Passou por aqui, eu senti
O abstrato
Intocado
Sutil.
…
A mudez de agora é de quase tocar
E ensurdecer
O meu silêncio.
Poesia
Alimentar é materno
Cabe ao verbo a ação. A velocidade à luz. A medida à razão. É assim… a cada coisa cabe ser o que se é. A cada um, a dor e a delícia…
Cabe à criança brincar e se lambuzar de vida. Sorver das mães que lhe adotam o leite e a melhor energia. É para além da nutrição do corpo que uma mãe é mãe para o seu filho. É para preenchê-lo deste sopro, desta chama infinita que é o amor.

Virgem do Leite, 1500-1525, Mestre dos Túmulos Reais – Mosteiro do Lorvão. Museu Nacional de Machado de Castro, Coimbra – Portugal. Foto de Grace Donati
Sentir em curtas XVI
E mesmo agora, que o limite me aflora
E não mais há você em volta
Eu continuo a farsa dos dias bem vestidos
Sorrindo ao sorriso de qualquer outro inimigo.
Um pedaço de calma
Você tem de mim um pedaço de alma
O ponto que reluz
Livre e que vaga solto
E sabe que basta existir
Nada mais
Você tem de mim um pedaço
Da luz
Que reluz do meu riso
Sem juízo
Azul
Você tem de mim um pedaço da calma
De me bastar
E de me ganhar
Pra mim inteira
Sossegar.
Súmula
A vontade que me toma hoje é de transfigurar-me numa súmula de dias bem vividos, e guardar-me líquida, em uma pequena garrafa de ginjinha.

Foto de Grace Ferreira-Donati. Urbanidade em um muro do Bairro Alto de Lisboa, Portugal.
Possibilidades

Foto: Grace Cristina Ferreira-Donati Local: Quinta Real Caxias, Caxias, Portugal Monumental e singular cascata, com edificações ao redor repletas de referências românticas e bucólicas. Encontra-se classificada como imóvel de interesse público (1953).
“Há quem refugue ante portas cerradas, há quem se inquiete a imaginar a realidade que se põe ao outro lado, há quem só olha a porta e se alegra, por ser a sua existência, ela só, toda a promessa de possibilidades”.
Sem cabeça alguma
“Para que cabeça, se tens asas para voar?”

Anjo, sec XII, Sé do Porto Obra exposta no Museu Nacional Machado de Castro, Coimbra, Portugal. Fotografia de Grace Donati
Coimbrianas

Foto de Grace Ferreira-Donati, 2018. Coimbra, Alta.
Estão aos pés agulhadas
Endurecidas, à toda vista resignadas
Enegrecidas, pelo vento afinadas
As árvores todas do Mundo Velho à baila.
Entorpecem-me aos cantos surgindo em salvas
Em um esforço de ladeira a mais, me causam
Humilde encanto, sublime espanto
As árvores todas guarnecendo a flor em pausa.
Todos os dias são meus
Pelo Dia Internacional da Mulher… validando cada palavra, novamente.
Como mulher que sou, permito-me antecipar o que a sociedade atribuiu como meu dia e me por a dialogar com todas as demais da minha espécie.
Querida,
Permita-se a franqueza de ser quem verdadeiramente é. Permita-se a autenticidade, a verdade dos seus cabelos bagunçados e da alma entrelaçada de dor. Permita-se colocar-se confortavelmente no mundo. Permita-se a risada escandalosamente solta. Permita-se evocar a insensatez e proclamar seu desejo aos ventos. Permita-se enterrar passados sombrios e experimentar novos rios, vidas a fio. Permita-se a singeleza e a delicadeza. Permita-se o grito dos limites, a solidez do basta-se. Permita-se tocar a vida em erros, defender seus acertos e erguer o queixo, sem medo. Permita-se a descrença e a fé ingênua, o desatino do momento, criar e manter segredos. Permita-se a queda. Permita paixão à própria solidão. Permita o perdão ao não. Permita voz a cada flecha atroz. Permita-se negar e fazer parar…
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Urgência
Se eu soubesse que não te veria mais
Eu teria esgotado minha voz dizendo que te amo
Teria feito de cada bobagem dita uma poesia de beleza infinita
Para acalentar agora esta dor no meu peito sem limite.
Eu teria refeito minha fé e criado coragem
Para conseguir teu perdão à minha ausência
Teria chorado com você a lágrima que eu sempre escondi
Teria quebrado o relógio das minhas urgências.
Ah… se eu soubesse que não te veria mais
Eu teria pacientemente ouvido o que nunca se deixava dizer
Teria estado ao teu lado e com você, sofrido
Toda a massa de dor dos dias penosos do fim.
Se eu soubesse que não te teria mais
E que jamais teu sorriso me poria a sorrir
Eu teria clamado mais por sua vida
Por uma nova sina, outro amanhã de menina.