Vem

Conta um segredo que me core a face
Que me amoleça
E me deixe fácil.

Faz do meu gozo o vício
Que me sequestra a calma
E me faça laço.

Pulsa em mim o desejo
Que me acenda a graça
E me torne abraço.

Tatua em meu corpo o insuspeito
Que grita em seu peito
Eu inteira em pedaços.
 

Quase

Eu quase compreendo a tristeza de quem chora
E quase sinto a dor da ferida
E ouço a lamúria das esquinas
E quase escorre em mim a lágrima daquela menina.

Eu quase morro a morte da Aurora
E quase revivo o riso e a voz
Por pouco não toco em mim a saudade de mil sóis
E quase embalo a saudade daquele colo… de nós.

Pina

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Eu viveria entre mármores curvilíneos que avistam um horizonte que eu não alcanço.
Eu poderia ser esquecida, deixada só entre as criaturas de pedra
Que eternizam os movimentos apaixonados das mãos de sonhadores.

Eu cairia aos pés d’O homem que Marcha
E restaria deitada no octógono que me carrega em viagem circular
Esperando o símbolo perdido se encontrar.

Eu vagaria sem pele por aquelas tiras longas de madeira queixosa
Embriagada pela luz sublime do céu envidraçado.
Eu dançaria nas ruas escuras de óleo e verniz e me juntaria, cansada, às Mulheres na Janela.

Eu amaria todos os donos de olhares apaixonados com braços que eu não abraço.
Eu poderia ser esquecida, deixada só entre as cores da aquarela
E viveria entre histórias vis e memórias secretas.

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Poesia em homenagem à Pinacoteca do Estado de São Paulo, um dos lugares que fazem meu coração sorrir.

Oco sem fundo

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Se pudesse, ela dobraria cada segmento do seu corpo para escondê-los no buraco aberto em seu peito.
Naquele oco sem fundo, interminável, que se fizera marca nova da vida que escolheu seguir.
Os pés tortos, os joelhos apertados, as pernas contra o vazio contorciam o desejo de menos dor.
Para domar sua alma chorosa
Sequiosa de paz
E calor.