Há tempos tenho permitido que minha sensibilidade se expresse no limite do imponderável. Não aprendi a viver protegida de mim mesma, do que sinto, ou penso, do que ouço ou vejo, do que clamo ou almejo. Vivo assim à beira de tudo, na batida do pulso e no mergulho incessantemente profundo. Deste jeito, sou mulher, filha, amiga, aprendiz e mestre, poetisa e falha, errada, imperfeita, torta, incompleta, imprecisa, incerta. Deste jeito sou, no trabalho coadjuvante cotidiano de ajudar pessoas a se construírem na vida. Mas tal feito não é trabalho quando é missão. Não termina em oito horas se for paixão. Não acata limites porque não admite esforços em vão. Assim, em meio a esta intensidade perene, efusões de amor, alegria e satisfação são forças que arrebatam ao piscar dos olhos. Mas, às vezes, no descontrole da doação de minha vida àqueles que me buscam e que me exigem, ponho-me alvo de desmedidos ataques, desmerecidos e implacáveis. Hoje, foi um dia assim. A violência respingou em mim. Fui alvejada por quem não domina a própria arma. E doeu, como é de doer quando se oferece o peito ao tiro. Informo, no entanto, que embora não tema novas violências, se você me agredir, será a única vez.
Reflexão
Todos os dias são meus
Como mulher que sou, permito-me antecipar o que a sociedade atribuiu como meu dia e me por a dialogar com todas as demais da minha espécie.
Querida,
Permita-se a franqueza de ser quem verdadeiramente é. Permita-se a autenticidade, a verdade dos seus cabelos bagunçados e da alma entrelaçada de dor. Permita-se colocar-se confortavelmente no mundo. Permita-se a risada escandalosamente solta. Permita-se evocar a insensatez e proclamar seu desejo aos ventos. Permita-se enterrar passados sombrios e experimentar novos rios, vidas a fio. Permita-se a singeleza e a delicadeza. Permita-se o grito dos limites, a solidez do basta-se. Permita-se tocar a vida em erros, defender seus acertos e erguer o queixo, sem medo. Permita-se a descrença e a fé ingênua, o desatino do momento, criar e manter segredos. Permita-se a queda. Permita paixão à própria solidão. Permita o perdão ao não. Permita voz a cada flecha atroz. Permita-se negar e fazer parar. Permita-se estar onde quiser estar. Permita-se calar e falar. Permita-se desagradar e amparar. E quando, por algum segundo, esquecer que é em si que deve estar, permita-se parar, recolher-se e voltar.
Dia Mundial da Paz
A breve reflexão é de julho de 2015 e teve por inspiração o filme sueco-dinamarquês Haevnen, de Susanne Bier. Hoje, porém, no Dia da Confraternização Universal ou Dia Mundial da Paz, ganhou maior sentido.
O que fazem as pessoas de suas próprias raivas?
Vejo algumas pessoas, embalando sua raiva, com meticuloso e preciso movimento como se criassem esferas com massa de modelar… E guardando-as. Outros a disseminam em doses homeopáticas de aspereza, e ostetam, mesmo silentes, generosa artilharia.
Vejo algumas outras pessoas vaporizando a própria raiva, transformando-na em éter, tentando a segurança da invisibilidade.
Algumas pessoas a embalam, outras a sufocam, outras a seguem e algumas poucas a transformam… De pulsão de dor a pulsão de amor. “Eu aceito, entrego, confio e agradeço”. E assim, uma cor é levada a ser outra. Um movimento flui para outro, vertendo-se em vida nova, em transformada vida.
O que você tem feito de suas raivas?