Um encanto
Um recanto
Um regato
Um lastro
Um laço.
…
Um canto
Um regalo
Um retrato
Um alinhavo
Um compasso.
…
Um embaraço
Um contrato
Um retalho
Um abraço
Um passo.
…
Laço.
Poesia
Paz secreta
Numa tarde assim, a chuva bagunça a terra
Intimida os pensamentos de primavera
Encanteia, vagueia
A paz secreta.
Numa tarde dessa, um clamor goteja do céu
Alivia a penúria, o fel
Pacienta, isenta
A culpa fiel.
Numa tarde assim, o cinza emoldura a canção
Eterniza os sentimentos de vastidão
Alimenta, clareia
Miúda imensidão.
Eu

Não sei ser pouco ou rasa ou pequena ou fraca
Não sei ser distante ou fugidia, minguante ou vazia
Tampouco amena ou seca
Fria, apatia.
E embora me tomem reta e certa e pronta
Sou chuva errada, forte e tórrida
O desvario em uma lógica
O mundo em uma gota
Esta confusão toda.
Silêncio Poemado
Em um evento realizado em novembro de 2016, o III Encontro Regional de Comunicação Alternativa ISAAC Brasil, pude traduzir meu envolvimento com a comunicação de pessoas com deficiências por meio de uma apresentação artística concebida para sensibilizar seus espectadores. Durante a organização do evento, sentia que precisávamos de mais do que palestras, indicadores científicos e relatos de experiências para tocar a mais profunda humanidade de quem assume parceria dialógica com alguém que não se comunica integralmente por meio da fala. Assim, surgiu “Silêncio Poemado”, construído, com a generosidade e a entrega, o talento e o amor de pessoas especiais. O áudio é uma parte da obra, agora disponibilizado neste post. Poesia para ouvir e sensibilidade para tocar.

Concepção artística: Grace Cristina Ferreira-Donati
Montagem: Joana Calepso
Texto: Poesias de Grace Cristina Ferreira-Donati, todas já publicadas no Verbogeren – Imagem poemada – Insterstício Um; Interstício Quatro; Interstício Dois; Interstício Três; Medo, Perdoa, Esperança, Sê Mâe, Sê Pai e Lugar Bom.
Atrizes: Joana Calepso e Nicole Souza
Vozes: Grace Cristina Ferreira-Donati, Joana Calepso, Nicole Souza e Wellington Santos
Gravação e edição de áudio: Jaredis Souza
Músicas (em ordem de ocorrência) de Yann Tiersen (Álbum EUSA, 2016): Penn Ar Lann, Hent IV, Enez Nein, Hent VIII, Penn Ar Lann.
Fotografias: Gabriela Maximino
Permissão
Hoje, permitirei que sente ao meu lado
E olhe o vento ventar a folha que amarelou.
Hoje, permitirei que sinta o beijo que ontem não dei
E ouça o conto contar a história que não vingou.
Hoje, permitirei que toque meus sonhos
E ouça a música cantar a estrofe que perdoou.
Hoje, permitirei que espie o medo que eu não contei
E veja a lua luar o tempo que retornou.
Hoje, permitirei que deite em meu colo
E deixe o sonho sonhar a volta que imaginou.
Hoje, permitirei que tenha o abraço que não entreguei
E seja o mar a marejar os olhos que já amou.
Viva
Viva
Corra o mesmo risco de quem, descalço e infantil, inquieto e febril, ama.
Faça o mesmo riso de quem, entregue e servil, completo e gentil, ama.
Viva a lida fácil de quem, disposto a amar, incerto e feliz, ama.
Como alguém despido de temor e com ardor, ama.
Como além do viço do calor e com fervor, ama.
Com a vida toda em vigor, ama.
Apenas por ser vida
E pelo amor, ama.
Outono
Empalideceu o mundo.
E os galhos entornados no escuro do outono se desfizeram na esperança de brotar.
Desobedeceu o curso.
E as folhas vermelhadas no susto do abandono se detiveram na lembrança de ficar.
Restabeleceu o rumo.
E os prados ornados no lustro do entorno se transpuseram na bonança de mudar.
Ternura
Singela ternura
Em mim refugia
A doce brandura
Perene alegria
Singela ternura
Em mim alivia
Incerta ventura
Serena avaria
Singela ternura
Em mim se aninha
A fonte de cura
Solene folia.
Daniel na cova dos leões, de Renato Russo
Ele é assim: intenso, verdadeiro, visceral. Renato, em uma das poesias que me permitiu reconhecer a força da minha correnteza sem direção.

Aquele gosto amargo do teu corpo
Ficou na minha boca por mais tempo:
De amargo e então salgado ficou doce,
Assim que o teu cheiro forte e lento
Fez casa nos meus braços e ainda leve
E forte e cego e tenso fez saber
Que ainda era muito e muito pouco.
Faço nosso o meu segredo mais sincero
E desafio o instinto dissonante.
A insegurança não me ataca quando erro
E o teu momento passa a ser o meu instante.
E o teu medo de ter medo de ter medo
Não faz da minha força confusão:
Teu corpo é o meu espelho e em ti navego
E sei que tua correnteza não tem direção.
Mas, tão certo quanto o erro de ser barco
A motor e insistir em usar os remos,
É o mal que a água faz, quando se afoga
E o salva-vidas não está lá porque não vemos.
RealMente
Mortificamente desci aos céus
Quando percebi a iniquidade
Das nossas mentiras ditas meninas
Para ingenuar o percebido
Palidamente me fiz na verdade
Atormentada pelo poder da descoberta
De que as mentiras, mesmo torpes em silêncio
Sustentam vidas ocas
Na luz branca do desprestígio.
