Lançamento do livro RETALHOS DE ALMA INTEIRA

 

IMG_0725

 

Este é “Retalhos de alma inteira”. Meu primeiro livro de poesias e contos poéticos, escritos ao longo de quase vinte anos. A obra é o resultado do meu autorreconhecimento como escritora, como poetisa. É a imagem do que eu vi no espelho empunhado por pessoas insistentes que me amam.
No livro, há poesias do Verbogeren e há muitas outras inéditas, além de treze reproduções de aquarelas do meu talentoso amigo André Marques, quase todas criadas especialmente para as poesias.

O livro está disponível para compra com a autora e nas seguintes livrarias:

– Livraria Cultura:

https://www.livrariacultura.com.br/p/livros/literatura-nacional/contos-e-cronicas/retalhos-de-alma-inteira-46696802

– Livraria Asabeça:

http://www.asabeca.com.br/detalhes.php?sid=12092017162845&prod=8227&friurl=_-RETALHOS-DE-ALMA-INTEIRA–Grace-Cristina-Ferreira-Donati-_&kb=239#.Wbg1g9Fv-hA

Em breve, mais fotos e um vídeo de declamação e performance cênica de Joana Dias Calepso, realizada durante o lançamento!!

 

Espaços de encontros de alternativos sonhos…

Entre os dias 22 e 25 de agosto foi realizado o VII Congresso Brasileiro de Comunicação Alternativa ISAAC-Brasil. No período de organização, tive a grata satisfação de contribuir com algumas poesias para a apresentação artística que abriria o evento, na temática “Trilhando juntos a comunicação alternativa”. O evento, que ocorre bianualmente, se dedica a discutir práticas e pesquisas na área da comunicação suplementar e/ou alternativa, que busca garantir o acesso à participação e à comunicação a indivíduos desprovidos parcial ou totalmente da fala.

Na sessão de abertura do evento, fui presenteada com esta delicadeza musicada pelo Grupo de Ópera Canto Dell’Arte, de Natal, Rio Grande do Norte.

Consegui gravar um trecho, que divido aqui com vocês. Seguem, também, as poesias, cedidas à ISAAC-Brasil.

 

 

“Há um gesto que diz
Um sorriso que indica
Uma voz que aponta
Um olhar que revela
Uma imagem que brilha”

“Há trilhas conjuntas
De alternativas formas

Há traços no gesto
De imaginadas palavras

Há caminhos no verbo
De tangíveis jeitos

Há espaços de encontros
De alternativos sonhos.”

Máscaras de oxigênio

IMG_0720

“Em caso de despressurização, máscaras de oxigênio cairão automaticamente à sua frente. Coloque-a primeiro em você e somente depois ajude as pessoas que precisarem.” Este é um trecho das orientações sobre medidas de segurança que são enunciadas nos vôos do mundo todo. Eu já a ouvi muitas vezes, considero que já compreendo muito bem a recomendação mas, medrosa que sou, ainda dedico toda a minha atenção cada vez que um membro da tripulação se põe a repeti-la aos passageiros. “Vai que desta vez eu preciso…”, é o que eu sempre penso.
Viajando sozinha e recoberta por reflexões que me foram provocadas nos últimos dias, ouvi hoje a orientação de um jeito novo, como se eu nunca a tivesse escutado: “…primeiro você, depois os outros…” foi o que a comissária falou. Na verdade, tive a sensação de que a mocinha da animação do vídeo de segurança olhou e piscou pra mim. Quase ouvi meu nome após a pausa reticente do final da frase. Acho que ouvi!
Fantasiei que a mensagem continua sendo repetida em cada vôo porque não tenho feito certo e por isso o universo resolveu insistir comigo. Na maioria dos dias, fico sem máscara porque uso todas as que eu encontro para colocá-las em quem está perto de mim e, claro, como resultado óbvio, termino o dia sem ar. Não sou a única… é um pecado habitual de muitos que se repete, se repete… até se tornar parte de quem se é. Pois é… a mocinha do vídeo e a voz austera da comissária me deram o que pensar.
De onde nasce verdadeiramente este comportamento de auto-flagelação ou de negligência de si próprio que insistimos em manter? Talvez, a capa acetinada de herói nos tenha sido vendida sem manual qualquer. Talvez, tenhamos sido convencidos de que bom mesmo é quem se doa integralmente e se esquece. Essas mensagens são propagadas aos quatro ventos numa interpretação rasa dos ideais de grandes homens. Abandonar-se não é lógico, não é inteligente e produz uma série de efeitos danosos em cascata. Relegar-se ao segundo plano é mesmo desmerecer a própria importância como instrumento do que quer que seja… é deixar de zelar por alguém que pode ser um instrumento de paz junto a outro alguém. Para se priorizar o outro, é preciso ter condições de entregar o que se pretende ou o necessário no momento do auxílio. E ninguém é capaz disso ao perder-se de si mesmo.
Acho que hoje, os esforços de muitas pessoas queridas que tentam me ensinar a cuidar de mim mesma tiveram uma vitória. Cheque você também em que condições está a sua máscara. E lembre-se: preserve sua vida antes para que tenha o que oferecer ao seu próximo. Cuide-se!

Sobre “O lar da Sra. Peregrine para crianças peculiares”

img_0718.jpgO longa lançado em setembro de 2016 e que foi disponibilizado recentemente na TV paga brasileira tem a assinatura, a digital e a alma de Tim Burton. A produção tem por base a primeira história de uma trilogia escrita por Ransom Riggs, mas a narrativa foi vestida por Tim Burton com o número e o estilo perfeitos para impressionar e impulsionar algumas reflexões.
A descrição apresentada em diversos sites de crítica, aponta os peculiares como indivíduos com traços sobrenaturais que eram respeitados no passado e são atualmente perseguidos por “peculiares do mal”.
A Sra. Peregrine, uma peculiar da espécie Ymbrine capaz de se transformar em um falcão-peregrino e manipular o tempo, tem a responsabilidade de cuidar de um grupo de crianças peculiares que vivem segregadas por não se ajustarem aos limites demarcados pela sociedade. A este ponto devo dizer que estabeleci uma relação entre as crianças peculiares da história com as crianças com deficiência dos meus dias reais ainda durante a leitura do título, meses atrás enquanto via sugestões de filmes numa revista qualquer. Finalmente, assisti o filme por estes dias e finalmente conheci os adoráveis seres especiais que dão vida à história.
Ao meu ver avistar semelhanças entre crianças peculiares e crianças com deficiência não demanda uma ginástica mental muito vigorosa. E é sobre isso que eu pretendo falar. Antes, porém, é necessário fazer um rabisco dos personagens.
No filme, Emma é uma adolescente mais leve que o ar, capaz de dominá-lo como ninguém. Ela precisa usar sapatos de chumbo ou uma cinta que a prenda quando está sentada para evitar que flutue. Vivem no orfanato também Fiona, que tem domínio sobre o desenvolvimento de qualquer vegetal e Horace, capaz de projetar seus sonhos através de um monóculo. Enoch é capaz de ressuscitar indivíduos mortos e dar vida a objetos inanimados e Millard tem o dom da invisibilidade. Ainda temos uma menina pequena, mas capaz de uma força descomunal, outra garotinha doce cheia de cachinhos e que tem uma boca enorme na parte detrás da cabeça e uma adolescente com o poder de gerar fogo.
Há ainda outros peculiares, cada qual com um dom que extrapola limites muito elevados do que consideramos sobrenatural.
O que ocorre, como ponto crucial no início da trama, é que o avô de Jake – o adolescente protagonista – lhe orienta, segundos antes de morrer sob circunstâncias bastante estranhas, a procurar por uma ilha no País de Gales onde tudo lhe será revelado. É assim que Jake chega até o lar das crianças peculiares e encontra uma sensação de identidade que logo se torna mais clara e palpável.
Com os minutos de filme se sucedendo, fui levada a evocar muitas conexões entre o conceito de estigma desenvolvido por Goffman, minhas percepções sobre desvio, diferença, habilidade e deficiência e os takes de cenas terapêuticas que vivo junto a pessoas com autismo e outras diferenças. Eu vi – vi mesmo – no filme que foi se desenvolvendo no meu imaginário, todos os meninos e as meninas, os homens e as mulheres com superpoderes que eu conheço. Ocorreu que não ficou ninguém que eu conheço de fora. A ideia de que somos todos peculiares, com dons e diferenças não me deixou dormir porque o filme que começou a rodar em mim não chegava aos créditos. Eu revivi uma enormidade de situações em que assisti pessoas terem mais força do que elas demonstravam ter, assim com ocorre com a Bronwyn. Eu conheço garotinhos que quase flutuam na minha frente (desconfio que flutuem quando ninguém está vendo!), assim como a Emma é capaz de fazer. Há quem não se faça notar, sendo invisível, e por isso mesmo é capaz de enxergar coisas que ninguém mais vê. Minha tia, que não possui destreza motora, faz vasos maravilhosos onde as flores crescem e florescem. Eu nunca consegui fazer igual porque esta não é minha peculiaridade. Nunca conheci alguém que não tivesse algo deficiente em si. Também nunca conheci alguém que não tivesse um dom. Por isso, – com o perdão do clichê – tenho pensado há bastante tempo que a diferença é o que nos iguala. O filme rotulou de peculiaridade talvez o que seja a própria condição humana.
Será que reagimos intensamente diante das diferenças porque temos medo de que as nossas próprias diferenças bem escondidas se revelem? O que marca, de fato, a distinção social entre peculiaridade e deficiência? Se você decidir jogar luz à diferença que representa uma vantagem, então teremos um peculiar, por mais esquisita, bizarra e atípica que a diferença seja. Contudo, se decidir iluminar a incapacidade, a inabilidade, o déficit, teremos uma pessoa com deficiência. Parece sim ser uma questão de escolha, do grau de abertura do foco de luz, do que se decide enxergar, inclusive em si memo. No lar da Sra. Peregrine, cada um sabe fazer algo muito bem e cada um não sabe ou não consegue realizar várias coisas também. No lar, a norma é ser extraordinário, o traço comum é o da atipia. A diferença de cada um é extravagante, determina vantagem em certas circunstâncias e desvantagem em muitas outras. O traço forte da identidade de Emma é o poder que ela tem de direcionar o ar. Mas, por ser assim, ela precisa ser segurada por colegas, amarrada em certas situações, e usa sapatos de chumbo para não sair voando por aí. Honestamente, suas órteses – ops! – seus sapatos não combinam com o vestido rodado, de tecido delicado e fluido. Mas ninguém liga pra isso. Porque eles são necessários sendo ela quem é. Olive precisa usar luvas longas para evitar queimar o que ela toca, mas não vi ninguém a tratar mal por isso. Naquela sociedade, criada numa fenda do tempo, há tolerância, aceitação, consciência dos limites bem estabelecidos para a convivência pacífica e harmoniosa. Certo. O notável professor Sadao Omote, que me instigou a refletir sobre estas questões anos atrás, diria que algo assim se configura numa utopia e me recomendaria reler Goffman e Huxley. Realmente, se os peculiares avançarem para os espaços onde vivem não peculiares teremos um novo filme, uma nova ordem, de uma complexidade sem tamanho… a mesma que nos envolve nos dias atuais e que submete as pessoas com quaisquer diferenças mais marcantes a uma odisseia diária, a vida como tarefa hercúlea. E qual existência não é, afinal?
Em um momento dramático, quando o filme já rodou o suficiente para deixar a cabeça quente de tanto pensar, os peculiares deixam sua fenda e se misturam aos típicos porque precisam destruir o que os ameaça. Depois da batalha, sem líder ou Ymbrine para lhes proteger, a conclusão é de que não precisam mais de proteção porque Jake os ensinou a ter coragem. As opções se põem assim, então, aos peculiares: viver segregados e protegidos ou misturados em exercício de coragem e enfrentamento. Agora, me diga… o que você tem escolhido pra você? E mais… qual escolha tem estimulado sua criança a fazer? Enquanto você pensa sobre isso também, preciso dizer que outras questões permanecem me afligindo, como por exemplo…. se as Ymbrines têm a função de zelar por seus peculiares, quem mesmo cuida das Ymbrines?
Espero que você assista o filme e que cuide da sua peculiaridade. Se você não se reconhece um peculiar… torço para que alguém lhe dê logo um espelho.