Resta-me pouco
Do odor da verdade
Resta-me a insanidade.
Vive a idade
Desperdício
Resquício de vaidade.
Resta-me pouco
De dignidade
Resta-me a nulidade.
Sobra metades
Vícios
Sacrifício de vontades.
Resta-me pouco
Do odor da verdade
Resta-me a insanidade.
Vive a idade
Desperdício
Resquício de vaidade.
Resta-me pouco
De dignidade
Resta-me a nulidade.
Sobra metades
Vícios
Sacrifício de vontades.
Mais do sempre o mesmo
Novamente se repete
Outra vez o antes
De novo retrocede.
Mais do agora de ontem
Novamente o passado
Outra vez o antigo
De novo o atraso.
Entre os dias 22 e 25 de agosto foi realizado o VII Congresso Brasileiro de Comunicação Alternativa ISAAC-Brasil. No período de organização, tive a grata satisfação de contribuir com algumas poesias para a apresentação artística que abriria o evento, na temática “Trilhando juntos a comunicação alternativa”. O evento, que ocorre bianualmente, se dedica a discutir práticas e pesquisas na área da comunicação suplementar e/ou alternativa, que busca garantir o acesso à participação e à comunicação a indivíduos desprovidos parcial ou totalmente da fala.
Na sessão de abertura do evento, fui presenteada com esta delicadeza musicada pelo Grupo de Ópera Canto Dell’Arte, de Natal, Rio Grande do Norte.
Consegui gravar um trecho, que divido aqui com vocês. Seguem, também, as poesias, cedidas à ISAAC-Brasil.
“Há um gesto que diz
Um sorriso que indica
Uma voz que aponta
Um olhar que revela
Uma imagem que brilha”
“Há trilhas conjuntas
De alternativas formas
Há traços no gesto
De imaginadas palavras
Há caminhos no verbo
De tangíveis jeitos
Há espaços de encontros
De alternativos sonhos.”
I had a dream about your lips
Touching my skin
Announcing some secrets
And planning tricks.
I had a dream about your eyes
Scanning my soul
Discovering some lies
And finding awards.
Daí você vem
E porque vem
Minha fuga
Porque respira
Me ajuda
Porque me olha
Me cura.
Daí você é
E porque é
Minha pluma
Porque existe
Me cuida
Porque não desiste
Sou sua.

Elis Regina, Belchior, Vinicius, Tom, Caetano… sempre conversaram comigo… quero dizer que sempre me dispus a uma conversa aberta e franca com eles, ainda que eu nunca tenha tido a pretensão de compreender intimamente suas mensagens. Sei que mergulham em águas profundas e não me engano achando que posso, verdadeiramente, acompanhá-los.
Essa letra de Belchior tem, dia ou outro, tomado minhas pequenas viagens daqui para lá, quando – em vez de apenas dirigir! – divago, navego e me perco (ou me encontro) pondo as ideias em ordem. Será para sempre uma canção da moda pra mim. Um hino que nos lembra quem somos de verdade e onde estamos… onde permanecemos, imóveis, quietos.
Não quero lhe falar meu grande amor
De coisas que aprendi nos discos
Quero lhe contar como eu vivi
E tudo o que aconteceu comigo
Viver é melhor que sonhar
E eu sei que o amor é uma coisa boa
Mas também sei
Que qualquer canto é menor do que a vida
De qualquer pessoa
Por isso cuidado meu bem
Há perigo na esquina
Eles venceram e o sinal
Está fechado pra nós
Que somos jovens…
Para abraçar seu irmão
E beijar sua menina, na rua
É que se fez o seu braço,
O seu lábio e a sua voz…
Você me pergunta pela minha paixão
Digo que estou encantada como uma nova invenção
Eu vou ficar nesta cidade não vou voltar pro sertão
Pois vejo vir vindo no vento cheiro da nova estação
Eu sinto tudo na ferida viva do meu coração…
Já faz tempo eu vi você na rua
Cabelo ao vento, gente jovem reunida
Na parede da memória esta lembrança
É o quadro que dói mais…
Minha dor é perceber
Que apesar de termos feito tudo o que fizemos
Ainda somos os mesmos e vivemos
Ainda somos os mesmos e vivemos
Como os nossos pais…
Nossos ídolos ainda são os mesmos
E as aparências não me enganam não
Você diz que depois deles não apareceu mais ninguém
Você pode até dizer que eu tô por fora
Ou então que eu tô inventando…
Mas é você que ama o passado e que não vê
É você que ama o passado e que não vê
Que o novo sempre vem…
Hoje eu sei que quem me deu a ideia
De uma nova consciência e juventude
Tá em casa, guardado por Deus
Contando vil metal…
Minha dor é perceber que apesar de termos
Feito tudo, tudo, tudo, tudo o que fizemos
Nós ainda somos os mesmos e vivemos
Ainda somos os mesmos e vivemos
Ainda somos os mesmos e vivemos
Como os nossos pais…
De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.
Vinicius de Moraes, “Antologia Poética”, Editora do Autor, Rio de Janeiro, 1960, pág. 96.
Havia luz naquele espaço cinza onde vagueavam os sonhos perdidos.
Eu pude vê-la por um instante apenas. Mas eternizei seu brilho em minhas retinas, quando a esperança estava prestes a nos deixar.

É de degraus e de vagares que se esculpem os dias
Da luz e da sombra, das ondulações do caos.
É de sóis e cinzas que se remenda a rotina
Das fantasias lunáticas da normalidade.
É da rudeza no tilintar das horas
Das farsas boas e de meias verdades.
É de manias e pesares que se torneiam as vidas
Da dor e da glória, das limitações do mal.
“Voa para além deste tempo, deste agora.
Eu lhe dou minhas asas.
Você faz de mim sua casa.
E assim seremos, sem hora.”