Vazio

Às vezes, sinto um vazio tão grande
Da grandeza de um gigante
Profundo, vasto, incerto, errante.

Às vezes, sinto este vazio no peito
Impiedoso, do coração faz leito
Bagunçado, errado, nó em contrafeito.

Às vezes, sinto no vazio o tempo
Ansioso, em oração refeito
Escasso, um rastro, tal ar rarefeito.

Às vezes, sinto um vazio pungente
Da agudeza da dor da gente
Intenso, denso, ausência inclemente.

Dia Mundial da Paz

A breve reflexão é de julho de 2015 e teve por inspiração o filme sueco-dinamarquês Haevnen, de Susanne Bier. Hoje, porém, no Dia da Confraternização Universal ou Dia Mundial da Paz, ganhou maior sentido.

O que fazem as pessoas de suas próprias raivas?

Vejo algumas pessoas, embalando sua raiva, com meticuloso e preciso movimento como se criassem esferas com massa de modelar… E guardando-as. Outros a disseminam em doses homeopáticas de aspereza, e ostetam, mesmo silentes, generosa artilharia.
Vejo algumas outras pessoas vaporizando a própria raiva, transformando-na em éter, tentando a segurança da invisibilidade.
Algumas pessoas a embalam, outras a sufocam, outras a seguem e algumas poucas a transformam… De pulsão de dor a pulsão de amor. “Eu aceito, entrego, confio e agradeço”. E assim, uma cor é levada a ser outra. Um movimento flui para outro, vertendo-se em vida nova, em transformada vida.

O que você tem feito de suas raivas?

Sede

Tenho uma sede de vida
Que me atira sem vagar ao dia
Me põe à beira de tudo
Me lança em mais poesia

Tenho vontade profunda
Daquela que desperta à noite
Palpita forte o coração
Vem sem fim, nem fonte

Tenho o desejo do mundo
Que me laça fugaz num mergulho
Faz folia na razão
Me arrasta num segundo

Tenho uma sede de vida
Que me atira sem vagar ao dia
Me põe à beira de tudo
Me lança em mais poesia.

Negativas

Não te aprisiones a ti mesmo
Espalha-te.
Não te atormentes ao ruído alheio
Aquieta-te.
Não te protejas do amor que recebes
Envolva-te.
Não te apresses no peito que acolhe
Repousa-te.
Não te condenes ao rigor servil
Alegra-te.
Não te abandones ao olhar vil
Proteja-te.
Não te dediques à língua que fere
Apazigua-te.
Não te julgues ao contorno que tolhe
Perdoa-te.
Não te negues o toque que envolve
Permita-te.
Não te alongues na dor da memória
Cura-te.
Não te esqueças na vida
Leva-te.
E se puderes te aceitar
Revela-te.

O tempo

De 20 de agosto de 2014

Um dia, serei amiga do meu tempo
Só farei coisas que o agradam
Cuidarei da sua vida com zelo
Como quem carrega o último copo d’água.

Um dia, viverei o tempo com a economia do cuidado
Com a delicadeza, a gentileza do compromisso
Exercitando o uso consciente do valor
Do que se estima tanto por ser inestimável.

Meu tempo, hoje, não se flete às minhas vontades
Não se dobra ou se contamina
Não me pertence. E, em seu rigor,
Manejado pelo vazio, me arrasta.

Sobre sensações

Sim, há quem consiga neste mundo apenas sentir. Sem pensar, nem medir, sem refletir todo o tempo e filtrar. Sem modelar ou fingir, sem conter ou pesar. Dentre tantos, há os que percebem o que a maioria não sente. São os que absorvem a magia do invisível, as sensações do pulso do mundo.

Às pessoas que vivem no espectro das hipersensações, a muitas das crianças com autismo, relembro um pouco de alguém que também sentia muito.

Os Meus Pensamentos São Todos Sensações, de Alberto Caeiro (Fernando Pessoa)

Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.
Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.
Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto.
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.

Ser poeta é ser mais alto, de Florbela Espanca

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim…
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente…
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!

Fonte: http://www.escritas.org

A uma mulher que, na rendição completa às palavras, amou, amou, amou.