Todos os dias são meus

Como mulher que sou, permito-me antecipar o que a sociedade atribuiu como meu dia e me por a dialogar com todas as demais da minha espécie.

Querida,
Permita-se a franqueza de ser quem verdadeiramente é. Permita-se a autenticidade, a verdade dos seus cabelos bagunçados e da alma entrelaçada de dor. Permita-se colocar-se confortavelmente no mundo. Permita-se a risada escandalosamente solta. Permita-se evocar a insensatez e proclamar seu desejo aos ventos. Permita-se enterrar passados sombrios e experimentar novos rios, vidas a fio. Permita-se a singeleza e a delicadeza. Permita-se o grito dos limites, a solidez do basta-se. Permita-se tocar a vida em erros, defender seus acertos e erguer o queixo, sem medo. Permita-se a descrença e a fé ingênua, o desatino do momento, criar e manter segredos. Permita-se a queda. Permita paixão à própria solidão. Permita o perdão ao não. Permita voz a cada flecha atroz. Permita-se negar e fazer parar. Permita-se estar onde quiser estar. Permita-se calar e falar. Permita-se desagradar e amparar. E quando, por algum segundo, esquecer que é em si que deve estar, permita-se parar, recolher-se e voltar.

Um Casal de Ouro

Com enorme alegria, compartilho um poema sertanejo de autoria de Ercio Joaquim Ferreira, meu pai, que, como eu, mantém Minas Gerais em destaque no seu coração. Deliciem-se!!!

Um dia alguém me disse
Que o amor faz a união
O que conduz a família
Com Cristo no coração
Formando pessoas de bem
Por toda uma geração

O casamento se renova
Quando o amor é de verdade
Na certeza do amanhã
E dias de felicidade
Conduzindo a jornada
Com carinho e lealdade

Quero assim homenagear
Os meus parentes queridos
Pelos cinquenta anos
De casamento vivido
Que Deus sempre os abençoe
Irani e Aparecido

Ao casal peço licença
Pois eu preciso falar
Dos amigos e parentes
Que me fizeram encantar
Com a roda de viola
Cantando sobre o luar

À você Grace Cristina
Minha filha adorada
Companheira de viagem
Da tortuosa estrada
O meu respeito e carinho
Eita menina arretada!

O que dizer de Betinha
Com tantas qualidades
Digo que tu inspiras
Ternura e felicidade
Esposa e mãe carinhosa
Desprovida de maldade

Falar de João é fácil
Isto eu não posso negar
Pois o amigo é gente fina
Vocês têm que concordar
Só pratica o bem na vida
Eu pude testemunhar

Elton com sua presença
Alegrava o ambiente
Enquanto a Nice servia
Pãozinho de queijo pra gente
Com sabor de quero mais
E um gostoso café quente

Jane e Beto combinavam
Para ir lá no barzinho
Com todo o pessoal
Para tomar um caldinho
É gostoso por demais
Falou a mãe do Gutinho

Há muitos anos atrás
Conheci, ainda criança
Hoje, homen bem educado
Feliz, cheio de esperança
Eric, meu sobrinho adorado
Lute com perseverança

Charles e Lane, um par discreto
Mas sempre bem carinhoso
E Verônica curtia
Um almoço bem gostoso
Enquanto Giovana tomava
Um cafézin delicioso

Juninho sempre disposto
A nos acompanhar
Seja em uma caminhada
Ou para degustar
Um lanchinho suculento
No recinto de um bar

Vendo o Gutinho brincando
Com saúde e muito vigor
Senti a presença de Deus
Abençoando com amor
Este ser tão pequenino
Obrigado, meu senhor!

Tidinho não se intimida
Com a adversidade
Ele sempre se fez forte
Diante da realidade
Transpondo todas barreiras
Da cruel desigualdade

Lúcia, como agradeço!
Pela sua existência
E por ter nos recebido
Em sua residência
Curvo-me diante de ti
Pela sua competência

Liu, sempre atenta
Junto de seu maridão
Nisso, dona Iraci
Preparava no fogão
Um arroz com pequi
E um tutu de feijão

Isabela, moça linda
O seu futuro está perto
Muito bem amparada
Desenvolve o seu projeto
Na área da arquitetura
O sucesso é mesmo certo

Para falar desta família
Eu vou ter que rebolar
Irei buscar inspiração
E espero encontrar
Lindas palavras de amor
Para a eles ofertar

Ismael, meu caro amigo
Você canta como ninguém
Conhece muito de música
E toca muito também
Fazendo a felicidade
Deste povo do bem

Lurdinha esposa e mãe
Lurdinha cantora sertaneja
Lurdinha da voz de ouro
Lurdinha de grande beleza
Lurdinha rainha do lar
Mulher de muita nobreza

Sandra de olhar penetrante
Da cor morena mineira
De sorriso estonteante
Linda mulher faceira
És a própria luz do dia
És o vento sem fronteira

Para a Fernanda e a Flávia
Eu quero desejar
Saúde e muita alegria
Para o vosso caminhar
Que Cristo as proteja
No aconchego do seu lar

Quem está apaixonado
Levante os braços
Se apaixone pela vida
É este pedido que faço
Com amor e lealdade
Você evita o fracasso

Até breve, Minas Gerais!
Até breve, Rubelita!
Um dia volto a rever
Esta terra tão bonita
Para matar a saudade
Dos amigos que lá ficam

Que Deus abençoe
Esta gente fagueira
Por ter-me recebido
Nesta cidade mineira
Aceite o abraço fraterno
De Ercio Joaquim Ferreira

Minas Gerais, por uma paulista.

imageConheço pouco Minas Gerais, o suficiente para manter uma paixão, irremediável e sem explicação. Não nasci em Minas, mas procuro mantê-la em mim. Então, depois de viver intensamente em terras mineiras por seis dias, tentarei repercutir o que vai dentro do meu peito agora.

Gosto da simplicidade da gente, do descompromisso com a tristeza. Gosto de como as montanhas se aglutinam, formando veios e caminhos. Gosto do alimento saboroso, dos aromas extravagantes que sequestram a família para o fogão. Gosto da calma e da alma. Gosto da serra e do que se apresenta aos seus pés. Gosto da neblina que esconde os vales. Gosto do arrastar das sandálias ritmando a sanfona. Gosto da viola e do violão, da batida e do ponteio, do amor choroso da canção. Gosto da vida solta e suficiente. Gosto da benevolência nos cantos e do germinar seco das sementes. Gosto da fé nos santos e nos labores tantos. Gosto do brilho da pele tingida do sol. Gosto do charme sem jeito e insuspeito. Gosto da fala mansinha e do olhar fagueiro. Gosto da carência até. Gosto da dança colada e suada. Gosto dos horizontes infinitos e de como os dias se revelam lindos. Gosto das sinuosas estradas. Gosto da espontaneidade das rodas. Gosto dos uais e dos luais. Das palavras e das alegrias sem rodeios e sem finais.

O amanhecer de memórias sem iguais das minhas Minas Gerais. Não falta mar nas Gerais. Há pureza em todo canto, na serra e nos uais. Há beleza em todo vale, na luz da aurora e nos luais.

Mulheres com asas

Há muitos anos, num dia em que me senti especial por ser mulher, escrevi uma poesia simples, imperfeita, quase boba, mas honesta. Hoje, em meio a mulheres fortes e altivas, rememorei a mesma sensação e a poesia que registrou um dia antigo. Com todas as mulheres, compartilho minha lembrança.

img_1916Se as mulheres tivessem asas
Nossos sonhos voariam mais alto
Com a sedução da natureza feminina
Os devaneios do real seriam castos.

Se as verdadeiras mulheres voassem
Voariam nossos anseios certos
Viajariam as sementes dos fatos ideiais
E colheríamos na vida sonhos nossos secretos.

Se as mulheres aladas fossem
Fosse a vida como fosse
Nos moldaríamos na leveza das asas que fogem no ar
Viveríamos na vida como no sonho se sustenta o sonhar.

 

The Angel” de William Baxter Palmer Closson (1848-1926)

Busca

Cristais meus
Dores minhas que caem
Vida minha que sai
Busque em ti fado amargo
Cores tuas que traem
Flores nuas que falem
Vida minha que vai
Liberte de ti medo que te distrai
Peso louco se esvai
Riso pouco aceitai
Contemple na fé
Fontes bentas de mais
Pontes feitas de vais
Contas poucas de mas.

Saudades minhas

Saudades de quando a felicidade roubava meu sono
De quando ela me tomava ao despertar
E ilustrava em meu rosto sua luz.
Ah, saudades de quando a vida era coisa fácil de se ter
De quando o dia se repetia na alegria simples de nascer.
De quando a mania de chorar era rara e boba, curta e fácil.
Saudades minhas as minhas dores agudas e duras
De ser de um jeito que já foi
De ser feliz como não dá
De ser aquela não fui.

Ansiedade despedaçada II

“Frestas das escolhas que me apertam permitem que a persistência me afilja e me salve. Trazem-me sem medo para os erros e insistem que eu respire pouco, mas com louco e certo amor.”

“Nem tudo é tão reto… Nem tudo tudo é certo. Nem sempre é tão fácil julgar o óbvio. A luz pode sempre esconder a poeira em sua sombra. E só os que não vêem enxergam no escuro.”

“Tensas partículas caem densas por aí. Espalham ruídos e redemoinhos vazios apenas para enfatizar o movimento das coisas, a repetição da natureza e sobrepujar o que é ímpar e singular.”

Contrariedades

Há dores que não se mostram
Como há amores que não se afagam
Como há horrores que não se contam
E estertores que não calam.

Há corações que não se abalam
Como há proteções que não se bastam
Como há florações que não encantam
E intenções que não falam.

Há crises que não se deflagram
Como há reprises que não se confirmam
Como há lides que não se travam
E revides que não gritam.