O vazio do domingo

Desde as primeiras horas da segunda-feira, eu fantasio um final de semana infinito, com perfume de flores recém-colhidas, levezas, tempo largo, um coração tranquilo. Ah… quanta insistência nessa imaginação. Eu espero os dois dias de alívio, com o passar da semana e ele nunca vem. O peso da gravidade que nos enlaça e prende parece também prender meu corpo ao sofá, à cama, à inação, à melancolia até que os dias úteis me determinem o movimento mais uma vez. Não sei ainda o que eu sou, mas sei que é mais fácil ser útil atendendo ao desejo de alguém, é mais fácil resolver problemas que não são meus, é tolerável fazer o que me pedem. Chegando à convicção de que é a utilidade que me sustenta, talvez, completamente. Que venham os dias de servidão, os que são úteis, quando eu vivo é por obrigação, porque sei seguir regras.

Último dia

Hoje foi um dia morno, daqueles que nada acontece, sem graça… que talvez por isso mesmo tenha sido um dia bom, um dia com saúde e em paz, junto aos meus. Um dia ótimo se eu me lembrar do dia difícil que deve ter tido quem sofre tantas agruras e angústias, moléstia, violência ou um coração quebrado. Mas o que agita meus pensamentos neste fim de dia é como eu vou encará-lo quando eu tiver pra mim só um dia a mais. Nenhum a mais para desperdiçar com mesmices ou nada a fazer. A lembrança de hoje ou de outro dia parecido em vazio deverá pesar no meu peito um dia, mesmo que nas horas de agora ele tenha sido só um dia e nada demais.

De Eduardo Bustos Segovia (EUA), técnica mista. Fonte: https://pin.it/7FJjMqK