Pensamento de Fayga Ostrower – II

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Colagem da artista ucraniana Anna Bu Kliewer

No momento em que Fayga Ostrower discorre a respeito da elaboração do trabalho criativo, ela diz:

“No trabalho, o homem intui. Age, transforma, configura, intuindo. O caminho em toda tarefa será novo e necessariamente diferente. Ao criar, ao receber sugestões da matéria que está sendo ordenada e se altera sob suas mãos, nesse processo configurador o indivíduo se vê diante de encruzilhadas. A todo instante, ele terá que se perguntar: sim ou não, falta algo, sigo, paro… Isso ele deduz, e pesa-lhe a validez, eventualmente a partir de noções intelectuais, conhecimentos que já incorporou, contextos familiares à sua mente. Mas, sobretudo, ele decidirá baseando-se numa empatia com a matéria em vias de articulação. Procurando conhecer a especificidade do material, procurará também, nas configurações possíveis, alguma que ele sinta como mais significativa em determinado estado de coordenação, de acordo com seu próprio senso de ordenação e o próprio equilíbrio.”

OSTROWER, F. Criatividade e processos de criação. Petrópolis: Vozes, 2014. pag. 70.

O pensamento externalizado de Fayga, neste excerto,  expõe a confusão irremediável que se cria entre nosso interior e os objetos de nossas ações, ao agirmos. Toda e qualquer matéria do fazer humano, seja a palavra, a música, o barro, a tinta, o corpo ou o cimento, se modifica impregnada de elementos intrapsíquicos, por meio de canais fluentes entre o homem e a matéria. Elementos que talvez adormeçam inacessíveis sem este contato. É verdade dizer que em sua obra, reside o artista.

Pensamento de Fayga Ostrower – I

“Quando vemos uma jarra de argila produzida há cinco mil anos por algum artesão anônimo, algum homem cujas contingências de vida desconhecemos e cujas valorizações dificilmente podemos imaginar, percebemos o quanto esse homem, com um propósito bem definido de atender certa finalidade prática, talvez a de guardar água ou óleo, em moldando a terra moldou a si próprio. Seguindo a matéria e sondando-a quanto à “essência de ser”, o homem impregnou-a com a presença de sua vida, com a carga de suas emoções e de seus conhecimentos. Dando forma à argila, ele deu forma à fluidez fugidia de seu próprio existir, captou-o e configurou-o. Estruturando a matéria, também dentro de si ele se estruturou. Criando, ele se recriou.”

(OSTROWER, F. Criatividade e processos de criação. Petrópolis: Vozes, 2014, 30ª ed., p. 51)

Pina

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Eu viveria entre mármores curvilíneos que avistam um horizonte que eu não alcanço.
Eu poderia ser esquecida, deixada só entre as criaturas de pedra
Que eternizam os movimentos apaixonados das mãos de sonhadores.

Eu cairia aos pés d’O homem que Marcha
E restaria deitada no octógono que me carrega em viagem circular
Esperando o símbolo perdido se encontrar.

Eu vagaria sem pele por aquelas tiras longas de madeira queixosa
Embriagada pela luz sublime do céu envidraçado.
Eu dançaria nas ruas escuras de óleo e verniz e me juntaria, cansada, às Mulheres na Janela.

Eu amaria todos os donos de olhares apaixonados com braços que eu não abraço.
Eu poderia ser esquecida, deixada só entre as cores da aquarela
E viveria entre histórias vis e memórias secretas.

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Poesia em homenagem à Pinacoteca do Estado de São Paulo, um dos lugares que fazem meu coração sorrir.

Sobre o que Chihuly me provocou sentir

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Meses atrás, quando navegava pela cidade de Toronto, em devaneios pré-viagem, me deparei com a convidativa página do Royal Ontario Museum anunciando a exposição de Dale Chihuly, um escultor norte-americano que se fez mestre da arte com vidros. Confesso que meu entusiasmo foi instantâneo ao vislumbrar o poder e a fluidez das cores que davam vida às peças exibidas no site. O encanto imediato foi pela possibilidade de aguçar meus sentidos, bem mais que pela previsão de qualquer deleite intelectual.

Pois bem, eis que com os pés nas ruas quentes e agitadas do verão canadense, cheguei ao feliz destino, disposta a receber meu quinhão de beleza e cor. O que se deu nas duas horas seguintes são hoje as lembranças que quero compartilhar. Memórias de sensações, apenas. Sem crítica, análise ou mais delongas.

Assim que cruzei a porta de entrada, fui recebida por dois botes em tamanho natural e repletos de uma resplandescente luz que explodia em cores e diferentes formatos. Em um deles, esferas leves, brilhantes e coloridas pareciam simbolizar galáxias inteiras reunidas pelo meu olhar. No outro, os fios de vidro em diferentes tons de roxo, azul, rosa e lilás se entrelaçavam e se projetavam em movimento fugidio para o alto e me tomaram em hipnose por um tempo incalculado.

A partir daí, foi um passeio de estimulação visual que me alcançou em pontos escondidos do pensamento e da percepção. Todos os estados e sentidos da diferença era a mensagem que me chegava nos contornos de tantas cores, tonalidades, transparências, volumes e ângulos. Tudo posto na fragilidade e na dureza do vidro. A riqueza dos contrastes ia da leveza suspensa dos vidros coloridos no teto, passando pela vivacidade das chamas numa fogueira reta e quente e se espalhava pelas paredes como florescências raras em um pergolado branco. Se eu pudesse apenas abolir os significados das peças – coisa que a abstração humana nos impõe – eu poderia dizer que cheguei a perder meu senso de unidade por um momento, entregue à euforia sensorial da luz que se filtrava pelos vidros coloridos em tantas e variadas tonalidades, organizados de tantas diferentes formas e conjugações. A minha exposição àquelas obras fez festa em mim. Os movimentos helicoidais e combinados faziam dançar qualquer pensamento e transformava tudo em um sentir insistente e emocionado.

Quanta beleza paira no coração da diferença! Quanta paz se constrói pela reunião dos contrastes! Nos vidros derramados pelas salas da exposição de Chihuly toda a vida foi celebrada sem que se excluísse uma só cor ou geometria. Todas as possibilidades se arranjavam entre si, constituindo o universo espetacular da diversidade.

Foi assim, com a alma insuflada de luz e a cabeça entregue ao torpor das sensações que alcancei a sala final e atravessei a passos largos o estande comercial da exposição. Já tinha comigo muito mais do que eu havia ido buscar. E ao encontrar um espaço vazio, pude recobrar a respiração, a realidade e conhecer o que havia de novo em mim.

Exposição Chihuly – Royal Ontario Museum
100 Queens Park, Toronto, ON – Canada.

Fotos do arquivo pessoal de Grace Cristina Ferreira-Donati editadas em Piccolage.