Por mais sensibilidade e menos anestesia

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Há alguns anos, um dos meus interesses no exercício profissional tem sido o treino de habilidades sociais e comunicação social junto a pessoas que vivem na especial sintonia do espectro do autismo. Via de regra, carecem de suporte adequado para desenvolver suas competências neste campo e, assim, interagir melhor socialmente. Vivendo inúmeras situações, nas quais aprendi, apliquei e desenvolvi alguns procedimentos nesta esfera, fui guiada pelo caminho do que chamamos de empatia. Para ser breve ao introduzir sua definição, utilizarei a frase curta que repetimos aos pais quando iniciamos um trabalho como este: “Empatia é a capacidade de se colocar no lugar do outro”. Este fenômeno psicológico que nos valida como homens de boa vontade nasce pelo reconhecimento e a percepção que temos do outro, daquele que não está em nós, que constitui outro eu e se apresenta como um semelhante. Nos dias que findaram a semana, fui eu mesma, sem cenas montadas ou estratégias traçadas, aquele alguém que sente dor e sofre. Alguém a se destinar empatia, portanto. Senti em minha própria pele o conforto de recebê-la e a tristeza de vê-la, sem cerimônia, ausente. Em um sopro de razão, em meio a tanto sentir, me pus a refletir o quão rasa pode ser nossa dedicação a um semelhante e o quão negligentes podemos estar sendo ao educar e formar pessoas. Por isso, desejando ser cuidadosa ao tocar nos limites do conceito, dedicarei mais tempo e palavras, talvez mais mergulho e sensibilidade do que apenas a definição curta que repito (ou repetia) no tempo curto do cotidiano. Empatia, pelo coração de João Doederlein, é “saber ler o roteiro de outra vida, é ser ator em outro palco, é compreender. É descer ao fundo do poço de alguém, sentar-se e fazer-lhe companhia”. É saber abraçar a alma do outro, sem dedicar-lhe preconceito de posição ou status, proximidade ou aparência. É deixar-se um pouco em repouso e esquecimento, e entregar-se a respirar a respiração de alguém. Empatia é calçar os sapatos do seu semelhante para compreender e sentir o seu caminho. É arrepiar-se com o frio que ele sente. E transpirar com a alegria veraneada que lhe alegra a alma. É fazer-se braço ao abraço e escuta à palavra. É estar e ladear, apoiar e sustentar. Empatia é mais que o olhar benevolente, é permitir-se a dor ou a alegria que o outro sente, não por ele, mas junto a ele, em comunhão de vida.

Nota: Explorada a significação de “empatia”, estabelece-se por antônimo, “anestesia”.

Exsudação

Este vômito que escapa dos buracos
E alcança destinos incalculados
Inunda de vazio os becos
Da dignidade insultada.

Este vapor que deixa os poros
E intoxica a fé sem dolo
Arrebata de horror os crentes
Da realidade empenhada.

Este calor que escancara os fatos
E denuncia passados minados
Equilibra de poder os gritos
Da intensidade negada.

Nota sobre a imagem: Digital Vomit” é um projeto continuo de Alberto Seveso, desenvolvido a partir de fotografias atraentes, uma impressora de jato de tinta e técnicas de intervenção que resultam em composições excepcionais. Ler mais em: http://www.zupi.com.br

Link da imagem: http://pin.it/mh7qVVf

Encontro

image…me encontrei serena na trêmula carne
…me arranquei sangrando.
Escondi possessões erradas
Planejei histórias vis
E vi no calor de meus afagos
A possibilidade de em êxtase seguir
Perpetuando a espécie do meu riso
Por ser sempre e ter contornos
Pelos cantos e inebriantes jeitos…
Em meus toques certos males
De fêmea em tanta sanha.

(Junho de 1999)

Grafismo da autora.

O tempo

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Um dia, serei amiga do meu tempo
Só farei coisas que o agradam
Cuidarei de sua vida com zelo
Como quem carrega o último copo d´água.

Um dia, viverei o tempo com a economia do cuidado
Com a delicadeza, a gentileza do compromisso
Exercitando o uso consciente do valor
Do que se estima tanto por ser inestimável.

Meu tempo, hoje, não se flete às minhas vontades
Não se dobra ou se contamina
Não me pertence.
E, em seu rigor, manejado pelo vazio
Arrasta-me.

De 20 de agosto de 2014 (postado originalmente em Dezembro de 2015)

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Assim

ana_maria_pacheco_ASSIMAssim…
Que, enfim, aparecer o que eu disse
Que, de repente, se fizer como seu eu visse
Já tudo diluído estará
Já tudo lembrança pra mim
Já tarde será…
Assim que acontecer.

(02 de abril de 1998, Diário pessoal de Grace Cristina Ferreira-Donati)

 

 

Imagem: reprodução de escultura de Ana Maria Pacheco. Fonte: https://br.pinterest.com/source/prattcontemporaryart.co.uk