Pequena história de uma biruta

Pelo que eu vivi hoje junto deste menino muito especial… emprestei-lhe minha biruta pelo tempo que for preciso para que se lembre sempre onde está o meu colo.

Avatar de Grace Cristina Ferreira-DonatiVERBOGEREN

Uma busca rápida em sites de pesquisa é capaz de nos informar, com linguagem pomposa, que biruta “é uma manga ou tubo de tecido, semelhante a um saco cônico, com a abertura mais larga presa a um aro e fixa a um mastro, e a outra, mais estreita, solta, que se enfuna quando o vento sopra, indicando, assim, a direção deste”. No entanto, após ter sido presenteada com uma biruta criativa e inovadora, é necessário acrescentar sentido à definição. Thiago, o personagem principal desta história e inventor da alegre biruta, fez de nosso encontro prosaico, uma poesia de expressão de saudades e entusiasmo, entregando-me o presente especial que trazia consigo, após uma revelação lenta e solene para o efeito de maior surpresa. Pousando olhos sorridentes sobre mim, deflagrou sua arte escondida: “É pra você! É uma biruta!”. E então, antecipando-se a qualquer manifestação da minha ignorância, acrescentou: “Serve para indicar…

Ver o post original 115 mais palavras

Justa indagação

Para que equilíbrio se com você eu quero o que me tira o chão?
Para que vício se na sua vida está o meu alívio?
Para que sempre se o meu pulsar pretende o nosso agora?
Para que sanidade se minha loucura me põe em suas mãos?

Para que proteção se é vulnerável que sorrio fácil?
Para que regras se tenho os beijos do seu improviso?
Para que acertos se você me humaniza nas falhas?
Para que certezas se é na dúvida que lhe tenho ávido?IMG_0523

Paz secreta

Numa tarde assim, a chuva bagunça a terra
Intimida os pensamentos de primavera
Encanteia, vagueia
A paz secreta.

Numa tarde dessa, um clamor goteja do céu
Alivia a penúria, o fel
Pacienta, isenta
A culpa fiel.

Numa tarde assim, o cinza emoldura a canção
Eterniza os sentimentos de vastidão
Alimenta, clareia
Miúda imensidão.

Eu

IMG_0507

 

Não sei ser pouco ou rasa ou pequena ou fraca
Não sei ser distante ou fugidia, minguante ou vazia
Tampouco amena ou seca
Fria, apatia.

E embora me tomem reta e certa e pronta
Sou chuva errada, forte e tórrida
O desvario em uma lógica
O mundo em uma gota
Esta confusão toda.

Silêncio Poemado

Em um evento realizado em novembro de 2016, o III Encontro Regional de Comunicação Alternativa ISAAC Brasil, pude traduzir meu envolvimento com a comunicação de pessoas com deficiências por meio de uma apresentação artística concebida para sensibilizar seus espectadores. Durante a organização do evento, sentia que precisávamos de mais do que palestras, indicadores científicos e relatos de experiências para tocar a mais profunda humanidade de quem assume parceria dialógica com alguém que não se comunica integralmente por meio da fala. Assim, surgiu “Silêncio Poemado”, construído, com a generosidade e a entrega, o talento e o amor de pessoas especiais. O áudio é uma parte da obra, agora disponibilizado neste post. Poesia para ouvir e sensibilidade para tocar.

Sil_Poemado

Concepção artística: Grace Cristina Ferreira-Donati
Montagem: Joana Calepso
Texto: Poesias de Grace Cristina Ferreira-Donati, todas já publicadas no Verbogeren – Imagem poemada – Insterstício Um; Interstício Quatro; Interstício Dois; Interstício Três; Medo, Perdoa, Esperança, Sê Mâe, Sê Pai e Lugar Bom.
Atrizes: Joana Calepso e Nicole Souza
Vozes: Grace Cristina Ferreira-Donati, Joana Calepso, Nicole Souza e Wellington Santos
Gravação e edição de áudio: Jaredis Souza
Músicas (em ordem de ocorrência) de Yann Tiersen (Álbum EUSA, 2016): Penn Ar Lann, Hent IV, Enez Nein, Hent VIII, Penn Ar Lann.

Fotografias: Gabriela Maximino

Permissão

Hoje, permitirei que sente ao meu lado
E olhe o vento ventar a folha que amarelou.
Hoje, permitirei que sinta o beijo que ontem não dei
E ouça o conto contar a história que não vingou.

Hoje, permitirei que toque meus sonhos
E ouça a música cantar a estrofe que perdoou.
Hoje, permitirei que espie o medo que eu não contei
E veja a lua luar o tempo que retornou.

Hoje, permitirei que deite em meu colo
E deixe o sonho sonhar a volta que imaginou.
Hoje, permitirei que tenha o abraço que não entreguei
E seja o mar a marejar os olhos que já amou.