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Ordeno-te a nascer só.
E só, caminharás o teu caminho
Sozinha, enxugarás a lágrima que cair
Sozinha, costurarás a ferida que se abrir.

Ordeno-te a viver só.
E só, controlarás redemoinhos
Sozinha, concederás o alívio a fruir
Sozinha, sorrirás o riso que insistir.

Ordeno-te a morrer só.
E só, retornarás ao teu ninho
Sozinha, entregarás a alma a servir
Sozinha, findarás a angústia a brandir.

Sobre a menina que me deu a vida

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Hoje cedo, quando acordei e fui ao encontro da minha mãe para entregar meu abraço caloroso e um presente pelo Dia das Mães, me deparei com uma menina. Ela estava de pé, em cima da mesa da nossa área de lazer (pasmem!), retirando lagartas de uma samambaia. Não tive dúvidas e, abrindo um largo sorriso, concluí: é mesmo a minha mãe!
Com idade suficiente para dedicar-se a tarefas de cadeira, ela ainda sobe no telhado para retirar folhas secas e galhos, sobe nas mesas para cuidar das plantas e entra comigo no porta-malas do meu carro fazendo graça enquanto me ajuda na limpeza. É uma menina!
Minha mãe é aquela que passou a vida doando todo o tempo aos seus filhos, e amparando amigos e parentes nos momentos difíceis quando precisava, ela mesma, ser acolhida e cuidada.
Ela esquece de si mesma com muita naturalidade, como se não fosse importante e tenta me convencer de que eu sou sua luz.
Ela ignora suas necessidades mais básicas e ainda se sente culpada por comer um pastel na rua, quando eu não estou com ela para comer também.
Assim é a minha mãe!
Depois de receber seu presente hoje, me deu uma linda orquídea… agradecendo por eu ser sua filha.
Mas não se enganem: a doçura também pode azedar ao ritmo dos segundos (!!!) por coisa pouca e sem que ninguém espere. Nestes momentos, eu sou lembrada de que a Genética existe de verdade!!!
Foi esta menina que me deu a vida. Sou vista, cuidada, amada e amparada por ela. Ela ainda me chama de princesa com sua fronte no meu peito e, junto com meu pai, acredita que serei para sempre sua criança. Talvez seja isso mesmo… porque filha de menina, menina é!

Permita-se a dor

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Há tempos tenho refletido sobre a cultura da felicidade que percorre nossas ruas, põe em nossas gargantas uma válvula que impede o extravasamento da dor e em nossa face, o brilho opaco do sorriso planejado. O resultado é um caos interno que nos desorganiza e irrompe em males perversos.
Já é possível classificar o comportamento como um ato reflexo, habilidade instalada precocemente e repetida, repetida e generalizada, consistentemente automatizada. Há um acordo tácito e amargo assumido entre quem sofre a dor e quem a assiste gritar. De um lado, a pessoa se lança a uma exagerada busca de controle e de outro, todo o entorno se mobiliza para que este plano tenha sucesso, e que, sendo assim, a dor desapareça, rápida e silenciosamente. O incoerente neste contexto é que dores não desaparecem assim… ao sabor do gosto de alguém, ou para se manter intacto o cenário da cozinha iluminada com cheiro de pão quente e margarina. É da natureza da dor doer. É um benefício biológico sentir a dor, expressá-la e buscar amparo. Dores não desaparecem assim… A criança que corta o pé sente dor. O menino que cai da bicicleta sente dor. A adolescente magoada pela amiga sente dor. O velho que perde sua esposa sente dor. Dói nascer. Dói crescer. Dói perder e… talvez doa morrer. A cada um cabe a sua dor e a todos nós cabe o respeito, o abraço longo, o peito voluntário, o colo ao lamento. Não cabe a quem assiste a dor sufocá-la, calar o grito ou estancar sua vida. Não nos cabe exigir a força que se esvai ou subestimar a ferida. Porque a cada um de nós cabe um tanto de dor, e a todos nós cabe, irrestritamente, o amor.