Presente de Natal

De Grace Donati em Natal sempre Natal, vol 3, organizado por Rosa Leda Accorsi Gabrielli, Bauru: Canal 6 Editora, 2015.

Ela esperou por aquela noite como quem aguarda socorro e refúgio. Aguardava por ela mesma. Pelo encontro memorável, adiado por toda vida, do desejo com a realização. Naquela noite, protegendo-se das cerimônias protocolares e vazias, deu-se a si mesma de presente. Iniciou seu ritual com o despertar do sol e se fez cumpridora do que lhe vinha ao coração. Arrumou e perfumou o quarto, se pôs em um vestido branco, longo e solto para sentir seus contornos livres e sua alma simples. Esvaziou a casa de guardados sem sentido e deu novas cores aos cantos que lhe refletem. Enternecida com a paz que sentia, abriu uma caixa de madeira e retirou os galhos, coletados desde o outono, das árvores que lhe encantaram e das que se impuseram nos caminhos. Desta coleção se fez sua árvore natalina. Pendurou em cada ramo uma bênção, escrita em pedaços de folha de algodão, e adornou os trechos de raízes com os valores que lhe fincaram os pés no chão e a cabeça nas nuvens. Criou, ela mesma, a trama de galhos, sombras e raízes que lhe parecia bem. O entremeado caótico que lhe fazia sentido. E que suspendia as memórias de tantos natais e de tantas árvores. As luzes piscantes, pontuais e fracas, na medida da doçura, finalizaram a obra com orgulho e genuíno estado de felicidade. A árvore, com galhos desnudos de folhas e repletos de palavras foi sendo modelada com cuidado, beleza e verdade. As interrupções para um olhar mais afastado, em ângulo surpreendente e novo, e dando espaço aos afazeres de uma casa vibrante, se esparramaram pelo dia. Com o anoitecer, reuniu frutas secas, um pote de açúcar com canela para adoçar bobagens e vinho, num cenário de luzes amarelas pálidas. Encerrou providências para alimentar corpo e alma, acendeu velas, e satisfez-se com os aromas agridoces que tomaram cantos insuspeitos da casa vestida para festa. Banhou-se e se fez repleta de calmaria e leveza. Nunca estivera em melhor companhia, na paz de se estar verdadeiramente consigo mesma. Nunca houvera melhor Natal. Talvez nenhum renascimento tão palpável e pungente. Então, gritinhos de gente nova, conselhos de gente antiga e amor da vida inteira adentraram a casa veraneada e construíram junto a ela, em comunhão, uma noite feliz.

Minas Gerais, por uma paulista.

imageConheço pouco Minas Gerais, o suficiente para manter uma paixão, irremediável e sem explicação. Não nasci em Minas, mas procuro mantê-la em mim. Então, depois de viver intensamente em terras mineiras por seis dias, tentarei repercutir o que vai dentro do meu peito agora.

Gosto da simplicidade da gente, do descompromisso com a tristeza. Gosto de como as montanhas se aglutinam, formando veios e caminhos. Gosto do alimento saboroso, dos aromas extravagantes que sequestram a família para o fogão. Gosto da calma e da alma. Gosto da serra e do que se apresenta aos seus pés. Gosto da neblina que esconde os vales. Gosto do arrastar das sandálias ritmando a sanfona. Gosto da viola e do violão, da batida e do ponteio, do amor choroso da canção. Gosto da vida solta e suficiente. Gosto da benevolência nos cantos e do germinar seco das sementes. Gosto da fé nos santos e nos labores tantos. Gosto do brilho da pele tingida do sol. Gosto do charme sem jeito e insuspeito. Gosto da fala mansinha e do olhar fagueiro. Gosto da carência até. Gosto da dança colada e suada. Gosto dos horizontes infinitos e de como os dias se revelam lindos. Gosto das sinuosas estradas. Gosto da espontaneidade das rodas. Gosto dos uais e dos luais. Das palavras e das alegrias sem rodeios e sem finais.

O amanhecer de memórias sem iguais das minhas Minas Gerais. Não falta mar nas Gerais. Há pureza em todo canto, na serra e nos uais. Há beleza em todo vale, na luz da aurora e nos luais.