Viva
Corra o mesmo risco de quem, descalço e infantil, inquieto e febril, ama.
Faça o mesmo riso de quem, entregue e servil, completo e gentil, ama.
Viva a lida fácil de quem, disposto a amar, incerto e feliz, ama.
Como alguém despido de temor e com ardor, ama.
Como além do viço do calor e com fervor, ama.
Com a vida toda em vigor, ama.
Apenas por ser vida
E pelo amor, ama.
Autor: Grace Cristina Ferreira-Donati
Outono
Empalideceu o mundo.
E os galhos entornados no escuro do outono se desfizeram na esperança de brotar.
Desobedeceu o curso.
E as folhas vermelhadas no susto do abandono se detiveram na lembrança de ficar.
Restabeleceu o rumo.
E os prados ornados no lustro do entorno se transpuseram na bonança de mudar.
Ternura
Singela ternura
Em mim refugia
A doce brandura
Perene alegria
Singela ternura
Em mim alivia
Incerta ventura
Serena avaria
Singela ternura
Em mim se aninha
A fonte de cura
Solene folia.
Daniel na cova dos leões, de Renato Russo
Ele é assim: intenso, verdadeiro, visceral. Renato, em uma das poesias que me permitiu reconhecer a força da minha correnteza sem direção.

Aquele gosto amargo do teu corpo
Ficou na minha boca por mais tempo:
De amargo e então salgado ficou doce,
Assim que o teu cheiro forte e lento
Fez casa nos meus braços e ainda leve
E forte e cego e tenso fez saber
Que ainda era muito e muito pouco.
Faço nosso o meu segredo mais sincero
E desafio o instinto dissonante.
A insegurança não me ataca quando erro
E o teu momento passa a ser o meu instante.
E o teu medo de ter medo de ter medo
Não faz da minha força confusão:
Teu corpo é o meu espelho e em ti navego
E sei que tua correnteza não tem direção.
Mas, tão certo quanto o erro de ser barco
A motor e insistir em usar os remos,
É o mal que a água faz, quando se afoga
E o salva-vidas não está lá porque não vemos.
RealMente
Mortificamente desci aos céus
Quando percebi a iniquidade
Das nossas mentiras ditas meninas
Para ingenuar o percebido
Palidamente me fiz na verdade
Atormentada pelo poder da descoberta
De que as mentiras, mesmo torpes em silêncio
Sustentam vidas ocas
Na luz branca do desprestígio.
Microconto Dois
Vi andando pelo quintal a avareza, enrijecida em si mesma, controlada no medo e tecida com zelo. Nos fundos, a delicadeza varria acantoando o lixo. E todos os homens banhavam-se no verniz.
Inevitável
Conspicuamente às escuras 
Insidiosamente certo
Permanentemente febril
Auspiciosamente às turras
Inevitavelmente reto
Inconsolavelmente frio
Acintosamente às juras
Distraidamente perto
Irrestritamente vil
O amor
A dor
A flor
Microconto Um
A coisa se mostrava séria com a sucessão de treinos dialógicos entre a terapeuta e o menino azul clarinho. De repente, entre um olhar doce e uma mechinha de cabelo ruivo ajeitada de lado, a delicadeza se pôs na conversa, dizendo: “Estou muito feliz porque hoje eu vou na casa da minha vovó! Lá, eu tenho abraços, televisão, biscoitos fresquinhos e um suéter… com amor em cada ponto!”
Menininho
Uma constelação de amores
Faz uma nuvem de paz
Um dissabor de outono
Refaz o barulho no ar
Um menininho cantante
Faz um momento que apraz
Uma história vibrante
Mareja de luz o olhar
Uma nuvem de outono
Faz o barulho do ar
Um menininho vibrante
Refaz a história de paz.
Game

I am a sad creation
You are a deep sensation
I am the flesh on fire
You are the best desire
I am a lap increased
You are a beat in peace
I am the faster bomb
You are the next song
I am a pretty liar
You are the top higher
I am the lost in mind
You are the voice alive.
