As coisas têm peso,
massa, volume, tamanho,
tempo, forma, cor,
posição, textura, duração,
densidade, cheiro,
valor, consistência,
profundidade, contorno,
temperatura, função,
aparência, preço,
destino, idade, sentido.
As coisas não têm paz.
Poesia
Aninha e suas pedras, de Cora Coralina
Não te deixes destruir…
Ajuntando novas pedras
e construindo novos poemas.
Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.
Faz de tua vida mesquinha
um poema.
E viverás no coração dos jovens
e na memória das gerações que hão de vir.
Esta fonte é para uso de todos os sedentos.
Toma a tua parte.
Vem a estas páginas
e não entraves seu uso
aos que têm sede.
Plantação
Para dias cinzentos, recomendo plantar cores.

Das flores que eu colhi
Há dias em que é preciso viver
Das flores que se colhe
Das cores que pingam
E fazem folhas no papel
Das flores que eu colhi
Foi mais sutil me ver brotar.

O jardim
Às vezes, é preciso fazer um jardim lá fora para vê-lo nascer cá dentro.

Fumacinha
Morrer podia ser uma mudança lenta Nada de drama ou de dor Nada de lágrima. O vento, ao tocar o corpo levaria dele Um tanto do suor e do calor Um fio, um cheiro, um brilho. A cada sopro, menos do corpo um pouco A capa passagem pela carne Uma subtração de minúsculos pedaços de existência Uma viagem de cortes de si por aí A derradeira desconstrução sutil e flutuante. E assim, até virar fumacinha Uma ex-pessoa Seria eu mais feliz.
Triste, triste, triste
Triste, triste, triste
É possível mais tristeza
Num dia finito?
Eu só queria andar
De mãos dadas pela vida
Sorrir
Abrir meu peito
E seguir
Me lançar na vida
Alegre
Celebrar a incerteza
E de mãos dadas
Seguir sem medo
Botões sinápticos florescem

Em pedaços
São pedaços Espalhados Inteirezas que foram Cortadas Prazer picado Quase intocado E o grito Que não se houve Na boca velada.

Bem querer
Fique bem
Sempre bem
O seu bem
É um bem muito importante
Para um tanto
De alguém.
