Sobre “O lar da Sra. Peregrine para crianças peculiares”

img_0718.jpgO longa lançado em setembro de 2016 e que foi disponibilizado recentemente na TV paga brasileira tem a assinatura, a digital e a alma de Tim Burton. A produção tem por base a primeira história de uma trilogia escrita por Ransom Riggs, mas a narrativa foi vestida por Tim Burton com o número e o estilo perfeitos para impressionar e impulsionar algumas reflexões.
A descrição apresentada em diversos sites de crítica, aponta os peculiares como indivíduos com traços sobrenaturais que eram respeitados no passado e são atualmente perseguidos por “peculiares do mal”.
A Sra. Peregrine, uma peculiar da espécie Ymbrine capaz de se transformar em um falcão-peregrino e manipular o tempo, tem a responsabilidade de cuidar de um grupo de crianças peculiares que vivem segregadas por não se ajustarem aos limites demarcados pela sociedade. A este ponto devo dizer que estabeleci uma relação entre as crianças peculiares da história com as crianças com deficiência dos meus dias reais ainda durante a leitura do título, meses atrás enquanto via sugestões de filmes numa revista qualquer. Finalmente, assisti o filme por estes dias e finalmente conheci os adoráveis seres especiais que dão vida à história.
Ao meu ver avistar semelhanças entre crianças peculiares e crianças com deficiência não demanda uma ginástica mental muito vigorosa. E é sobre isso que eu pretendo falar. Antes, porém, é necessário fazer um rabisco dos personagens.
No filme, Emma é uma adolescente mais leve que o ar, capaz de dominá-lo como ninguém. Ela precisa usar sapatos de chumbo ou uma cinta que a prenda quando está sentada para evitar que flutue. Vivem no orfanato também Fiona, que tem domínio sobre o desenvolvimento de qualquer vegetal e Horace, capaz de projetar seus sonhos através de um monóculo. Enoch é capaz de ressuscitar indivíduos mortos e dar vida a objetos inanimados e Millard tem o dom da invisibilidade. Ainda temos uma menina pequena, mas capaz de uma força descomunal, outra garotinha doce cheia de cachinhos e que tem uma boca enorme na parte detrás da cabeça e uma adolescente com o poder de gerar fogo.
Há ainda outros peculiares, cada qual com um dom que extrapola limites muito elevados do que consideramos sobrenatural.
O que ocorre, como ponto crucial no início da trama, é que o avô de Jake – o adolescente protagonista – lhe orienta, segundos antes de morrer sob circunstâncias bastante estranhas, a procurar por uma ilha no País de Gales onde tudo lhe será revelado. É assim que Jake chega até o lar das crianças peculiares e encontra uma sensação de identidade que logo se torna mais clara e palpável.
Com os minutos de filme se sucedendo, fui levada a evocar muitas conexões entre o conceito de estigma desenvolvido por Goffman, minhas percepções sobre desvio, diferença, habilidade e deficiência e os takes de cenas terapêuticas que vivo junto a pessoas com autismo e outras diferenças. Eu vi – vi mesmo – no filme que foi se desenvolvendo no meu imaginário, todos os meninos e as meninas, os homens e as mulheres com superpoderes que eu conheço. Ocorreu que não ficou ninguém que eu conheço de fora. A ideia de que somos todos peculiares, com dons e diferenças não me deixou dormir porque o filme que começou a rodar em mim não chegava aos créditos. Eu revivi uma enormidade de situações em que assisti pessoas terem mais força do que elas demonstravam ter, assim com ocorre com a Bronwyn. Eu conheço garotinhos que quase flutuam na minha frente (desconfio que flutuem quando ninguém está vendo!), assim como a Emma é capaz de fazer. Há quem não se faça notar, sendo invisível, e por isso mesmo é capaz de enxergar coisas que ninguém mais vê. Minha tia, que não possui destreza motora, faz vasos maravilhosos onde as flores crescem e florescem. Eu nunca consegui fazer igual porque esta não é minha peculiaridade. Nunca conheci alguém que não tivesse algo deficiente em si. Também nunca conheci alguém que não tivesse um dom. Por isso, – com o perdão do clichê – tenho pensado há bastante tempo que a diferença é o que nos iguala. O filme rotulou de peculiaridade talvez o que seja a própria condição humana.
Será que reagimos intensamente diante das diferenças porque temos medo de que as nossas próprias diferenças bem escondidas se revelem? O que marca, de fato, a distinção social entre peculiaridade e deficiência? Se você decidir jogar luz à diferença que representa uma vantagem, então teremos um peculiar, por mais esquisita, bizarra e atípica que a diferença seja. Contudo, se decidir iluminar a incapacidade, a inabilidade, o déficit, teremos uma pessoa com deficiência. Parece sim ser uma questão de escolha, do grau de abertura do foco de luz, do que se decide enxergar, inclusive em si memo. No lar da Sra. Peregrine, cada um sabe fazer algo muito bem e cada um não sabe ou não consegue realizar várias coisas também. No lar, a norma é ser extraordinário, o traço comum é o da atipia. A diferença de cada um é extravagante, determina vantagem em certas circunstâncias e desvantagem em muitas outras. O traço forte da identidade de Emma é o poder que ela tem de direcionar o ar. Mas, por ser assim, ela precisa ser segurada por colegas, amarrada em certas situações, e usa sapatos de chumbo para não sair voando por aí. Honestamente, suas órteses – ops! – seus sapatos não combinam com o vestido rodado, de tecido delicado e fluido. Mas ninguém liga pra isso. Porque eles são necessários sendo ela quem é. Olive precisa usar luvas longas para evitar queimar o que ela toca, mas não vi ninguém a tratar mal por isso. Naquela sociedade, criada numa fenda do tempo, há tolerância, aceitação, consciência dos limites bem estabelecidos para a convivência pacífica e harmoniosa. Certo. O notável professor Sadao Omote, que me instigou a refletir sobre estas questões anos atrás, diria que algo assim se configura numa utopia e me recomendaria reler Goffman e Huxley. Realmente, se os peculiares avançarem para os espaços onde vivem não peculiares teremos um novo filme, uma nova ordem, de uma complexidade sem tamanho… a mesma que nos envolve nos dias atuais e que submete as pessoas com quaisquer diferenças mais marcantes a uma odisseia diária, a vida como tarefa hercúlea. E qual existência não é, afinal?
Em um momento dramático, quando o filme já rodou o suficiente para deixar a cabeça quente de tanto pensar, os peculiares deixam sua fenda e se misturam aos típicos porque precisam destruir o que os ameaça. Depois da batalha, sem líder ou Ymbrine para lhes proteger, a conclusão é de que não precisam mais de proteção porque Jake os ensinou a ter coragem. As opções se põem assim, então, aos peculiares: viver segregados e protegidos ou misturados em exercício de coragem e enfrentamento. Agora, me diga… o que você tem escolhido pra você? E mais… qual escolha tem estimulado sua criança a fazer? Enquanto você pensa sobre isso também, preciso dizer que outras questões permanecem me afligindo, como por exemplo…. se as Ymbrines têm a função de zelar por seus peculiares, quem mesmo cuida das Ymbrines?
Espero que você assista o filme e que cuide da sua peculiaridade. Se você não se reconhece um peculiar… torço para que alguém lhe dê logo um espelho.

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