Pina

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Eu viveria entre mármores curvilíneos que avistam um horizonte que eu não alcanço.
Eu poderia ser esquecida, deixada só entre as criaturas de pedra
Que eternizam os movimentos apaixonados das mãos de sonhadores.

Eu cairia aos pés d’O homem que Marcha
E restaria deitada no octógono que me carrega em viagem circular
Esperando o símbolo perdido se encontrar.

Eu vagaria sem pele por aquelas tiras longas de madeira queixosa
Embriagada pela luz sublime do céu envidraçado.
Eu dançaria nas ruas escuras de óleo e verniz e me juntaria, cansada, às Mulheres na Janela.

Eu amaria todos os donos de olhares apaixonados com braços que eu não abraço.
Eu poderia ser esquecida, deixada só entre as cores da aquarela
E viveria entre histórias vis e memórias secretas.

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Poesia em homenagem à Pinacoteca do Estado de São Paulo, um dos lugares que fazem meu coração sorrir.

Oco sem fundo

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Se pudesse, ela dobraria cada segmento do seu corpo para escondê-los no buraco aberto em seu peito.
Naquele oco sem fundo, interminável, que se fizera marca nova da vida que escolheu seguir.
Os pés tortos, os joelhos apertados, as pernas contra o vazio contorciam o desejo de menos dor.
Para domar sua alma chorosa
Sequiosa de paz
E calor.

O que você quer saber de verdade… a poesia de Marisa, Arnaldo e Brown

Vai sem direção
Vai ser livre
A tristeza não
Não resiste
Solte os seus cabelos ao vento
Não olhe pra trás
Ouça o barulhinho que o tempo
No seu peito faz
Faça sua dor dançar
Atenção para escutar
Esse movimento que traz paz
Cada folha que cair,
Cada nuvem que passar
Ouve a terra respirar
Pelas portas e janelas das casas
Atenção para escutar
O que você quer saber de verdade

Do álbum “O que você quer saber de verdade”, Marisa Monte.

Ecos na releitura de “O mundo de Sofia” – Eco #2

Eco #2 – página 487

“Sartre descreve o homem urbano do século XX. Você se recorda de que os humanistas do Renascimento tinham propagado em tom de triunfo a liberdade e a independência do homem. Para Sartre, a liberdade do homem era como uma maldição. “O homem está condenado à liberdade”, ele dizia. Condenado porque não se criou e, não obstante, é livre. E uma vez atirado ao mundo, passa a ser responsável por tudo o que faz.
– Sim, Afinal, não pedimos a ninguém para sermos criados como indivíduos livres.
– É exatamente este o ponto central em Sartre. Acontece que somos indivíduos livres e nossa liberdade nos condena a tomarmos decisões durante toda a nossa vida. Não existem valores ou regras eternas, a partir das quais podemos nos guiar. E isto torna mais importantes nossas decisões, nossas escolhas. Sartre chama a atenção precisamente para o fato de o homem nunca poder negar sua responsabilidade pelo que faz. Por esta razão, não podemos simplesmente colocar de lado nossa responsabilidade e dizer que “temos” de ir trabalhar, ou então que “temos” de nos pautar por certas expectativas burguesas quanto ao modo como devemos viver. Aquele que assim procede mescla-se a uma massa anônima e se transforma em parte impessoal dela. Ele foge de si mesmo e se refugia na mentira. De outra parte, a liberdade do homem nos obriga a fazer de nós alguma coisa, a ter uma existência “autêntica” ou “verdadeira”.”

Eco: Ao mesmo tempo em que existir deveria bastar a cada um, há um eco que grita por algum significado em cada vida. É a vida tão valiosa, que se torna anti-ética, imoral e criminosa a atitude da displicência, da negligência consigo mesmo e com os próprios dias. É esta a tal da liberdade individual que não garante a cada um o direito de jogar-se ao acaso. Ou Sartre estava em um delírio equivocado?

Janeiro em dezembro

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Leva aquela calma de ontem para amanhã
O riso do menino para o homem
A luz natalina para este peito em cisma.

Pega o vigor de nascer e põe no que convalesce
O êxtase em chama na prece
A vitória antiga na iniciada lida.

Carrega no agora o amor de outrora
A criança vibrante na mulher sem cor
A esperança do antes no depois errante.

Leva o ontem para sempre amanhã
Põe janeiro em dezembro
E a semente na flor
Vê o dia na noite
Redenção na dor
Leva a alma na palma
No inverno o calor
Faz do tempo joguete
Deleite
Seu melhor valor.