Permita-se a dor

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Há tempos tenho refletido sobre a cultura da felicidade que percorre nossas ruas, põe em nossas gargantas uma válvula que impede o extravasamento da dor e em nossa face, o brilho opaco do sorriso planejado. O resultado é um caos interno que nos desorganiza e irrompe em males perversos.
Já é possível classificar o comportamento como um ato reflexo, habilidade instalada precocemente e repetida, repetida e generalizada, consistentemente automatizada. Há um acordo tácito e amargo assumido entre quem sofre a dor e quem a assiste gritar. De um lado, a pessoa se lança a uma exagerada busca de controle e de outro, todo o entorno se mobiliza para que este plano tenha sucesso, e que, sendo assim, a dor desapareça, rápida e silenciosamente. O incoerente neste contexto é que dores não desaparecem assim… ao sabor do gosto de alguém, ou para se manter intacto o cenário da cozinha iluminada com cheiro de pão quente e margarina. É da natureza da dor doer. É um benefício biológico sentir a dor, expressá-la e buscar amparo. Dores não desaparecem assim… A criança que corta o pé sente dor. O menino que cai da bicicleta sente dor. A adolescente magoada pela amiga sente dor. O velho que perde sua esposa sente dor. Dói nascer. Dói crescer. Dói perder e… talvez doa morrer. A cada um cabe a sua dor e a todos nós cabe o respeito, o abraço longo, o peito voluntário, o colo ao lamento. Não cabe a quem assiste a dor sufocá-la, calar o grito ou estancar sua vida. Não nos cabe exigir a força que se esvai ou subestimar a ferida. Porque a cada um de nós cabe um tanto de dor, e a todos nós cabe, irrestritamente, o amor.

Pequena história de uma biruta

Pelo que eu vivi hoje junto deste menino muito especial… emprestei-lhe minha biruta pelo tempo que for preciso para que se lembre sempre onde está o meu colo.

Avatar de Grace Cristina Ferreira-DonatiVERBOGEREN

Uma busca rápida em sites de pesquisa é capaz de nos informar, com linguagem pomposa, que biruta “é uma manga ou tubo de tecido, semelhante a um saco cônico, com a abertura mais larga presa a um aro e fixa a um mastro, e a outra, mais estreita, solta, que se enfuna quando o vento sopra, indicando, assim, a direção deste”. No entanto, após ter sido presenteada com uma biruta criativa e inovadora, é necessário acrescentar sentido à definição. Thiago, o personagem principal desta história e inventor da alegre biruta, fez de nosso encontro prosaico, uma poesia de expressão de saudades e entusiasmo, entregando-me o presente especial que trazia consigo, após uma revelação lenta e solene para o efeito de maior surpresa. Pousando olhos sorridentes sobre mim, deflagrou sua arte escondida: “É pra você! É uma biruta!”. E então, antecipando-se a qualquer manifestação da minha ignorância, acrescentou: “Serve para indicar…

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Justa indagação

Para que equilíbrio se com você eu quero o que me tira o chão?
Para que vício se na sua vida está o meu alívio?
Para que sempre se o meu pulsar pretende o nosso agora?
Para que sanidade se minha loucura me põe em suas mãos?

Para que proteção se é vulnerável que sorrio fácil?
Para que regras se tenho os beijos do seu improviso?
Para que acertos se você me humaniza nas falhas?
Para que certezas se é na dúvida que lhe tenho ávido?IMG_0523

Paz secreta

Numa tarde assim, a chuva bagunça a terra
Intimida os pensamentos de primavera
Encanteia, vagueia
A paz secreta.

Numa tarde dessa, um clamor goteja do céu
Alivia a penúria, o fel
Pacienta, isenta
A culpa fiel.

Numa tarde assim, o cinza emoldura a canção
Eterniza os sentimentos de vastidão
Alimenta, clareia
Miúda imensidão.

Eu

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Não sei ser pouco ou rasa ou pequena ou fraca
Não sei ser distante ou fugidia, minguante ou vazia
Tampouco amena ou seca
Fria, apatia.

E embora me tomem reta e certa e pronta
Sou chuva errada, forte e tórrida
O desvario em uma lógica
O mundo em uma gota
Esta confusão toda.