Espaços de encontros de alternativos sonhos…

Entre os dias 22 e 25 de agosto foi realizado o VII Congresso Brasileiro de Comunicação Alternativa ISAAC-Brasil. No período de organização, tive a grata satisfação de contribuir com algumas poesias para a apresentação artística que abriria o evento, na temática “Trilhando juntos a comunicação alternativa”. O evento, que ocorre bianualmente, se dedica a discutir práticas e pesquisas na área da comunicação suplementar e/ou alternativa, que busca garantir o acesso à participação e à comunicação a indivíduos desprovidos parcial ou totalmente da fala.

Na sessão de abertura do evento, fui presenteada com esta delicadeza musicada pelo Grupo de Ópera Canto Dell’Arte, de Natal, Rio Grande do Norte.

Consegui gravar um trecho, que divido aqui com vocês. Seguem, também, as poesias, cedidas à ISAAC-Brasil.

 

 

“Há um gesto que diz
Um sorriso que indica
Uma voz que aponta
Um olhar que revela
Uma imagem que brilha”

“Há trilhas conjuntas
De alternativas formas

Há traços no gesto
De imaginadas palavras

Há caminhos no verbo
De tangíveis jeitos

Há espaços de encontros
De alternativos sonhos.”

Viver é melhor que sonhar… como nossos pais

IMG_0713

Elis Regina, Belchior, Vinicius, Tom, Caetano… sempre conversaram comigo… quero dizer que sempre me dispus a uma conversa aberta e franca com eles, ainda que eu nunca tenha tido a pretensão de compreender intimamente suas mensagens. Sei que mergulham em águas profundas e não me engano achando que posso, verdadeiramente, acompanhá-los.
Essa letra de Belchior tem, dia ou outro, tomado minhas pequenas viagens daqui para lá, quando – em vez de apenas dirigir! – divago, navego e me perco (ou me encontro) pondo as ideias em ordem. Será para sempre uma canção da moda pra mim. Um hino que nos lembra quem somos de verdade e onde estamos… onde permanecemos, imóveis, quietos.

Não quero lhe falar meu grande amor
De coisas que aprendi nos discos
Quero lhe contar como eu vivi
E tudo o que aconteceu comigo
Viver é melhor que sonhar
E eu sei que o amor é uma coisa boa
Mas também sei
Que qualquer canto é menor do que a vida
De qualquer pessoa

Por isso cuidado meu bem
Há perigo na esquina
Eles venceram e o sinal
Está fechado pra nós
Que somos jovens…

Para abraçar seu irmão
E beijar sua menina, na rua
É que se fez o seu braço,
O seu lábio e a sua voz…

Você me pergunta pela minha paixão
Digo que estou encantada como uma nova invenção
Eu vou ficar nesta cidade não vou voltar pro sertão
Pois vejo vir vindo no vento cheiro da nova estação
Eu sinto tudo na ferida viva do meu coração…

Já faz tempo eu vi você na rua
Cabelo ao vento, gente jovem reunida
Na parede da memória esta lembrança
É o quadro que dói mais…

Minha dor é perceber
Que apesar de termos feito tudo o que fizemos
Ainda somos os mesmos e vivemos
Ainda somos os mesmos e vivemos
Como os nossos pais…

Nossos ídolos ainda são os mesmos
E as aparências não me enganam não
Você diz que depois deles não apareceu mais ninguém
Você pode até dizer que eu tô por fora
Ou então que eu tô inventando…

Mas é você que ama o passado e que não vê
É você que ama o passado e que não vê
Que o novo sempre vem…

Hoje eu sei que quem me deu a ideia
De uma nova consciência e juventude
Tá em casa, guardado por Deus
Contando vil metal…

Minha dor é perceber que apesar de termos
Feito tudo, tudo, tudo, tudo o que fizemos
Nós ainda somos os mesmos e vivemos
Ainda somos os mesmos e vivemos
Ainda somos os mesmos e vivemos
Como os nossos pais…

Soneto da Fidelidade, de Vinicius de Moraes

De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

Vinicius de Moraes, “Antologia Poética”, Editora do Autor, Rio de Janeiro, 1960, pág. 96.

 

Poema declamado por Camila Morgado

Os dias

É de degraus e de vagares que se esculpem os dias
Da luz e da sombra, das ondulações do caos.
É de sóis e cinzas que se remenda a rotina
Das fantasias lunáticas da normalidade.
É da rudeza no tilintar das horas
Das farsas boas e de meias verdades.
É de manias e pesares que se torneiam as vidas
Da dor e da glória, das limitações do mal.