Caeiro, uma vez mais

Uma vez mais, Alberto Caeiro ensinando-nos a estar presente, a apenas ser limitados que somos ao que somos no segundo em que somos. A ansiedade que nos coloca num futuro que nada é porque não existe ainda e talvez nunca se assuma presente é uma insensatez.

Não tenho pressa. Pressa de quê?
Não têm pressa o sol e a lua: estão certos.
Ter pressa é crer que a gente passa adiante das pernas,
Ou que, dando um pulo, salta por cima da sombra.
Não; não tenho pressa.
Se estendo o braço, chego exactamente onde o meu braço chega
Nem um centímetro mais longe.
Toco só onde toco, não onde penso.
Só me posso sentar onde estou.
E isto faz rir como todas as verdades absolutamente verdadeiras,
Mas o que faz rir a valer é que nós pensamos sempre noutra cousa,
E somos vadios do nosso corpo.

PESSOA, Fernando. Poesia completa de Alberto Caeiro. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

#JustiçaPorMiguel

Miguel, eu preciso falar com você. Dizer que eu sinto muito. Sinto muito… Quero dizer que teria sido incrível se esse seu sorriso lindo e terno tivesse tido muitos anos para viver. Preciso dizer a você que hoje eu sinto vergonha pela brancura que recobre a minha pele. Ainda bem que não sairei às ruas por estes dias e posso me esconder. Esconder o que o branco da minha pele significa no país em que eu vivo. Hoje eu sinto vergonha por ser brasileira… um sentimento que vem tomando conta dos meus cantos, me invadindo já há muitos anos. Eu sinto uma imensurável vergonha pela forma como tratamos as crianças, que precisam sobreviver a nós. Eu tenho pena das crianças brasileiras, que ao nascerem vislumbram um destino de obstáculos quase intransponíveis, como num game desses bem violentos, em que se esgotam todas as vidas e jamais se vence. Peço perdão pela irresponsabilidade e descaso que lhe empurraram sozinho para dentro de um elevador. Eu tenho raiva do desprezo que te jogou do 9.º andar. Eu tenho raiva das pessoas vis que chegam ao poder investindo na ignorância do povo, conduzido no cabresto. Todos eles te empurraram do 9.º andar, Miguel. Porque a mulher branquinha e loura que deveria ter zelado pela sua vida por menos de meia hora, enquanto sua mãe era abusada pelo sistema, integra o esquema criminoso todo de destruir pretos, pobres, gays, deficientes, crianças… Eu, sinceramente, gostaria que você tivesse tido todas as proteções a que tinha direito. Eu gostaria de ter conhecido você… quem sabe tomar um sorvete junto, sentar no chão e brincar… adoro brincar com as crianças, sabe, Miguel… é umas das coisas que enchem minha vida de cor. Eu vou rezar, tá bom? Para que você fique bem, num lugar de luz, que caminhe seu caminho em paz e que renasça como uma tulipa na Holanda ou um baobá em Madagascar… jamais criança no Brasil. Fique bem!

Miguel, Técnica Mista sobre Canson preto 150, de Grace Donati

Para além da curva da estrada…, refletindo Alberto Caeiro

Lendo a “Poesia Completa de Alberto Caeiro” (Fernando Pessoa, São Paulo: Companhia das Letras, 2005), com comprometimento total pela primeira vez, tenho me deparado com versos que fariam festejar o mais dedicado adepto do Mindfulness. É uma celebração do agora, do estado presente, dos sentidos, da percepção, do palpável, do que se alcança hoje. É uma mensagem que vai bastante além da valorização da natureza. Toca o que há de essencial na própria essência, o núcleo, o imprescindível. Na página 88, abrindo “Poemas Inconjuntos”, revela-se o poema antídoto da ansiedade. É só ler e reler…

“Para além da curva da estrada                                                                         Talvez haja um poço, e talvez um castelo,                                                           E talvez apenas a continuação da estrada.                                                       Não sei nem pergunto.                                                                               Enquanto vou na estrada antes da curva                                                             Só olho para a estrada antes da curva,                                                       Porque não posso ver senão a estrada antes da curva.                                 De nada me serviria estar olhando para outro lado                                           E para aquilo que não vejo.                                                                         Importemo-nos apenas com o lugar onde estamos.                                     Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer.                 Se há alguém para além da curva da estrada,                                             Esses que se preocupem com o que há para além da curva da estrada.   Essa é que é a estrada para eles.                                                                       Se nós tivermos que chegar lá, quando lá chegarmos saberemos.             Por ora só sabemos que lá não estamos.                                                     Aqui há só a estrada antes da curva, e antes da curva                                     Há a estrada sem curva nenhuma.”

 

Falta

The Art of Not Panicking | Wired For Happy
wiredforhappy.com
A partir de Pinterest

Falta ar
Falta flor
O sorriso solto
Sobra dor
Falta a calma que eu nunca tive
Falta a alma sublime
A leveza sem medo
Falta espaço
Na minha garganta
Falta passo
No dia inteiro
Sobra aviso
E alarme
Falta árvore
Falta alívio
Ruído de riso amigo
Falta ar
No meu abrigo.

Presente de Natal

De Grace Donati em Natal sempre Natal, vol 3, organizado por Rosa Leda Accorsi Gabrielli, Bauru: Canal 6 Editora, 2015.

Ela esperou por aquela noite como quem aguarda socorro e refúgio. Aguardava por ela mesma. Pelo encontro memorável, adiado por toda vida, do desejo com a realização. Naquela noite, protegendo-se das cerimônias protocolares e vazias, deu-se a si mesma de presente. Iniciou seu ritual com o despertar do sol e se fez cumpridora do que lhe vinha ao coração. Arrumou e perfumou o quarto, se pôs em um vestido branco, longo e solto para sentir seus contornos livres e sua alma simples. Esvaziou a casa de guardados sem sentido e deu novas cores aos cantos que lhe refletem. Enternecida com a paz que sentia, abriu uma caixa de madeira e retirou os galhos, coletados desde o outono, das árvores que lhe encantaram e das que se impuseram nos caminhos. Desta coleção se fez sua árvore natalina. Pendurou em cada ramo uma bênção, escrita em pedaços de folha de algodão, e adornou os trechos de raízes com os valores que lhe fincaram os pés no chão e a cabeça nas nuvens. Criou, ela mesma, a trama de galhos, sombras e raízes que lhe parecia bem. O entremeado caótico que lhe fazia sentido. E que suspendia as memórias de tantos natais e de tantas árvores. As luzes piscantes, pontuais e fracas, na medida da doçura, finalizaram a obra com orgulho e genuíno estado de felicidade. A árvore, com galhos desnudos de folhas e repletos de palavras foi sendo modelada com cuidado, beleza e verdade. As interrupções para um olhar mais afastado, em ângulo surpreendente e novo, e dando espaço aos afazeres de uma casa vibrante, se esparramaram pelo dia. Com o anoitecer, reuniu frutas secas, um pote de açúcar com canela para adoçar bobagens e vinho, num cenário de luzes amarelas pálidas. Encerrou providências para alimentar corpo e alma, acendeu velas, e satisfez-se com os aromas agridoces que tomaram cantos insuspeitos da casa vestida para festa. Banhou-se e se fez repleta de calmaria e leveza. Nunca estivera em melhor companhia, na paz de se estar verdadeiramente consigo mesma. Nunca houvera melhor Natal. Talvez nenhum renascimento tão palpável e pungente. Então, gritinhos de gente nova, conselhos de gente antiga e amor da vida inteira adentraram a casa veraneada e construíram junto a ela, em comunhão, uma noite feliz.

Tribal – parte 1

A gente é de tribo.
Aqui é tudo índio
O desenho é na pedra
E é na dureza da pedra
E da terra
Que a gente vive
Aqui é tudo batida
De cajado no chão
Voz gritada
Pele suada
De dor calejada
Que a gente vive
Aqui é tudo luta.
A gente é da floresta
Ninguém desiste
Só luta e falece
A gente enterra faz festa
Faz prece e vive.
Aqui é tudo índio.
Tribal, caneta de aquarela e caneta gel, de Grace Donati

Metade, de Oswaldo Montenegro

Que a força do medo que tenho
não me impeça de ver o que anseio
que a morte de tudo em que acredito
não me tape os ouvidos e a boca
pois metade de mim é o que eu grito
a outra metade é silêncio.

Que a música que ouço ao longe
seja linda ainda que tristeza
que a mulher que amo seja pra sempre amada
mesmo que distante
pois metade de mim é partida
a outra metade é saudade.

Quer as palavras que falo
não sejam ouvidas como prece nem repetidas com fervor
apenas respeitadas como a única coisa
que resta a um homem inundado de sentimentos
pois metade de mim é o que ouço
a outra metade é o que calo.

Que a minha vontade de ir embora
se transforme na calma e paz que mereço
que a tensão que me corrói por dentro
seja um dia recompensada
porque metade de mim é o que penso
a outra metade um vulcão.

Que o medo da solidão se afaste
e o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável
que o espelho reflita meu rosto num doce sorriso
que me lembro ter dado na infância
pois metade de mim é a lembrança do que fui
a outra metade não sei.

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
pra me fazer aquietar o espírito
e que o seu silêncio me fale cada vez mais
pois metade de mim é abrigo
a outra metade é cansaço.

Que a arte me aponte uma resposta
mesmo que ela mesma não saiba
e que ninguém a tente complicar
pois é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
pois metade de mim é platéia
a outra metade é canção

Que a minha loucura seja perdoada
pois metade de mim é amor
e a outra metade também.

Fonte: LyricFind

Compositores: Oswaldo Montenegro / Oswaldo Viveiros Montenegro

Letra de Metade © Warner Chappell Music, Inc

Passagem das horas, de Álvaro de Campos

Trago dentro do meu coração
Como num cofre que se não pode fechar de cheio,
Todos os lugares onde estive,
Todos os portos a que cheguei,
Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias,
Ou de tombadilhos, sonhando,
E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero.

[…]

Viajei por mais terras do que aquelas em que toquei…
Vi mais paisagens do que aquelas em que pus os olhos…
Experimentei mais sensações do que todas as sensações que senti,
Porque, por mais que sentisse, sempre me faltou que sentir
E a vida sempre me doeu, sempre foi pouco, e eu infeliz.

[…]