a Amanda foram a Joinville. Com lágrimas, coração confuso e uma sensação de incompletude, desajuste.

Não posso imaginar quantas histórias tiveram o rumo alterado naquele dia. Quantas mudanças e imprevistos… Mas qual será que era o rumo certo para cada um de nós, não é? Haverá mesmo esta dualidade inocente entre erro e acerto? Será que somente a rota planejada nos leva ao melhor destino?

Eu não fui a Joinville, mas estive em muitos outros lugares nestes dois dias de Aeroporto de Congonhas. E Ju, que bom que foi com você!

Pensamento de Fayga Ostrower – I

“Quando vemos uma jarra de argila produzida há cinco mil anos por algum artesão anônimo, algum homem cujas contingências de vida desconhecemos e cujas valorizações dificilmente podemos imaginar, percebemos o quanto esse homem, com um propósito bem definido de atender certa finalidade prática, talvez a de guardar água ou óleo, em moldando a terra moldou a si próprio. Seguindo a matéria e sondando-a quanto à “essência de ser”, o homem impregnou-a com a presença de sua vida, com a carga de suas emoções e de seus conhecimentos. Dando forma à argila, ele deu forma à fluidez fugidia de seu próprio existir, captou-o e configurou-o. Estruturando a matéria, também dentro de si ele se estruturou. Criando, ele se recriou.”

(OSTROWER, F. Criatividade e processos de criação. Petrópolis: Vozes, 2014, 30ª ed., p. 51)

Madrugada

Eu não sei ao certo por qual motivo tenho acordado às quatro horas da manhã já há algum tempo. No princípio, pensei que fosse meu estado constantemente preocupado com os afazeres dos meus dias inchados. Cheguei a pensar que fosse uma ou outra dívida, dessas que a gente contrai consigo mesmo. Em uma das noites, a justificativa da falta de atividade física caiu muito bem, até porque a dor era generalizada em meus músculos. Em outras tantas, minha natureza ansiosa e inquieta querendo antecipar o dia… – bem coisa minha querer trazer o dia para a madrugada para ‘já’ resolver problemas que me aguardavam dormindo. Desisti de entender. Cada madrugada, um despertar, cada noite uma certeza de que meu sonho seria interrompido por alguma coisa obscura. Fato é que tenho estado acordada em todas as madrugadas. Daí ela vai me seduzindo com este silêncio, esta quietude que me preenche de paz e alívio. A oportunidade de ouvir o que eu digo sem voz. De fazer poesia sem pressa. De pensar sem que algo me impeça a conclusão, o apogeu. A chance de permanecer no estado das sensações, fazendo-o durar ao eterno. Tudo ganha um contorno de suavidade, de menor solidez, de fluidez. Daí, eu me lembro, com algum pesar, de lugares lindos que eu não conheci sob esta luz sutil e cálida, e que jamais conhecerei… assim, nesta aura. Nada de bibliotecas neste horário, ou parques floridos, nada de escavações no subsolo europeu, nada da vista das torres mais altas vendo cidade acordar. Sendo notívaga convicta agora, dá para entender porque o Louvre tem sido aberto à visitação noturna no verão parisiense – só quem já esteve por aqueles corredores barulhentos ao correr de manhãs e tardes saberá do que falo. Então, a situação é essa: resolvi minha carência de só estar (sem pensar, estudar, trabalhar, discutir, atender, ajudar, pintar, resolver…) dormindo menos. Eu sei… pode ser uma péssima saída. Mas, deste jeito meio bizarro e torto, eu tenho experimentado o divagar do silêncio pela minha casa e escutado os barulhos que eu nunca tinha tempo de escutar. Hoje, além de mergulhar nesta paz profunda, ainda escrevi – multitarefa que sou kkk. Mas é que… convenhamos, ser e escrever, no mundo que eu criei pra mim, são praticamente a mesma coisa.

Sobre almas sem ordem e a necessidade de controle

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Eu não vivo sozinha no mundo, há na verdade bilhões e bilhões com quem divido espaços, vazios e outras coisas mais. É assim com quase todo mundo. A gente vive junto, faz isso e aquilo grudado ou afastado, bem longe ou do lado, mas o fato é que não falta contato… e é neste tal de contato que as coisas mais escabrosas acontecem.

(Paremos, irmãos, por dois minutos, de pensar nas coisas lindas e cor-de-rosa – não gosto de cor-de-rosa!, corrijo: lindas e adocicadas do contato humano).

Uma das coisas que tem me aterrorizado é este clamor pela ditadura. E daí, pensando e pensando e… mais sentindo que pensando nestes dias, refleti que o que tem me incomodado tanto é, na verdade, o que as pessoas fazem para exercer o controle e o desejo que muitas têm de serem controladas. É a obsessiva-repetição-sistemática (e camuflada de “ordem” – éééééééé… tá lá na bandeira nacional) de comportamentos ansiosos por controlar tudo o que está aqui, no exterior palpável, nesta loucura tangível onde a gente vive. Ah… aaahhhhh… que este mundo não tem controle, minha gente! A tentativa – é evidente! -, é de tentar por alguma ordem em si mesmo, organizar o caos da alma. A questão é que nesta lida insana, quando se põe em contato com outras pessoas, este alguém inflige dor e aprisiona outra alma humana.
Por isso, eu sou a favor da intervenção (pra usar a palavra mais dita do momento) psicológica. Porque ela nos apresenta a nós mesmos. E é só este conhecimento que pode por alguma ordem no caos. Massss, para quem achar que ela não serve, justificando que “é outra forma de controle”, ainda há Osho, Arte, yoga e olhar de criança, que ajudam a revelar o que há lá, naquele ponto que não tem nome, que é o que nós somos (Viva Saramago!).

Possibilidades

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Foto: Grace Cristina Ferreira-Donati Local: Quinta Real Caxias, Caxias, Portugal Monumental e singular cascata, com edificações ao redor repletas de referências românticas e bucólicas. Encontra-se classificada como imóvel de interesse público (1953).

“Há quem refugue ante portas cerradas, há quem se inquiete a imaginar a realidade que se põe ao outro lado, há quem só olha a porta e se alegra, por ser a sua existência, ela só, toda a promessa de possibilidades”.

Ecos na releitura de “O mundo de Sofia” – Eco #3

Eco #3 – página 437 “Ele [Darwin] estava pensando nas mesmas forças que continuam atuando até hoje: o clima, o vento, o degelo, os terremotos e as elevações do solo. Todo mundo sabe que ‘água mole em pedra dura tanto bate até que fura’. E isto não acontece por causa da força da água, mas pela constância, pela insistência das gotas. Lyell acreditava que tais alterações, pequenas e graduais, eram capazes de alterar completamente a natureza a longo prazo. E Darwin pressentiu que esta ideia não explicaria apenas o porquê de ele ter encontrado fósseis de animais marinhos no alto dos Andes. Durante toda a sua vida como pesquisador, ele nunca se esqueceu de que alterações lentas e graduais podiam levar a transformações dramáticas, se se considerasse o fator tempo.”

Eco: Alguém já disse que nada é, tudo está…. que a vida é impermanência (ouço isso em casa – é um privilégio). E se a cada dia, eu acordo outra… devo por na minha lista de tarefas no Todoist me olhar no espelho, escrutinar as pequenas mudanças, espiar os movimentos ínfimos e decisivos que me alteram e me mantém. Devo explorar que brilho novo ou qual opacidade nova vive. Qual parcela minha não sabe ainda nada de si e qual começo antigo poderá ganhar asas na revolução do dia.

 

Pelo Dia das Crianças e o que é viver a infância no Brasil de hoje

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Escultura de Jurga Martin

Eu poderia escrever uma poesia exultando a singeleza desta fase linda do ciclo da vida que é a infância, mas neste ano eu decidi falar sobre o que falta às nossas crianças e sobre tudo o que lhes roubamos.
O direito à alimentação saudável lhes é negado. As crianças pobres não têm o que comer. As demais recebem fast food, como prêmio pelas conquistas cotidianas.
O direito à educação de qualidade lhes é negado. As crianças pobres são mal incentivadas, apesar de heróicos professores. As demais recebem uma avalanche de conteúdos segmentados, fracos, em pacotes fechados, sem qualquer flexibilização ao seu modo de aprender. A parcela que se educa é também pelo esforço de heróicos professores e porque nossas crianças são incríveis mesmo.
O direito ao atendimento educacional especializado às crianças com deficiência lhes é negado. Mas para falar sobre isso, teríamos que discutir o conceito de “especializado”, coisa para mais de 500 palavras. Fica para outro dia.
O direito à opinião e expressão lhes é negado. Quando as crianças falam, elas pouco são ouvidas. Conversa em sala de aula é sempre sinal de bagunça. Raramente há espaço para o diálogo e o debate de ideias. Em síntese, as crianças que falam não são ouvidas. As crianças que não falam são ignoradas em suas necessidades mais básicas e nunca têm acesso a uma via alternativa de comunicação. O que eu assisto semanalmente é uma negligência desmedida ao direito da criança de se comunicar.
O direito à proteção lhes é negado. Nossas crianças são violentadas de muitas maneiras. Nossas meninas não são comemoradas quando nascem e após poucos anos são violadas pelos parentes mais próximos. Nossos meninos aprendem a conter o choro, apesar das feridas e da dor. Nossas crianças vivem na beira da estrada, têm criminosos como modelo e brincam com armas de fogo. Elas presenciam na própria casa o pior que exala de nós e são reprimidas a desenhar para que a casa permaneça como a foto da revista.
Não se trata do que o dinheiro dos pais pode comprar. Os maus tratos se esgueiram dissimulados pela capa do status elevado e se arreganham na periferia onde impera o “salve-se quem puder”.
A obrigação de zelar por esta e aquela criança é nossa. Temos todos a responsabilidade, o compromisso com a vida de cada criança brasileira. Furtamo-nos de lutar pela criança que passa ao nosso lado na rua, com roupas rasgadas e também pela criança cheirosa de família abastada que fecha os ouvidos ao que ela diz. Crianças são usadas e abusadas para satisfazer os desejos dos adultos. Não importa se o abuso é sexual ou não… ainda assim é estupro. Crianças fazem o que os adultos querem e os adultos se eximem de tomar decisões e guiar, com respeito à liberdade e aos seus direitos, a vida frágil que se inicia. Ignoramos cotidianamente as pequenas e as grandes violências.
O meu recado final é de que cuidar das nossas crianças é um dever meu, seu, do seu vizinho, da professora, do síndico, do médico, da moça que me vende cosmético, dos ministros, do presidente.
Cuidar não é reproduzir a ação da modinha do Face, ou o que a mídia, suja e mercantilista já nos disciplinou a fazer. Muito menos, deixar-se guiar pelo que a criança acha que é bom para ela, que não tem domínio de si nem dos perigos deste mundo cada vez mais insano.
Nós podemos fazer mais pelas nossas crianças, não importa o quanto incrível você ou eu nos julguemos.

Máscaras de oxigênio

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“Em caso de despressurização, máscaras de oxigênio cairão automaticamente à sua frente. Coloque-a primeiro em você e somente depois ajude as pessoas que precisarem.” Este é um trecho das orientações sobre medidas de segurança que são enunciadas nos vôos do mundo todo. Eu já a ouvi muitas vezes, considero que já compreendo muito bem a recomendação mas, medrosa que sou, ainda dedico toda a minha atenção cada vez que um membro da tripulação se põe a repeti-la aos passageiros. “Vai que desta vez eu preciso…”, é o que eu sempre penso.
Viajando sozinha e recoberta por reflexões que me foram provocadas nos últimos dias, ouvi hoje a orientação de um jeito novo, como se eu nunca a tivesse escutado: “…primeiro você, depois os outros…” foi o que a comissária falou. Na verdade, tive a sensação de que a mocinha da animação do vídeo de segurança olhou e piscou pra mim. Quase ouvi meu nome após a pausa reticente do final da frase. Acho que ouvi!
Fantasiei que a mensagem continua sendo repetida em cada vôo porque não tenho feito certo e por isso o universo resolveu insistir comigo. Na maioria dos dias, fico sem máscara porque uso todas as que eu encontro para colocá-las em quem está perto de mim e, claro, como resultado óbvio, termino o dia sem ar. Não sou a única… é um pecado habitual de muitos que se repete, se repete… até se tornar parte de quem se é. Pois é… a mocinha do vídeo e a voz austera da comissária me deram o que pensar.
De onde nasce verdadeiramente este comportamento de auto-flagelação ou de negligência de si próprio que insistimos em manter? Talvez, a capa acetinada de herói nos tenha sido vendida sem manual qualquer. Talvez, tenhamos sido convencidos de que bom mesmo é quem se doa integralmente e se esquece. Essas mensagens são propagadas aos quatro ventos numa interpretação rasa dos ideais de grandes homens. Abandonar-se não é lógico, não é inteligente e produz uma série de efeitos danosos em cascata. Relegar-se ao segundo plano é mesmo desmerecer a própria importância como instrumento do que quer que seja… é deixar de zelar por alguém que pode ser um instrumento de paz junto a outro alguém. Para se priorizar o outro, é preciso ter condições de entregar o que se pretende ou o necessário no momento do auxílio. E ninguém é capaz disso ao perder-se de si mesmo.
Acho que hoje, os esforços de muitas pessoas queridas que tentam me ensinar a cuidar de mim mesma tiveram uma vitória. Cheque você também em que condições está a sua máscara. E lembre-se: preserve sua vida antes para que tenha o que oferecer ao seu próximo. Cuide-se!