Corta o rio
Vence a ponte
Pula a poça
Vai à fonte
Corre o trilho
Sobe a escada
Anda a trilha
Faz a estrada
Salta a lama
Pisa a terra
Pega a folha
Ri da queda
Sopra o corte
Sente a chuva
Beija o vento
Sorte a sua.
Corta o rio
Vence a ponte
Pula a poça
Vai à fonte
Corre o trilho
Sobe a escada
Anda a trilha
Faz a estrada
Salta a lama
Pisa a terra
Pega a folha
Ri da queda
Sopra o corte
Sente a chuva
Beija o vento
Sorte a sua.

Tem poesia aqui e ali
Há pássaros gorjeando, como existe vento ventando
Tem terra molhada
Tem sol inclemente
Tem fala sonada
E gota pendente.
Tem poesia pertinho e adiante
Há menino tristonho, como existe banho morno
Tem chuva gelada
Tem luz de repente
Tem paz aninhada
E abraço presente.
Foto de Grace Cristina Ferreira-Donati, Monte Verde – MG

Vieram nuvens nubladas
E elas me lembraram
Do imprevisto, da grandeza dele
Do que a natureza faz quando se rende a si mesma.
Eu vi a curva quando esperava seguir em reta
Encontraram-me pedras quando eu previa folhas
A água escorria nos veios abertos quando eu ansiava pela terra seca.
Fui solenemente guiada, conduzida na trilha úmida
E assim… entregue…
Quando eu esperava decidir eu mesma onde pisar
A vida chovendo fez suas escolhas por mim.
Foto de Grace Cristina Ferreira-Donati, Trilha da Pedra Redonda, Monte Verde, MG.
Eco #1 – página 341
” – Uma das que mais lutou pelos direitos da mulher durante a Revolução Francesa foi Olympe de Gouges. Em 1791, dois anos depois da Revolução, portanto, ela publicou uma declaração dos direitos da mulher. É que a “Declaração dos direitos do homem e do cidadão” não tinha dedicado muito espaço aos direitos naturais das mulheres. Olympe de Gouges reivindicava para as mulheres exatamente os mesmos direitos dos homens.
– E qual foi o resultado disso?
– Ela foi decapitada em 1793 e as mulheres proibidas de toda e qualquer atividade política.”
Eco: Mulheres decapitadas e com outras mutilações podem ser vistas em todos os espaços da nossa sociedade… muitos destes rituais têm sido transmitidos pela televisão.
GAARDNER, J. O mundo de Sofia. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

Janela Gradeada, de Grace Ferreira-Donati, Aquarela sobre Canson, 21 x 29,5
Tem paixão calada
De um lado da janela cerrada.
Tem vigor e luz e força vasta
Abafada
Na janela gradeada.
Tem pulsão guardada
De um lado da janela fechada.
Tem beleza trancada
Castrada
Atrás da janela gradeada.

É o olho que oprime
Que despedaça o desejo
Que espreita na janela e na cela
E petrifica o peito.
É a voz que escraviza
Que ameaça o ensejo
Que brada na cara e na alma
E assassina o anseio.
É a mão que atinge
Que rechaça o pleito
Que conduz à guerra a fera
E acaricia o medo.
“Há um frêmito de vida nos galhos secos. Se atentarmos bem, veremos em pontos pequeninos algo que se aglutina, se aglomera, numa força de eclosão. São os brotos; é a pujança de vida que rompe a casca e busca todas as riquezas do meio ambiente, para seu crescimento. […] Não tendo mais folhas para nutrir, a seiva da árvore se concentra toda nessa parição vegetativa. É tal a sua possança, a sua força, que perfura o lenho nessa ânsia de desabrochar.”
Trecho do capítulo Primavera, do livro Estações, de Adelaide Reis de Magalhães.

No fim e no início somos eu e minha pele.
É com a minha respiração que devo me entender.
É com o que há de urgência no meu desejo de paz.
A lida é com o que eu fui quando era só impulso.
A negociação é lenta e cansa.
Todas se afogaram
As palavras
As lágrimas
Naquele mar de azul.

Ela tem no olhar o insondável
O ímpeto, o impulso, o risco, o súbito.
Tem na boca o beijo a ser dado
No abraço o colo doado
Na palavra a vida criada
A força é incontrolável.
