Ela sonhou acordada e dormiu em pé
Ele alargou seu espaço e madrugou até
Ela teve na garganta a dor da alma
Ele extravasou no rosto uma lição de calma
Ela se exauriu para não ser quem é
Ele se eximiu pelas falhas da outra fé
Ela coloriu riscos fortes e desalinhados
Ele descobriu mais acordes desafinados
Ela rodopiou caiu e levantou
Ele se curou e fortemente caminhou
Ela escreveu destas e de outras tantas linhas
Ele carregou metas e ideais com uma família
Ela se assumiu poeta e transfigurou a perfeição
Ele se pôs mudança e deu pra si meditação
Ela ainda sonha acordada e dorme em pé
Eles alargam espaços e se amam até.
Homo pensants
Já estou cansado de mudar as minhas rotas de esquecer as minhas metas de esconder minhas derrotas de crescer por códigos beta e de forçar a entrada em alfa de desistir de pisar grama. Já estou farto de querer malhar sorrisos esquecer meu ex-abrigo e morrer de frio nas camas que não me sustentam mais. Estou cheio do vazio inconsistente da miséria insistente do meu luxo não vulgar. Quero cheirar lixo pra parecer gente. Tomar banho pra esquecer meu perfume que mente. Andar descalço pra sentir doer minhas bases pra fazer arder meus pés e ver gritar meus músculos pra sentir de volta a vida pra poder deixar as coisas que eu já tenho e que me enojam. Ir ao fundo para então submergir. Cair porque eu posso levantar. Tomar conta de perder porque eu preciso chorar pra sorrir. Me afundar em lama pra me sujar em água. Despencar no poço que não vai me abrigar. Perder para que eu sofra ao ganhar. Obter coisas fúteis que me fazem rastejar. Ganhar… o lixo que me escraviza e vender meu ar pra poder olhar meu eu… amar. O ridículo de mim quero ver ir embora pra matar de vergonha os ratos que me abraçam. Para que eu possa me sujar e então me sentir limpo. Pra poder viver.
Alegria, gratidão e fraternidade
Gratus é uma plataforma social gratuita, desenvolvida na cidade de Marília (interior de São Paulo), que conecta pessoas interessadas em praticar a gratidão por meio da troca de experiências.
A palavra Gratus é natural do latim e significa gratidão, ou seja, a capacidade de se sentir agradecido por algo, de desenvolver sentimentos como empatia, compaixão, amizade, gentileza e amor.
Ao sentir empatia por alguém, somos capazes de reconhecer o que o outro fez de bom para nós e, também, de expressar e retribuir essas benfeitorias. A gratidão ocorre sempre que alguém faz algo que o outro gostaria que acontecesse, sem esperar nada em troca. Isso faz com que a pessoa que fez a ação se sinta feliz e a que recebeu também!
Acreditamos que a gratidão não é apenas um sentimento, mas uma experiência. Por isso, neste site, queremos conectá-lo a várias maneiras de exercer essa virtude.
Texto retirado da página do Gratus – fazer o bem te faz bem, no Facebook.
A esse grupo de pessoas especiais, a esta belíssima iniciativa e ao sentimento de fraternidade que luta por nos unir, um pouco de poesia.
Alegria
Para se alegrar é preciso tomar parte de um momento sublime
Lançar-se ao acaso e à imprevisão de alguém.
Para ser parte, é preciso abandonar-se de si
Colocar-se em meios e entornos, sem fazer refém.
Para abandonar-se, é justo despreocupar-se da própria agonia
Entregar-se ao amor puro e fraterno, sem temor e sem qualquer porém.
Pasárgada e Siara
Nesta tarde, tive o privilégio de ouvir em voz doce, com chuva branda caindo, a poesia de Manuel Bandeira declamada. Lembrei-me de um exercício antigo a respeito de paródia e paráfrase, tendo “Pasárgada” como estímulo. Compartilho, então, Bandeira e minha “Siara”.
Vou-me embora pra Pasárgada, de Manuel Bandeira
Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconsequente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive
E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d’água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada
Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar
E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.
Texto extraído do livro “Bandeira a Vida Inteira”, Editora Alumbramento – Rio de Janeiro, 1986, pág. 90, Disponível em: http://www.releituras.com/mbandeira_pasargada.asp
Siara
Vou-me embora pra Siara
Lá o tempo para, cala, incendeia meus temores
Ilumina, grita, ameniza minhas dores
E foge.
Corre de si mesmo
Busca auxílio no fantástico
No imitar de um mundo mágico
Esquece e perpetua
Cristaliza e renasce.
As vidas em Siara
Pulsam, extravasam
Passos que se encontram
Firmes, fortes, corajosos
Olhos que se cruzam
E se encaram, não se fecham.
Rostos que revelam-se
Abrem-se, expressam-se.
Cores que libertam-se
Luzes que acendem-se
Vidas que eternizam-se.
Você mesma
Seja você mesma
Desde que não se exalte
Desde que não se altere
Desde que não se revolte
Seja você mesma
Desde que não repare
Desde que não grite
Desde que não fale
Seja você mesma
Desde que não seja intensa
Desde que não fique tensa
Desde que não seja imensa
Seja você mesma
Desde que não altere
A energia, o clima, o equilíbrio
Desde que não expresse
As feiúras, as agruras e amarguras
As tensões, as raivas e as paixões
Sempre, sempre
Seja você mesma, você mesma, você mesma.
Segredo claro
Vejo em ti toda a imensidão
De uma alma em dor
Toda a vastidão
Do desassossego em flor
O riso em riste
A lágrima triste
Uma luz sem cor
Em ti contemplo a virulência
De guardado rancor
A inconsciência
De obsoleto amor
O olhar em salva
A alegria calma
Segredo claro de um pecador.
Manual
Alimente teu peito
Não apresse o vento
E se a vida lhe fugir, vá com ela, sem lamento.
Vigie teu acerto
Ouça com o corpo inteiro
E se o medo lhe seguir, acolha o erro, sem receio.
Abrace teu desejo
Entregue-se ao sabor do tempo
E se o dia lhe ferir, aguarde a lua, com apreço.
Celebre teu momento
Cometa desvarios e feitos
E se o mundo lhe medir, escolha o riso, satisfeito.
Alegrias de consultório
Menino com gaita
Doçura que fala
Valsa na sala
Surpresa que cala
Abraço que aperta
Toque que alerta
Palavras na tela
Careta que alegra
Imagem na mão
Pezinhos no chão
Amor de irmão
Voz e violão
Inocência em lista
Aprendiz de pianista
Quadro de artista
Tanta conquista!
Desperta…dor
O despertador desperta o que já acorda
Os olhos que já vêem
As bocas que se procuram
Com lábios que se inquietam
Que febris, se encontram
Choram ao sorrir, querem por precisar.
Inseguram-se os corpos no descompasso
Do impulso rubro de um jogo louco
Tentativa da fusão essencial
Calmaria de um refluxo que não há
Retomada de uma ausência que não é.
O dia começa, as vidas se separam
O amor toma parte da intersecção dos fatos
De um sem fim surge outro início
Diferente do primeiro, necessário como os dias
Mais clarividente que a escuridão de nossas noites.
E se voltam os corações um ao outro
Mais pela necessidade de se cristalizar e vontade de reviver
Que pela infundada responsabilidade do retorno.
Gestão de riscos
Um querido amigo está fazendo um curso a distância sobre gestão de riscos. Conversando a respeito do seu conteúdo, notei que o curso pode ser algo muito perigoso. Digo isso porque as orientações fornecidas para identificar e manejar situações de risco põem em xeque a busca pela vida espontânea, ingênua e simples. A vida é feita de riscos. É arriscado viver. É, de fato, um perigo palpável e repetido manter-se vivo. Posso presumir que o programa instrucional pretende levar seu educando a desenvolver habilidades para manter-se a salvo, em segurança e prevenir a deflagração de situações arriscadas e suas incontroláveis consequências. É possível que o curso ensine sobre prevenção de perdas documentais, deleção de informações e como evitar incêndios. É provável que trate da identificação de tipos suspeitos, da revelação da malícia humana. É irremediável, no entanto, que conclua sua inabilidade em professar sobre a periculosidade de se viver cada dia um novo dia. Parece mais ingênuo do que o destemido. Parece inocência a criação de um manual para prevenir as oscilações irremediáveis do cotidiano, aquelas que nos assaltam e nos surpreendem, nos arrebatam e nos tiram o fôlego. Assim como o risco de nascer e permanecer. O risco de escolher isto ou aquilo e de lançar um olhar tímido para uma alma majestosa. O risco de não se render. O risco de ser feliz. Cabe mais risco ao risco da vida que nos presenteia sem promessas ou garantias? Cabe mais incerteza ao presente? Cabe mais ilusão à segurança? Cabe mais inocência ao controle?