Inteligências de Mia Couto

Não é recente a expressão de Mia Couto no mundo, mas é recente o meu mergulho na sua literatura. Há algumas semanas, terminei “Antes de nascer o mundo” (Companhia das Letras, 2009), tecido sedutoramente entre rudezas e levezas num balanço refinado de prosa e poesia. Fui criando dobras nas páginas no correr da leitura para me lembrar de registrar o que me despertou pensar mais, ver do avesso, girar conceitos, redesenhar. Segue aqui minha dobra da página 241:

“Eis a lição que aprendi em Jesusalém: a vida não foi feita para ser pouca e breve. E o mundo não foi feito para ter medida.” (Disse assim Mwanito!).

E se as tristezas forem mais do que as levezas…?

Não há dia que se faça somente de choro, ou só de riso, só de dentes aparecendo à toa, sabe? Ou só de coração batendo apertado e respiração curta, miúda e seca… Não há dia construído só disso ou só daquilo. Cada dia tem em si muitos dias que talvez não sejam… e outros tantos que certamente serão. Um dia é uma entidade bipolar por natureza. Tem dia que é pura noite, dia que nem se sente a noite, dia que se encomprida e pula a noite até ser dia de novo. Há dias em que levezas, adornadas de muitas e sutis belezas, fazem sorrir em segredo a alma e dançar a música que cadencia nossa voz. Mas tem dias… outros dias, em que tristezas são mais que as levezas. Daí, é de se pegar o dia claro que poderia ser e fazê-lo livre, viver.

Inhotim – das lindezas de uma terra brasileira

Na semana passada eu estive, pela primeira vez, em Inhotim, o belíssimo Instituto de Arte Contemporânea e Jardim Botânico que fica em Brumadinho, Minas Gerais. Reconhecido como uma OSCIP (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público) pelo Governo de Minas Gerais e pelo Governo Federal, o local tem um acervo de arte contemporânea de excelência, constituído por obras que brilham sob o sol e a sombra do jardim e que também se organizam em modernas galerias espalhadas por 140 hectares. O que se vê é uma íntima interlocução entre Arte e Natureza que enche os olhos e desperta a alma para boas e profundas reflexões. A correria do dia-a-dia urbano revelou-se, quando submergia da minha memória recente, algo absolutamente desprovido de sentido. A grandeza de Inhotim me provocou rever meus vazios. Doeu. Mas me elevou.

Banco construído a partir do tronco caído de uma árvore – Inhotim, Brumadinho – MG, Brasil
Pé de quê eu não sei… mas é lindo!
Umas das lindezas que minha fóvea viu!!!
Ramos, ramos, ramos, ramos… “Balançando naqueles galhos, descansava qualquer pensamento…”
Uma Phalaenopsis assim… sendo rosa e feliz em meio ao verde todo.
Por ilhas e pontes e árvores, árvores, árvores…
Etlingera Elatior e Heliconias esbanjando vida.

Viver é muito, muito difícil

Há cerca de três meses eu fiz o download de um aplicativo que auxilia o registro de humor associado a diferentes atividades, sendo ambos os menus customizáveis, “humor” e “atividades”. Comecei a usá-lo porque vinha notando muitas oscilações de humor e quis fazer uma análise melhor a partir de registros mais detalhados, padronizados e frequentes. Bem, ocorre que aos poucos, fazer o tal do registro foi se tornando maçante, chato e altamente desmotivador porque o vazio da vida foi se escancarando com uma força brutal. Os gráficos iam mostrando oscilações ou então uma linha uniforme entre os dias que, pra dizer a verdade, não faziam nenhum sentido, de forma prática. Nem a oscilação me agradava, tampouco a linha uniforme, reta de dias típicos e normais. Daí, eu parei de registrar no aplicativo. Mas que doce ilusão a minha… eu continuei registrando minha vida do mesmo jeito e então, com muito mais consciência do que antes. E talvez essa seja a causa do meu estado desinquieto, desconfortável, esdrúxulo até. As oscilações entre euforia e forte desmotivação me exaurem, do mesmo jeito que a neutralidade… aquela linha reta e fluida me diz que a vida é besta mesmo… uma mesmice, um suceder de nadas e uma ausência de sentido. Tenho sentido que tudo cansa. As interações humanas cansam, ouvir o outro cansa, falar de mim cansa, ter que explicar porque alguém não entendeu cansa, ficar feliz cansa porque é fato que vai durar pouco e daí cansa ter que deixar de ficar feliz e ficar triste ou sei lá o que. Cansa ter que lidar com o que não dá certo, cansa a frustração. Cansa tanto falar e tanto explicar. Cansa ainda mais o desejo. Ah… como desejar cansa. O desejo é um senhor muito, muito rígido, de cara fechada, de cinta em punho e que escraviza minhas ações. Daí quando eu faço o que eu desejo, me desinquieto porque eu acho ridículo precisar disso pra ficar feliz… porque nunca sei o que me domina, a quem eu sirvo e isso cansa… até porque sei que vai durar pouco e cansa mudar de emoção de novo e de novo e de novo. Cansa ser terapeuta quando eu só quero ser gente mesmo, cansa o olhar do outro sobre mim, cansa as expectativas, cansa a saudade que eu tenho de gente que punha em paz. Cansa essa “vida besta, meu Deus”. Cansa, cansa muito ser quem eu sou, esse jeito cansado de ser.

Uma nova folha

Quando eu persigo a escrita e ela não se deixa alcançar, não se revela, não cede… às vezes eu me detenho olhando a folha, uma nova folha e penso o que caberia bem dentro de seus limites e daí, só por querer ornamentar o espaço, eu tento tão somente esculturar uma bela estética e criar, quem sabe, algum valor que mais valha que estar em branco.