Eu sou a menina que desbotou.

Eu sou a menina que desbotou.

Desde as primeiras horas da segunda-feira, eu fantasio um final de semana infinito, com perfume de flores recém-colhidas, levezas, tempo largo, um coração tranquilo. Ah… quanta insistência nessa imaginação. Eu espero os dois dias de alívio, com o passar da semana e ele nunca vem. O peso da gravidade que nos enlaça e prende parece também prender meu corpo ao sofá, à cama, à inação, à melancolia até que os dias úteis me determinem o movimento mais uma vez. Não sei ainda o que eu sou, mas sei que é mais fácil ser útil atendendo ao desejo de alguém, é mais fácil resolver problemas que não são meus, é tolerável fazer o que me pedem. Chegando à convicção de que é a utilidade que me sustenta, talvez, completamente. Que venham os dias de servidão, os que são úteis, quando eu vivo é por obrigação, porque sei seguir regras.
Um pensamento.
Outro.
Mais três e outros quatro.
E mais alguns.
E tantos.
E aqueles também.
Mais cem.
Penso qualquer pensamento
E o que nem se é de pensar
Penso o que se é de fazer
E de ser só de passar
Tudo vira pensar
Nem só o que é lamento
E no que penso e peso
Vira pesamento
Tudo o que penso
De pequeno vira aumento
De um vira um cento
E daí tormento.
Senti lampejar meus olhos quando, naquela galeria, no Museu Nacional da Cultura Afro-brasileira (MUNCAB), em Salvador, Bahia, encontrei as telas de Maria Auxiliadora. Eu não as estava procurando, foi uma gratíssima surpresa. A ingenuidade e o cotidiano desprovidos de excessiva medida técnica, e as cores vibrantes me atraíram rápido. Eu ventei até as telas. Que riqueza ver tudo acontecendo o tempo todo, e no mesmo, nada de extraordinário. O cotidiano é o extraordinário para Maria Auxiliadora, as fofocas nas janelas, o flerte, a dança dos casais, o trabalho na roça, as crianças no ir e vir, gente vivendo a vida que tem pra se viver. A artista era filha de artistas escravizados, nasceu em Minas e faleceu em São Paulo, antes de completar quarenta anos, em 1974. Bordava, costurava e pintava, traduzindo em Arte o que via em casa e na vizinhança com os instrumentos que fora ensinada a manejar por sua família. E que maravilha o que foi capaz de fazer. Deveríamos chamá-la poetisa, talvez cordelista visual, pelas narrativas tão vívidas que se encontram em suas obras. Sobre as telas, a gente nota a textura da renda e dos bordados, o volume dos cabelos das mulheres, quase que os minutos que antecederam aquelas histórias fotografadas ali. A gente fica querendo saber mais e daí corre pra outra tela. É um maravilhamento o trabalho poético de Maria Auxiliadora. Eu convido a todos a conhecê-lo! No link do Itaú Cultural, é possível conhecer mais sobre a história desta grande artista brasileira: https://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoas/2225-maria-auxiliadora



De que vale a dor da tentativa?
A que acaso de alegria encerrou?
Vale amar, o mais, a poesia
Ou de nada serve a luz que clareou?
Será que vale o riso na euforia?
A rosa abrindo, ver que você chegou?
Sentir a paz que eu já tive um dia
Lutar a luta de ser quem eu sou?
Primeiro, a gente perde a paz
Depois, o sono
E todos os sonhos.
Nada em mim se resolve
Nada vive certo e arrumado
Em mim tem uma caixa de cristal velha que foi derrubada
Minhas sutilezas andam a se esgueirar entre cacos
Tenho anestesias correndo pelas veias
E eu só quero de volta todas as minhas sensibilidades.
As sombras de aflições se contorcem sem se nomear
Eu não enxergo, não ouço, não toco
Não alcanço nada do que eu sou.
Eu voo só
Só vou.
Vive em mim o nada torto meio sem terminar.
Ou nem isso
Ou nem é essa que sou.
Voz do outro
E do outro
Do outro
Do outro
Silêncio meu
Grito meu
Sem boca
Olhar partido
De um lado
Do outro
Nenhuma escuta dada
Nenhuma fala trocada
Nem olhar pedido.

Um ninho vazio tanto foi deixado quanto está à espera.
É um entreato.

