Fenestrada
Errada
Falha póstuma
Na alma chorosa a lástima
Ou o que a valha
Na penumbra
Destes dias compridos, infinitos e arredios.
Poesia
Sentir em curtas XI
Eu posso avistar um mar de silêncios
Nas poucas gotas que afogaram suas palavras.
O que você quer saber de verdade… a poesia de Marisa, Arnaldo e Brown
Vai sem direção
Vai ser livre
A tristeza não
Não resiste
Solte os seus cabelos ao vento
Não olhe pra trás
Ouça o barulhinho que o tempo
No seu peito faz
Faça sua dor dançar
Atenção para escutar
Esse movimento que traz paz
Cada folha que cair,
Cada nuvem que passar
Ouve a terra respirar
Pelas portas e janelas das casas
Atenção para escutar
O que você quer saber de verdade
Do álbum “O que você quer saber de verdade”, Marisa Monte.
Ecos na releitura de “O mundo de Sofia” – Eco #2
Eco #2 – página 487
“Sartre descreve o homem urbano do século XX. Você se recorda de que os humanistas do Renascimento tinham propagado em tom de triunfo a liberdade e a independência do homem. Para Sartre, a liberdade do homem era como uma maldição. “O homem está condenado à liberdade”, ele dizia. Condenado porque não se criou e, não obstante, é livre. E uma vez atirado ao mundo, passa a ser responsável por tudo o que faz.
– Sim, Afinal, não pedimos a ninguém para sermos criados como indivíduos livres.
– É exatamente este o ponto central em Sartre. Acontece que somos indivíduos livres e nossa liberdade nos condena a tomarmos decisões durante toda a nossa vida. Não existem valores ou regras eternas, a partir das quais podemos nos guiar. E isto torna mais importantes nossas decisões, nossas escolhas. Sartre chama a atenção precisamente para o fato de o homem nunca poder negar sua responsabilidade pelo que faz. Por esta razão, não podemos simplesmente colocar de lado nossa responsabilidade e dizer que “temos” de ir trabalhar, ou então que “temos” de nos pautar por certas expectativas burguesas quanto ao modo como devemos viver. Aquele que assim procede mescla-se a uma massa anônima e se transforma em parte impessoal dela. Ele foge de si mesmo e se refugia na mentira. De outra parte, a liberdade do homem nos obriga a fazer de nós alguma coisa, a ter uma existência “autêntica” ou “verdadeira”.”
Eco: Ao mesmo tempo em que existir deveria bastar a cada um, há um eco que grita por algum significado em cada vida. É a vida tão valiosa, que se torna anti-ética, imoral e criminosa a atitude da displicência, da negligência consigo mesmo e com os próprios dias. É esta a tal da liberdade individual que não garante a cada um o direito de jogar-se ao acaso. Ou Sartre estava em um delírio equivocado?
Sentir em curtas X
Ele andava pelo mundo contando as vozes que vinham em sua direção.
Muitas vezes, não era capaz de desviar a tempo das que voavam como flechas até seu peito. Em outros momentos, elas lhe apontavam direções recém-nascidas, repletas de possibilidades. Altivo e com o peito sem escudo, ele seguia vivendo a boa batalha dos dias.
Autopsicografia, de Fernando Pessoa… porque hoje é o Dia do Poeta
O poeta é um fingidor
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.
Janeiro em dezembro

Leva aquela calma de ontem para amanhã
O riso do menino para o homem
A luz natalina para este peito em cisma.
Pega o vigor de nascer e põe no que convalesce
O êxtase em chama na prece
A vitória antiga na iniciada lida.
Carrega no agora o amor de outrora
A criança vibrante na mulher sem cor
A esperança do antes no depois errante.
Leva o ontem para sempre amanhã
Põe janeiro em dezembro
E a semente na flor
Vê o dia na noite
Redenção na dor
Leva a alma na palma
No inverno o calor
Faz do tempo joguete
Deleite
Seu melhor valor.
Domingo
É a semana nova
Ou a tentativa a mais?
Dias seguidos
Ou recomeço voraz?
A primavera no meio
Ou o reflorir audaz?
É o sol de novo
Ou luz boa que apraz?
Andança
Corta o rio
Vence a ponte
Pula a poça
Vai à fonte
Corre o trilho
Sobe a escada
Anda a trilha
Faz a estrada
Salta a lama
Pisa a terra
Pega a folha
Ri da queda
Sopra o corte
Sente a chuva
Beija o vento
Sorte a sua.
Trilhando Monte Verde

Tem poesia aqui e ali
Há pássaros gorjeando, como existe vento ventando
Tem terra molhada
Tem sol inclemente
Tem fala sonada
E gota pendente.
Tem poesia pertinho e adiante
Há menino tristonho, como existe banho morno
Tem chuva gelada
Tem luz de repente
Tem paz aninhada
E abraço presente.
Foto de Grace Cristina Ferreira-Donati, Monte Verde – MG