Máscaras de oxigênio

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“Em caso de despressurização, máscaras de oxigênio cairão automaticamente à sua frente. Coloque-a primeiro em você e somente depois ajude as pessoas que precisarem.” Este é um trecho das orientações sobre medidas de segurança que são enunciadas nos vôos do mundo todo. Eu já a ouvi muitas vezes, considero que já compreendo muito bem a recomendação mas, medrosa que sou, ainda dedico toda a minha atenção cada vez que um membro da tripulação se põe a repeti-la aos passageiros. “Vai que desta vez eu preciso…”, é o que eu sempre penso.
Viajando sozinha e recoberta por reflexões que me foram provocadas nos últimos dias, ouvi hoje a orientação de um jeito novo, como se eu nunca a tivesse escutado: “…primeiro você, depois os outros…” foi o que a comissária falou. Na verdade, tive a sensação de que a mocinha da animação do vídeo de segurança olhou e piscou pra mim. Quase ouvi meu nome após a pausa reticente do final da frase. Acho que ouvi!
Fantasiei que a mensagem continua sendo repetida em cada vôo porque não tenho feito certo e por isso o universo resolveu insistir comigo. Na maioria dos dias, fico sem máscara porque uso todas as que eu encontro para colocá-las em quem está perto de mim e, claro, como resultado óbvio, termino o dia sem ar. Não sou a única… é um pecado habitual de muitos que se repete, se repete… até se tornar parte de quem se é. Pois é… a mocinha do vídeo e a voz austera da comissária me deram o que pensar.
De onde nasce verdadeiramente este comportamento de auto-flagelação ou de negligência de si próprio que insistimos em manter? Talvez, a capa acetinada de herói nos tenha sido vendida sem manual qualquer. Talvez, tenhamos sido convencidos de que bom mesmo é quem se doa integralmente e se esquece. Essas mensagens são propagadas aos quatro ventos numa interpretação rasa dos ideais de grandes homens. Abandonar-se não é lógico, não é inteligente e produz uma série de efeitos danosos em cascata. Relegar-se ao segundo plano é mesmo desmerecer a própria importância como instrumento do que quer que seja… é deixar de zelar por alguém que pode ser um instrumento de paz junto a outro alguém. Para se priorizar o outro, é preciso ter condições de entregar o que se pretende ou o necessário no momento do auxílio. E ninguém é capaz disso ao perder-se de si mesmo.
Acho que hoje, os esforços de muitas pessoas queridas que tentam me ensinar a cuidar de mim mesma tiveram uma vitória. Cheque você também em que condições está a sua máscara. E lembre-se: preserve sua vida antes para que tenha o que oferecer ao seu próximo. Cuide-se!