Frágil

E se eu me encaixotasse?
Com aquele símbolo de “frágil” por todos os lados, alertando para um manuseio cuidadoso…?
Eu seria poupada de tantos solavancos fazendo rachaduras em mim?
E se eu me prendesse num bordado floral repleto de cores, arrematando-me bem para não cair jamais?
Talvez me diluir em aquarela me resolva a dor de existir num mundo de tantas agressões.

Mundo nosso, nosso orgulho

O mundo não tem mais graça.
Não tem mais segredo
Não tem mais silêncio
Não tem mais respeito.
É só um entojado enjoado embolado
De canibais e vermes.
O que não é, é espaço vazio
Que flui pelas intermitências e foge de si mesmo
Com medo de se ver no resto
E de aumentar a massa que só fermenta e cresce.
O mundo já é completamente sem graça.
É aquela festa de gente bêbada tombada ao chão.
Desistente.
É o cheiro da mata queimada.
O crime anistiado.
A vida alheia tomada em comentário prosaico
Pra não se falar de si.
Da sua própria e íntima sujeira.
O mundo não tem nada de graça.
Tudo custa a alma pra quem tem
A escassez de quem não se tem.
Esse nada apático e inválido.
Custa o olho da cara.
Custa o tempo da poesia que eu não faço
E daquela música que me é honesta.
O mundo não tem graça nem é sério.
É o descaso curtindo a desgraça.
É a cada dia um despautério.
Bumba, o deus do vômito. Autoria desconhecida. Fonte: https://ngangamansa.wordpress.com/2019/09/06/bumba-el-dios-del-vomito/

Se você me agredir, será a única vez

Há tempos tenho permitido que minha sensibilidade se expresse no limite do imponderável. Não aprendi a viver protegida de mim mesma, do que sinto, ou penso, do que ouço ou vejo, do que clamo ou almejo. Vivo assim à beira de tudo, na batida do pulso e no mergulho incessantemente profundo. Deste jeito, sou mulher, filha, amiga, aprendiz e mestre, poetisa e falha, errada, imperfeita, torta, incompleta, imprecisa, incerta. Deste jeito sou, no trabalho coadjuvante cotidiano de ajudar pessoas a se construírem na vida. Mas tal feito não é trabalho quando é missão. Não termina em oito horas se for paixão. Não acata limites porque não admite esforços em vão. Assim, em meio a esta intensidade perene, efusões de amor, alegria e satisfação são forças que arrebatam ao piscar dos olhos. Mas, às vezes, no descontrole da doação de minha vida àqueles que me buscam e que me exigem, ponho-me alvo de desmedidos ataques, desmerecidos e implacáveis. Hoje, foi um dia assim. A violência respingou em mim. Fui alvejada por quem não domina a própria arma. E doeu, como é de doer quando se oferece o peito ao tiro. Informo, no entanto, que embora não tema novas violências, se você me agredir, será a única vez.