Dias normais

Na maioria dos dias, gosto que eles sejam normais.
Sem sobressaltos, surpresas, desvios.
Dias normais me permitem viver o que o presente propõe, os instantes da serenidade.
Dias normais me incitam a olhar a vida na sua majestosa simplicidade, enxergar o que se repete, o que insiste e resiste à indiferença e à desatenção. Nestes dias, dou-me conta da realidade de ser minúscula, uma feliz partícula. E esta constatação encerra uma liberdade estrondosa.

Quanto vale um sonho?

Processed with Rookie Cam

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Vale os tombos?
As quedas, as dores, o choro contido e a falta de ar?
Vale romper limites, extenuar o corpo, expor-se frágil e desajeitada?
Vale misturar a imperícia ao brilho de movimentos tão suaves?
Vale arriscar-se ao desacerto?
Vale, às vezes, um coração quebrado?
Vale os riscos, todos eles?
Vale as perdas e os sacrifícios?
Vale danos na alma?
Vale transbordar de insistência?
Vale o sorriso inseguro?
Vale a persistência?
Pelos dias bons, vale a pena viver dias difíceis.
Pela dança, vale a pena cair.
E vale a pena se levantar…

O que você faz das suas próprias deficiências?

Hoje é o Dia Internacional da Pessoa com Deficiência. Há mais de duas décadas, a data foi escolhida pela ONU para promover ampla reflexão a respeito dos direitos da pessoa com deficiência. Seguindo este propósito, coloco-me a representar, apenas por um momento, o grupo de todos os demais membros da sociedade, cujas dificuldades não costumam ser classificadas como deficiências, no contexto atual em que vivemos, mas que impactam significativamente nossas relações humanas. Assim, dirijo-me humildemente, às pessoas com deficiências: Desculpe-me por aquele dia em que me esqueci de posicionar-me à altura dos seus olhos, para que pudéssemos conversar melhor. Desculpe-me por não lhe descrever corretamente o caminho, evitando tropeços e os obstáculos das ruas. Desculpe-me por não dirigir perguntas a você mesmo quando eu gostaria de lhe conhecer melhor… não percebi que é capaz de se comunicar, embora não possa falar. Desculpe-me por não saber manejar bem sua cadeira de rodas e me atrapalhar com os equipamentos e recursos, que são tão importantes para você. Desculpe-me por evitar olhar em seus olhos. Desculpe-me por não lhe proporcionar o mobiliário adequado para que estivesse mais confortável e pudesse agir plenamente. Desculpe-me por ter interpretado incorretamente seu comportamento e não lhe ajudar da forma como seria melhor para você. Desculpe-me pelas vezes em que subestimei sua capacidade de aprender e me ensinar. Desculpe-me por não ter disponibilizado a imagem que traduziria o que você estava sentindo naquela noite confusa. Desculpe-me. Buscarei afinar meu coração às lições diárias e silenciosas da superação das suas dificuldades e tratar de superar as minhas íntimas e tão numerosas deficiências.

E então… eu sou feita da minha escrita.

A novidade antiga é que a escrita me define. Ela descreve meus achados de pesquisa, minhas impressões da atividade clínica, as sutilezas que percebo. Cabe escrever a quem sente muito e a quem se intoxica com percepções não compartilhadas. Cabe verter-se em palavras a quem se derrama de amor e dor, a quem se dissolve por aqui e ali. A mim cabe a escrita. Em hora curta e por toda a vida.