#JustiçaPorMiguel

Miguel, eu preciso falar com você. Dizer que eu sinto muito. Sinto muito… Quero dizer que teria sido incrível se esse seu sorriso lindo e terno tivesse tido muitos anos para viver. Preciso dizer a você que hoje eu sinto vergonha pela brancura que recobre a minha pele. Ainda bem que não sairei às ruas por estes dias e posso me esconder. Esconder o que o branco da minha pele significa no país em que eu vivo. Hoje eu sinto vergonha por ser brasileira… um sentimento que vem tomando conta dos meus cantos, me invadindo já há muitos anos. Eu sinto uma imensurável vergonha pela forma como tratamos as crianças, que precisam sobreviver a nós. Eu tenho pena das crianças brasileiras, que ao nascerem vislumbram um destino de obstáculos quase intransponíveis, como num game desses bem violentos, em que se esgotam todas as vidas e jamais se vence. Peço perdão pela irresponsabilidade e descaso que lhe empurraram sozinho para dentro de um elevador. Eu tenho raiva do desprezo que te jogou do 9.º andar. Eu tenho raiva das pessoas vis que chegam ao poder investindo na ignorância do povo, conduzido no cabresto. Todos eles te empurraram do 9.º andar, Miguel. Porque a mulher branquinha e loura que deveria ter zelado pela sua vida por menos de meia hora, enquanto sua mãe era abusada pelo sistema, integra o esquema criminoso todo de destruir pretos, pobres, gays, deficientes, crianças… Eu, sinceramente, gostaria que você tivesse tido todas as proteções a que tinha direito. Eu gostaria de ter conhecido você… quem sabe tomar um sorvete junto, sentar no chão e brincar… adoro brincar com as crianças, sabe, Miguel… é umas das coisas que enchem minha vida de cor. Eu vou rezar, tá bom? Para que você fique bem, num lugar de luz, que caminhe seu caminho em paz e que renasça como uma tulipa na Holanda ou um baobá em Madagascar… jamais criança no Brasil. Fique bem!

Miguel, Técnica Mista sobre Canson preto 150, de Grace Donati

Para além da curva da estrada…, refletindo Alberto Caeiro

Lendo a “Poesia Completa de Alberto Caeiro” (Fernando Pessoa, São Paulo: Companhia das Letras, 2005), com comprometimento total pela primeira vez, tenho me deparado com versos que fariam festejar o mais dedicado adepto do Mindfulness. É uma celebração do agora, do estado presente, dos sentidos, da percepção, do palpável, do que se alcança hoje. É uma mensagem que vai bastante além da valorização da natureza. Toca o que há de essencial na própria essência, o núcleo, o imprescindível. Na página 88, abrindo “Poemas Inconjuntos”, revela-se o poema antídoto da ansiedade. É só ler e reler…

“Para além da curva da estrada                                                                         Talvez haja um poço, e talvez um castelo,                                                           E talvez apenas a continuação da estrada.                                                       Não sei nem pergunto.                                                                               Enquanto vou na estrada antes da curva                                                             Só olho para a estrada antes da curva,                                                       Porque não posso ver senão a estrada antes da curva.                                 De nada me serviria estar olhando para outro lado                                           E para aquilo que não vejo.                                                                         Importemo-nos apenas com o lugar onde estamos.                                     Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer.                 Se há alguém para além da curva da estrada,                                             Esses que se preocupem com o que há para além da curva da estrada.   Essa é que é a estrada para eles.                                                                       Se nós tivermos que chegar lá, quando lá chegarmos saberemos.             Por ora só sabemos que lá não estamos.                                                     Aqui há só a estrada antes da curva, e antes da curva                                     Há a estrada sem curva nenhuma.”

 

Dia das Mães, 10 de maio de 2020

Meu nome é Grace, eu tenho 42 anos e viver este Dia das Mães está sendo bastante diferente do que foi vivê-lo nos últimos anos. Estamos no meio da pandemia do novo coronavírus, vivendo em afastamento social, e por isso não pude ir até minha mãe abraçá-la e declarar pessoalmente tudo o que eu guardo em meu coração, toda a gratidão pela dedicação desmedida para me fazer quem eu sou. Como não ia mesmo ter o calor do abraço, eu decidi fazer um vídeo para homenageá-la. Então, ontem eu me embrenhei por fotografias guardadas, antigas, fazendo um vai-e-vem entre o passado mais antigo e aquele nem tão antigo assim. Consegui selecionar algumas e montar o vídeo que eu queria.

Só que navegar entre fotos não é tão simples para mim. Elas exercem um grande fascínio e poder sobre minhas emoções. Conseguem me transportar para lugares, me fazem sentir cheiros, o vento, o amor e a dor dos momentos ali registrados. Eu fiz o vídeo, gostei muito de fazê-lo, mas as fotografias ficaram passeando em mim e me fizeram revisitar becos para onde não ia já há algum tempo.

Dormi, acordei e conversei com a minha amada, que tinha um sorriso lindo no rosto, terno, genuíno, forte. Falamos sobre o vídeo, declarei todo o meu amor e a minha gratidão. Daí, ela me nocauteou dizendo que carrega no peito a tristeza de não poder ter me ajudado a ser mãe.

E então, me dei conta, com mais seriedade, de que eu não serei mãe. Não mais. Não, em definitivo. Tenho uma mutação genética – reconhecida por mim desde muito pequena – que, entre outros efeitos, me pôs em menopausa aos 41 anos. No exame que fiz essa semana, avaliando ovários e endométrio, a médica disse assim… “o útero e os ovários já estão bem atrofiados, bem pequenininhos”. Achei tão louvável a tentativa dela em ser delicada, usando a palavra “pequeno” no diminutivo, mas para mim foi intenso sair da categoria do pequeno para um diminutivo enfaticamente decretado. Entrei no processo de falência do meu sistema reprodutor há mais de sete anos, mas finalmente ler “resultados normais para menopausa” me colocou em outro lugar na vida.

Hoje eu reconheço que apesar de alimentar uma perspectiva tão racional da coisa toda, repetindo a mim mesma e para os outros que estava tudo bem e que eu sempre soube que não seria mãe, eu desejei muito, muito, ser mãe. Desejei ser mãe vendo mães serem inadequadas, mas também vendo mães serem maravilhosas. Desejei ser mãe de tantas crianças que eu vi brincando na grama, correndo em festas, passeando no shopping. Desejei ser mãe de crianças que eu vi crescer pertinho de mim. Desejei ser mãe de crianças que não têm mãe.

Não sei dizer ao certo o quanto esse desejo vive no presente, o quanto é uma saudade de quando eu vivia no tempo do possível. Não sei de muita coisa sobre mim. Mas sei, mãe, que você não tem culpa de nada. Só tem uma enorme responsabilidade de ter me feito uma mulher forte, engajada, inteira, lutadora.

Jamais viverei o Dia das Mães sendo mãe, mas espero vivê-lo como filha, tendo o seu aconchego para sempre.  

Falta

The Art of Not Panicking | Wired For Happy
wiredforhappy.com
A partir de Pinterest

Falta ar
Falta flor
O sorriso solto
Sobra dor
Falta a calma que eu nunca tive
Falta a alma sublime
A leveza sem medo
Falta espaço
Na minha garganta
Falta passo
No dia inteiro
Sobra aviso
E alarme
Falta árvore
Falta alívio
Ruído de riso amigo
Falta ar
No meu abrigo.

Presente de Natal

De Grace Donati em Natal sempre Natal, vol 3, organizado por Rosa Leda Accorsi Gabrielli, Bauru: Canal 6 Editora, 2015.

Ela esperou por aquela noite como quem aguarda socorro e refúgio. Aguardava por ela mesma. Pelo encontro memorável, adiado por toda vida, do desejo com a realização. Naquela noite, protegendo-se das cerimônias protocolares e vazias, deu-se a si mesma de presente. Iniciou seu ritual com o despertar do sol e se fez cumpridora do que lhe vinha ao coração. Arrumou e perfumou o quarto, se pôs em um vestido branco, longo e solto para sentir seus contornos livres e sua alma simples. Esvaziou a casa de guardados sem sentido e deu novas cores aos cantos que lhe refletem. Enternecida com a paz que sentia, abriu uma caixa de madeira e retirou os galhos, coletados desde o outono, das árvores que lhe encantaram e das que se impuseram nos caminhos. Desta coleção se fez sua árvore natalina. Pendurou em cada ramo uma bênção, escrita em pedaços de folha de algodão, e adornou os trechos de raízes com os valores que lhe fincaram os pés no chão e a cabeça nas nuvens. Criou, ela mesma, a trama de galhos, sombras e raízes que lhe parecia bem. O entremeado caótico que lhe fazia sentido. E que suspendia as memórias de tantos natais e de tantas árvores. As luzes piscantes, pontuais e fracas, na medida da doçura, finalizaram a obra com orgulho e genuíno estado de felicidade. A árvore, com galhos desnudos de folhas e repletos de palavras foi sendo modelada com cuidado, beleza e verdade. As interrupções para um olhar mais afastado, em ângulo surpreendente e novo, e dando espaço aos afazeres de uma casa vibrante, se esparramaram pelo dia. Com o anoitecer, reuniu frutas secas, um pote de açúcar com canela para adoçar bobagens e vinho, num cenário de luzes amarelas pálidas. Encerrou providências para alimentar corpo e alma, acendeu velas, e satisfez-se com os aromas agridoces que tomaram cantos insuspeitos da casa vestida para festa. Banhou-se e se fez repleta de calmaria e leveza. Nunca estivera em melhor companhia, na paz de se estar verdadeiramente consigo mesma. Nunca houvera melhor Natal. Talvez nenhum renascimento tão palpável e pungente. Então, gritinhos de gente nova, conselhos de gente antiga e amor da vida inteira adentraram a casa veraneada e construíram junto a ela, em comunhão, uma noite feliz.

Tribal – parte 1

A gente é de tribo.
Aqui é tudo índio
O desenho é na pedra
E é na dureza da pedra
E da terra
Que a gente vive
Aqui é tudo batida
De cajado no chão
Voz gritada
Pele suada
De dor calejada
Que a gente vive
Aqui é tudo luta.
A gente é da floresta
Ninguém desiste
Só luta e falece
A gente enterra faz festa
Faz prece e vive.
Aqui é tudo índio.
Tribal, caneta de aquarela e caneta gel, de Grace Donati