Desde as primeiras horas da segunda-feira, eu fantasio um final de semana infinito, com perfume de flores recém-colhidas, levezas, tempo largo, um coração tranquilo. Ah… quanta insistência nessa imaginação. Eu espero os dois dias de alívio, com o passar da semana e ele nunca vem. O peso da gravidade que nos enlaça e prende parece também prender meu corpo ao sofá, à cama, à inação, à melancolia até que os dias úteis me determinem o movimento mais uma vez. Não sei ainda o que eu sou, mas sei que é mais fácil ser útil atendendo ao desejo de alguém, é mais fácil resolver problemas que não são meus, é tolerável fazer o que me pedem. Chegando à convicção de que é a utilidade que me sustenta, talvez, completamente. Que venham os dias de servidão, os que são úteis, quando eu vivo é por obrigação, porque sei seguir regras.
melancolia
Ninho vazio
Um ninho vazio tanto foi deixado quanto está à espera.
É um entreato.


Último dia
Hoje foi um dia morno, daqueles que nada acontece, sem graça… que talvez por isso mesmo tenha sido um dia bom, um dia com saúde e em paz, junto aos meus. Um dia ótimo se eu me lembrar do dia difícil que deve ter tido quem sofre tantas agruras e angústias, moléstia, violência ou um coração quebrado. Mas o que agita meus pensamentos neste fim de dia é como eu vou encará-lo quando eu tiver pra mim só um dia a mais. Nenhum a mais para desperdiçar com mesmices ou nada a fazer. A lembrança de hoje ou de outro dia parecido em vazio deverá pesar no meu peito um dia, mesmo que nas horas de agora ele tenha sido só um dia e nada demais.

Sobre a arte de perder
Eu nada tenho a dizer além disso.
Vazia de mim
Hoje, eu estou vazia de mim.
Não há sorriso que rasgue o rosto
Ou lágrima que brote a gosto.
Eu fugi sabe-se lá pra onde
Buscando sabe-se lá o que.
Nem sobrou certo ou oposto
É um gosto que é de pronto, sem gosto.
Vazia de mim
Eu só, assombro.
Melancolia
Crescia
Na linha. Dura.
Corria
No peito. Nula.
Sabia
Efeito. Jura.
Vendia o apego à sua
Melancolia.