E se as tristezas forem mais do que as levezas…?

Não há dia que se faça somente de choro, ou só de riso, só de dentes aparecendo à toa, sabe? Ou só de coração batendo apertado e respiração curta, miúda e seca… Não há dia construído só disso ou só daquilo. Cada dia tem em si muitos dias que talvez não sejam… e outros tantos que certamente serão. Um dia é uma entidade bipolar por natureza. Tem dia que é pura noite, dia que nem se sente a noite, dia que se encomprida e pula a noite até ser dia de novo. Há dias em que levezas, adornadas de muitas e sutis belezas, fazem sorrir em segredo a alma e dançar a música que cadencia nossa voz. Mas tem dias… outros dias, em que tristezas são mais que as levezas. Daí, é de se pegar o dia claro que poderia ser e fazê-lo livre, viver.

Voa

Ao meu amigo André Marques

Voa, pássaro, voa largo
Voa sem medo de voar
Voa sem pressa de chegar
Onde o pouso te espera e te recompensa

Voa, pássaro, toma o céu
Fisga-te da inércia das paragens
Emula-te pela generosa viagem
Que te compraz e te compadece

Voa, pássaro, voa largo
Voa sem medo de voar
Mergulha grande até fugidio, alcançar
Asa amiga, galho farto, azul de mar.

Obra de André Marques, lápis sobre papel de pass-par-tout, 2019