Amanhã, eu tento de novo

Amanhã, eu tento de novo
Parar o tempo
Colorir o sossego pincelando a angústia de existir
Escolhendo as palavras para por luz no que escurece a emoção.

Amanhã, eu tento de novo
Organizar, por no lugar o que andou por aí sem rumo
Pagar as dívidas e curar as feridas
Preparar dias com mais primor.

Amanhã, eu tento de novo
Cumprir as promessas, ouvir canções de seresta que apaziguam o coração.
Tento ler os versos dos mestres
Comprar presentes e os venenos úteis
Jogar o acúmulo, o lixo futuro.

Amanhã, eu tento de novo
Agendar dias de só delícias
Aprumar e rezar
Registrar a ciência
Dormir o sono da paciência
Bebericar chá e pensar
Brincar de imaginar.

Amanhã, eu tento de novo e de novo
Cuidar do meu cuidar
Ouvir canção de Oswaldo
Esticar o corpo flácido
Respirar o ar sem par
Tento comprar o necessário
Declamar fora de horário
Esvaziar meu carro.

Amanhã, eu tento de novo
Virar uma só sendo dez
Ser multidão de uma vez
Delegar a criança fácil
Acender a vela
Aguar a planta
Ser pequena e tanta.

O que você quer saber de verdade… a poesia de Marisa, Arnaldo e Brown

Vai sem direção
Vai ser livre
A tristeza não
Não resiste
Solte os seus cabelos ao vento
Não olhe pra trás
Ouça o barulhinho que o tempo
No seu peito faz
Faça sua dor dançar
Atenção para escutar
Esse movimento que traz paz
Cada folha que cair,
Cada nuvem que passar
Ouve a terra respirar
Pelas portas e janelas das casas
Atenção para escutar
O que você quer saber de verdade

Do álbum “O que você quer saber de verdade”, Marisa Monte.

Janeiro em dezembro

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Leva aquela calma de ontem para amanhã
O riso do menino para o homem
A luz natalina para este peito em cisma.

Pega o vigor de nascer e põe no que convalesce
O êxtase em chama na prece
A vitória antiga na iniciada lida.

Carrega no agora o amor de outrora
A criança vibrante na mulher sem cor
A esperança do antes no depois errante.

Leva o ontem para sempre amanhã
Põe janeiro em dezembro
E a semente na flor
Vê o dia na noite
Redenção na dor
Leva a alma na palma
No inverno o calor
Faz do tempo joguete
Deleite
Seu melhor valor.

O tempo

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Um dia, serei amiga do meu tempo
Só farei coisas que o agradam
Cuidarei de sua vida com zelo
Como quem carrega o último copo d´água.

Um dia, viverei o tempo com a economia do cuidado
Com a delicadeza, a gentileza do compromisso
Exercitando o uso consciente do valor
Do que se estima tanto por ser inestimável.

Meu tempo, hoje, não se flete às minhas vontades
Não se dobra ou se contamina
Não me pertence.
E, em seu rigor, manejado pelo vazio
Arrasta-me.

De 20 de agosto de 2014 (postado originalmente em Dezembro de 2015)

Fonte da imagem em Pinterest: https://br.pinterest.com/pin/483222234997411415/visual-search/?x=94&y=129&w=376&h=517

 

O tempo

De 20 de agosto de 2014

Um dia, serei amiga do meu tempo
Só farei coisas que o agradam
Cuidarei da sua vida com zelo
Como quem carrega o último copo d’água.

Um dia, viverei o tempo com a economia do cuidado
Com a delicadeza, a gentileza do compromisso
Exercitando o uso consciente do valor
Do que se estima tanto por ser inestimável.

Meu tempo, hoje, não se flete às minhas vontades
Não se dobra ou se contamina
Não me pertence. E, em seu rigor,
Manejado pelo vazio, me arrasta.

Pasárgada e Siara

Nesta tarde, tive o privilégio de ouvir em voz doce, com chuva branda caindo, a poesia de Manuel Bandeira declamada. Lembrei-me de um exercício antigo a respeito de paródia e paráfrase, tendo “Pasárgada” como estímulo. Compartilho, então, Bandeira e minha “Siara”.

Vou-me embora pra Pasárgada, de Manuel Bandeira

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconsequente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d’água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.

Texto extraído do livro “Bandeira a Vida Inteira”, Editora Alumbramento – Rio de Janeiro, 1986, pág. 90, Disponível em: http://www.releituras.com/mbandeira_pasargada.asp


Siara

Vou-me embora pra Siara
Lá o tempo para, cala, incendeia meus temores
Ilumina, grita, ameniza minhas dores
E foge.
Corre de si mesmo
Busca auxílio no fantástico
No imitar de um mundo mágico
Esquece e perpetua
Cristaliza e renasce.

As vidas em Siara
Pulsam, extravasam
Passos que se encontram
Firmes, fortes, corajosos
Olhos que se cruzam
E se encaram, não se fecham.
Rostos que revelam-se
Abrem-se, expressam-se.
Cores que libertam-se
Luzes que acendem-se
Vidas que eternizam-se.