Vento no Litoral, de Renato Russo

Procure não cantar. Leia. Sim, será uma experiência difícil, considerando que aquela voz completa, forte e densa contorna de sentidos a letra, qualquer letra. Mas, daí… percebendo que irá falhar ao negar a melodia, num ímpeto irrefreável, a canção melancólica simplesmente se articulará em seus lábios e as notas brotarão fáceis, colocando-te num tempo em que o mundo era mais bonito porque havia entre nós aquele Renato. Um deleite… sentirá seu espírito, e a paz do vento soprando no litoral.

De tarde quero descansar, chegar até a praia e ver
Se o vento ainda está forte
E vai ser bom subir nas pedras
Sei que faço isso para esquecer
Eu deixo a onda me acertar
E o vento vai levando tudo embora

Agora está tão longe
Vê, a linha do horizonte me distrai:
Dos nossos planos é que tenho mais saudade,
Quando olhávamos juntos na mesma direção

Aonde está você agora
Além de aqui dentro de mim?

Agimos certo sem querer
Foi só o tempo que errou
Vai ser difícil sem você
Porque você está comigo o tempo todo

Quando vejo o mar
Existe algo que diz:
– A vida continua e se entregar é uma bobagem

Já que você não está aqui,
O que posso fazer é cuidar de mim
Quero ser feliz ao menos
Lembra que o plano era ficarmos bem?

– Ei, olha só o que eu achei: cavalos-marinhos
Sei que faço isso para esquecer
Eu deixo a onda me acertar
E o vento vai levando tudo embora

Metal contra as nuvens, de Renato Russo

Renato Russo, em toda sua intensidade e verdade, fez, faz e sempre fará parte da minha agudeza e inquietação. Fui moldada por sua música e por sua poesia enquanto tentava fazer crescer a menina paulistana impetuosa e assustada. Inaugurei hoje, talvez pela chegada do Outono, uma temporada de Renato por aqui… arrancando as próprias folhas, enxergamos melhor nossas raízes. Para hoje, Metal Contra as Nuvens.IMG_0468

Não sou escravo de ninguém
Ninguém, senhor do meu domínio
Sei o que devo defender
E, por valor eu tenho
E temo o que agora se desfaz.

Viajamos sete léguas
Por entre abismos e florestas
Por Deus nunca me vi tão só
É a própria fé o que destrói
Estes são dias desleais.

Eu sou metal, raio, relâmpago e trovão
Eu sou metal, eu sou o ouro em seu brasão
Eu sou metal, me sabe o sopro do dragão.

Reconheço meu pesar
Quando tudo é traição,
O que venho encontrar
É a virtude em outras mãos.

Minha terra é a terra que é minha
E sempre será
Minha terra tem a lua, tem estrelas
E sempre terá.

II

Quase acreditei na sua promessa
E o que vejo é fome e destruição
Perdi a minha sela e a minha espada
Perdi o meu castelo e minha princesa.

Quase acreditei, quase acreditei

E, por honra, se existir verdade
Existem os tolos e existe o ladrão
E há quem se alimente do que é roubo
Mas vou guardar o meu tesouro
Caso você esteja mentindo.

Olha o sopro do dragão…

III

É a verdade o que assombra
O descaso que condena,
A estupidez, o que destrói

Eu vejo tudo que se foi
E o que não existe mais
Tenho os sentidos já dormentes,
O corpo quer, a alma entende.

Esta é a terra-de-ninguém
Sei que devo resistir
Eu quero a espada em minhas mãos.

Eu sou metal, raio, relâmpago e trovão
Eu sou metal, eu sou o ouro em seu brasão
Eu sou metal, me sabe o sopro do dragão.

Não me entrego sem lutar
Tenho, ainda, coração
Não aprendi a me render
Que caia o inimigo então.

IV

– Tudo passa, tudo passará…

E nossa estória não estará pelo avesso
Assim, sem final feliz.
Teremos coisas bonitas pra contar.

E até lá, vamos viver
Temos muito ainda por fazer
Não olhe pra trás
Apenas começamos.
O mundo começa agora
Apenas começamos.

Encerrar-se

Morrer é um encerrar-se. Só não me parece justo que alguém finalize a obra por você. E é assim, pra mim, com cada vivente. Não me parece que alguém morra… assim como sendo sujeito do seu próprio fim. É antes um ponto final promulgado por outrem. Não são as pessoas que, antes de terminarem, decidam assim. Não me parece que nenhuma delas perceba, com grata elasticidade e tempo, e realidade, e clareza, que o final da história se aproxima. E que é hora de encerrar-se. Não me parece, tampouco, que morrer seja um bom final para qualquer um. Não me parece razoável que todas as histórias compartilhem o mesmo desfecho. Acho tão pouco inventiva esta mesmice repetida e ecoada por todos os cantos. Parece tão pouco estimulante conhecer o fim de antemão. Parece uma brincadeira de mal gosto… antes de começar já se conhece o final e antes que você esqueça do encerramento que viverá na própria carne, algum companheiro de cena acaba, termina, se esvanece no ar, se dilui. E a lembrança marcante, a determinação pungente da sua própria conclusão se instala quando caem os bravos, os fracos, os certos e os errados, os medíocres, os brilhantes e os amados. Pessoas terminam, você continua… e, desconhecendo a ordem dos fatos, a ordem dos finais, se engana em ilusão da criação autônoma da própria história até que o final conhecido se faça e te termine. Estou certa é da incerteza apavorante e dos abruptos finais. Nada mais há de seguro em todo o resto.

Para alguém de importância singular, que se encerrou em 17 de junho de 2013, a quem devotei especial amor. Saudades.

Soneto, de William Shakespeare

Há dias procuro palavras e tento harmonizá-las em escrito novo e de alguma relevância… teimosia sem sucesso. Na perspectiva do escritor, é preciso resignação e paciência para aceitar a euforia da alma que decide viver poesia em vez de escrevê-la. Humildemente, cabe nestes momentos, ler, ler e reler, em busca fervorosa por mais e melhores sentidos. Algumas doses de Shakespeare podem operar milagres.

Que à união de espíritos puros
Eu não aceite impedimentos. Não é amor, o amor
Que muda quando mudanças encontra,
Ou se curva a quem quer extingui-lo.
Oh, não! O amor é um marco eterno
Que inabalável enfrenta as tormentas.
É a estrela de todo barco errante,
De brilho certo, mas valor inestimável.
O amor não é joguete do tempo, embora
Ao envelhecer os lábios nos entorte.
O amor não muda conforme o dia e a hora,
Mas chega inalterado até o fim dos tempos.
Se me provarem que isto está errado,
Então nunca escrevi nem ninguém jamais amou.

William Shakespeare (1564-1616)

Vigiai

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Antes que o tempo reclame e se assanhe
Antes que a vida chame e lhe apanhe
Perpetre em ti seu próprio amor
Conserve ali o som da flor.

Antes que o olho atinja e corrija
Antes que a boca apele ou maldiga
Relembre em ti a alma em paz
Entenda, enfim, a luz que jaz.

Antes que o grito revide e convide
Antes que a dor migre e atire
Perceba em ti primor
Seja de si senhor.