Sobre almas sem ordem e a necessidade de controle

4D55B717-3DF1-4F44-B2E9-EE94BB33FA55

Eu não vivo sozinha no mundo, há na verdade bilhões e bilhões com quem divido espaços, vazios e outras coisas mais. É assim com quase todo mundo. A gente vive junto, faz isso e aquilo grudado ou afastado, bem longe ou do lado, mas o fato é que não falta contato… e é neste tal de contato que as coisas mais escabrosas acontecem.

(Paremos, irmãos, por dois minutos, de pensar nas coisas lindas e cor-de-rosa – não gosto de cor-de-rosa!, corrijo: lindas e adocicadas do contato humano).

Uma das coisas que tem me aterrorizado é este clamor pela ditadura. E daí, pensando e pensando e… mais sentindo que pensando nestes dias, refleti que o que tem me incomodado tanto é, na verdade, o que as pessoas fazem para exercer o controle e o desejo que muitas têm de serem controladas. É a obsessiva-repetição-sistemática (e camuflada de “ordem” – éééééééé… tá lá na bandeira nacional) de comportamentos ansiosos por controlar tudo o que está aqui, no exterior palpável, nesta loucura tangível onde a gente vive. Ah… aaahhhhh… que este mundo não tem controle, minha gente! A tentativa – é evidente! -, é de tentar por alguma ordem em si mesmo, organizar o caos da alma. A questão é que nesta lida insana, quando se põe em contato com outras pessoas, este alguém inflige dor e aprisiona outra alma humana.
Por isso, eu sou a favor da intervenção (pra usar a palavra mais dita do momento) psicológica. Porque ela nos apresenta a nós mesmos. E é só este conhecimento que pode por alguma ordem no caos. Massss, para quem achar que ela não serve, justificando que “é outra forma de controle”, ainda há Osho, Arte, yoga e olhar de criança, que ajudam a revelar o que há lá, naquele ponto que não tem nome, que é o que nós somos (Viva Saramago!).

Assim

ana_maria_pacheco_ASSIMAssim…
Que, enfim, aparecer o que eu disse
Que, de repente, se fizer como seu eu visse
Já tudo diluído estará
Já tudo lembrança pra mim
Já tarde será…
Assim que acontecer.

(02 de abril de 1998, Diário pessoal de Grace Cristina Ferreira-Donati)

 

 

Imagem: reprodução de escultura de Ana Maria Pacheco. Fonte: https://br.pinterest.com/source/prattcontemporaryart.co.uk

 

Ansiedade despedaçada II

“Frestas das escolhas que me apertam permitem que a persistência me afilja e me salve. Trazem-me sem medo para os erros e insistem que eu respire pouco, mas com louco e certo amor.”

“Nem tudo é tão reto… Nem tudo tudo é certo. Nem sempre é tão fácil julgar o óbvio. A luz pode sempre esconder a poeira em sua sombra. E só os que não vêem enxergam no escuro.”

“Tensas partículas caem densas por aí. Espalham ruídos e redemoinhos vazios apenas para enfatizar o movimento das coisas, a repetição da natureza e sobrepujar o que é ímpar e singular.”

O tempo

De 20 de agosto de 2014

Um dia, serei amiga do meu tempo
Só farei coisas que o agradam
Cuidarei da sua vida com zelo
Como quem carrega o último copo d’água.

Um dia, viverei o tempo com a economia do cuidado
Com a delicadeza, a gentileza do compromisso
Exercitando o uso consciente do valor
Do que se estima tanto por ser inestimável.

Meu tempo, hoje, não se flete às minhas vontades
Não se dobra ou se contamina
Não me pertence. E, em seu rigor,
Manejado pelo vazio, me arrasta.