Viva

Viva
Corra o mesmo risco de quem, descalço e infantil, inquieto e febril, ama.
Faça o mesmo riso de quem, entregue e servil, completo e gentil, ama.
Viva a lida fácil de quem, disposto a amar, incerto e feliz, ama.
Como alguém despido de temor e com ardor, ama.
Como além do viço do calor e com fervor, ama.
Com a vida toda em vigor, ama.
Apenas por ser vida
E pelo amor, ama.

Outono

Empalideceu o mundo.
E os galhos entornados no escuro do outono se desfizeram na esperança de brotar.

Desobedeceu o curso.
E as folhas vermelhadas no susto do abandono se detiveram na lembrança de ficar.

Restabeleceu o rumo.
E os prados ornados no lustro do entorno se transpuseram na bonança de mudar.

Daniel na cova dos leões, de Renato Russo

Ele é assim: intenso, verdadeiro, visceral. Renato, em uma das poesias que me permitiu reconhecer a força da minha correnteza sem direção.

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Aquele gosto amargo do teu corpo
Ficou na minha boca por mais tempo:
De amargo e então salgado ficou doce,
Assim que o teu cheiro forte e lento
Fez casa nos meus braços e ainda leve
E forte e cego e tenso fez saber
Que ainda era muito e muito pouco.

Faço nosso o meu segredo mais sincero
E desafio o instinto dissonante.
A insegurança não me ataca quando erro
E o teu momento passa a ser o meu instante.
E o teu medo de ter medo de ter medo
Não faz da minha força confusão:
Teu corpo é o meu espelho e em ti navego
E sei que tua correnteza não tem direção.

Mas, tão certo quanto o erro de ser barco
A motor e insistir em usar os remos,
É o mal que a água faz, quando se afoga
E o salva-vidas não está lá porque não vemos.

Microconto Um

A coisa se mostrava séria com a sucessão de treinos dialógicos entre a terapeuta e o menino azul clarinho. De repente, entre um olhar doce e uma mechinha de cabelo ruivo ajeitada de lado, a delicadeza se pôs na conversa, dizendo: “Estou muito feliz porque hoje eu vou na casa da minha vovó! Lá, eu tenho abraços, televisão, biscoitos fresquinhos e um suéter… com amor em cada ponto!”