Tribal – parte 1

A gente é de tribo.
Aqui é tudo índio
O desenho é na pedra
E é na dureza da pedra
E da terra
Que a gente vive
Aqui é tudo batida
De cajado no chão
Voz gritada
Pele suada
De dor calejada
Que a gente vive
Aqui é tudo luta.
A gente é da floresta
Ninguém desiste
Só luta e falece
A gente enterra faz festa
Faz prece e vive.
Aqui é tudo índio.
Tribal, caneta de aquarela e caneta gel, de Grace Donati

Inteligências de Mia Couto

Não é recente a expressão de Mia Couto no mundo, mas é recente o meu mergulho na sua literatura. Há algumas semanas, terminei “Antes de nascer o mundo” (Companhia das Letras, 2009), tecido sedutoramente entre rudezas e levezas num balanço refinado de prosa e poesia. Fui criando dobras nas páginas no correr da leitura para me lembrar de registrar o que me despertou pensar mais, ver do avesso, girar conceitos, redesenhar. Segue aqui minha dobra da página 241:

“Eis a lição que aprendi em Jesusalém: a vida não foi feita para ser pouca e breve. E o mundo não foi feito para ter medida.” (Disse assim Mwanito!).

Passagem das horas, de Álvaro de Campos

Trago dentro do meu coração
Como num cofre que se não pode fechar de cheio,
Todos os lugares onde estive,
Todos os portos a que cheguei,
Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias,
Ou de tombadilhos, sonhando,
E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero.

[…]

Viajei por mais terras do que aquelas em que toquei…
Vi mais paisagens do que aquelas em que pus os olhos…
Experimentei mais sensações do que todas as sensações que senti,
Porque, por mais que sentisse, sempre me faltou que sentir
E a vida sempre me doeu, sempre foi pouco, e eu infeliz.

[…]

Árvores, galhos e outros ramos – o livro!

Eu já falei desse projeto querido aqui https://verbogeren.net/2018/07/08/a-exposicao-arvores-galhos-e-outros-ramos/. Foi um tempo bom em que pudemos nos dedicar às árvores com poesia, aquarela e outras técnicas visuais, performances dramáticas, declamação e até contribuindo com a organização de uma xiloteca. (Acabei de perceber que eu preciso postar fotos disso tudo!!!). O livro, que reúne as 42 poesias criadas durante a primeira fase do projeto está agora também disponível em pdf, pela Canal 6 Editora.

Pra baixar, é só clicar no link abaixo:

https://www.canal6livraria.com.br/pd-6ca1a5-arvores-galhos-e-outros-ramos.html?ct=&p=1&s=1

Depois, conta pra mim o que achou 😉

Era você na rua

Era você na rua
Eu não tive dúvida
Não pelo que vi
Mas pelo alvoroço nos meus pensamentos
E o furor pondo batidas a mais no meu coração.
Não duvidei que você era o vento bagunçando cada fio de cabelo meu
E aquele raio de sol
E aquela gota de calor
E aquele perfume escapando da flor até mim.
Era você, eu sei
Que se fez de sorriso do menino
E me sorriu
E foi vida dentro da vida minha
Um segredo meu
Dançando pelos meus corredores vazios.

E se as tristezas forem mais do que as levezas…?

Não há dia que se faça somente de choro, ou só de riso, só de dentes aparecendo à toa, sabe? Ou só de coração batendo apertado e respiração curta, miúda e seca… Não há dia construído só disso ou só daquilo. Cada dia tem em si muitos dias que talvez não sejam… e outros tantos que certamente serão. Um dia é uma entidade bipolar por natureza. Tem dia que é pura noite, dia que nem se sente a noite, dia que se encomprida e pula a noite até ser dia de novo. Há dias em que levezas, adornadas de muitas e sutis belezas, fazem sorrir em segredo a alma e dançar a música que cadencia nossa voz. Mas tem dias… outros dias, em que tristezas são mais que as levezas. Daí, é de se pegar o dia claro que poderia ser e fazê-lo livre, viver.