Palavras segredadas

Na menina que cruzava a estrada via-se a nudez pálida e ingênua, a timidez eriçando a pele, o olhar recoberto por si mesma. No rosto, e escorrendo em seu colo, todas as palavras densas estampadas. Todas divulgando em transparência o recato e o caos. Todas elas, ao mesmo tempo, sobre o mesmo espaço, vestindo a face e revelando a singeleza de sua vida em flor. Ah! Que palavras ilegíveis perpetuadas nesta pele… Quais amores e dores lhe definiram nesta clareza leve? Qual léxico lhe revela a alma? Qual alma que entrega a si em salva de palavras fáceis e insistentes? Por que cruza tal estrada e se exibe nas palavras segredadas?image

Imagem coletada em Pinterest: http://pin.it/YMX9jQH

Esforço

Conforme dá, a gente se arrasta, se esgueira, respira
De um jeito apertado, sofrido, pesado.
Conforme dá, a gente se abraça e se cuida
De um jeito inóspito, insípido e em culpa.
Conforme dá, a gente agrada e se desagrada
A gente se entrega e se esquece
Amontoa e perece.
Conforme dá, a gente ultrapassa os dias
Como barreiras antigas
Em esforço febril
À tentativa vil
Que castiga.

Nega-me

Se me negas o abraço em teus braços
Se me negas o beijo em teus lábios
Se me negas no rosto o afago
Nega-me de você qualquer pedaço

Se me negas a delonga em teus olhos
Se me negas a carícia em tua pele
Se me negas o entrelaçar de tuas mãos
Afugenta-me com rigor e me fere

Se me negas a taça dividida
A madrugada de sono perdida
Se me negas a vida
Minha realidade invertida
Condena-me à tempestuosa e interminável lida
No abandono da fantasia construída
Ao desamor, à despedida.

Amar

Não há escolha ou desculpa ou remédio. Não há saída ou atalho ou solução que nos defenda de amar.

De Carlos Drummond de Andrade, Amar.

Que pode uma criatura senão entre criaturas, amar?
Amar e esquecer?
Amar e malamar
Amar, desamar e amar
Sempre, e até de olhos vidrados, amar?
Que pode, pergunto, o ser amoroso,
Sozinho, em rotação universal,
se não rodar também, e amar?
Amar o que o mar trás a praia,
O que ele sepulta, e o que, na brisa marinha
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amor inóspito, o áspero
Um vaso sem flor, um chão de ferro, e o peito inerte,
e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.
Este é o nosso destino:
amor sem conta, distribuído pelas coisas
pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor
Amar a nossa mesma falta de amor,
e na secura nossa, amar a água implícita,
e o beijo tácito e a sede infinita.

Fonte http://www.vidaempoesia.com.br/carlosdrummond.htm

E para que os sentidos se rendam todos, “Amar” na intensidade de Marília Pera.

https://youtu.be/I9KTm3vMKa8

 

 

Há mais comunicação do que a fala diz

Durante o percurso dos últimos quatro anos, em que estive mergulhada no desenvolvimento da minha tese de doutorado, voltar a escrever poesia foi algo tão inesperado, quanto óbvio. Escrita faz nascer mais escrita, um dia alguém falou. Em muitos momentos, a descrição de um artigo científico ou de um procedimento metodológico, no espaço entre as linhas e os capítulos, eu era impulsionada para interstícios emocionais, que me ajudavam na tradução das ideias embrenhadas em sentimentos. Neste post, quero compartilhar alguns destes momentos, modelados na perspectiva da pessoa que não fala ou que não pode se expressar plenamente por meio da fala e, que necessita, desta maneira, de apoios para se comunicar.

Imagem poemada – Interstício Um

“E se pudéssemos imprimir os sentidos e trocá-los entre nós…?”

Imagem poemada – Interstício Dois

“Seus olhos, todo seu brilho e cor, todo em busca da troca

Encontrará os meus no ponto em que um desejo se torna imagem.

Assim, daremos vida a uma voz secreta que espera ecoar dentro de você.”

Imagem poemada – Interstício Três

“Criativas as linhas que no encontro, em uma imagem, preenchem o espaço de conteúdo e simbolizam as vozes que vão dentro de mim. Imaginadas palavras que tracejam euforias, segredos, certos e avessos e me permitem existir”.

Imagem poemada – Interstício Quatro

“E então, lhe serão dados olhos para me ouvir”.

Há sempre um gesto que diz

Um sorriso que indica

Uma voz que aponta

Um olhar que revela

Uma imagem que brilha.

Pequena história de uma biruta

Uma busca rápida em sites de pesquisa é capaz de nos informar, com linguagem pomposa, que biruta “é uma manga ou tubo de tecido, semelhante a um saco cônico, com a abertura mais larga presa a um aro e fixa a um mastro, e a outra, mais estreita, solta, que se enfuna quando o vento sopra, indicando, assim, a direção deste”. No entanto, após ter sido presenteada com uma biruta criativa e inovadora, é necessário acrescentar sentido à definição. Thiago, o personagem principal desta história e inventor da alegre biruta, fez de nosso encontro prosaico, uma poesia de expressão de saudades e entusiasmo, entregando-me o presente especial que trazia consigo, após uma revelação lenta e solene para o efeito de maior surpresa. Pousando olhos sorridentes sobre mim, deflagrou sua arte escondida: “É pra você! É uma biruta!”. E então, antecipando-se a qualquer manifestação da minha ignorância, acrescentou: “Serve para indicar a direção do vento. Assim, você sempre saberá para onde ir.” A biruta, construída com papel e moldada em formato cilíndrico ostenta grafismos de bela sensibilidade, com cores vibrantes e que se finda em tiras de crepon azul, que têm a enorme responsabilidade de me indicar para onde seguir. Thiago sugeriu que eu pendurasse a biruta em minha sala de trabalho para que sempre me lembre dele. E que a coloque ao vento, quando desejar descobrir para onde ele sopra. Sei, na verdade, que quando olhar para minha biruta, mesmo no interior protegido da minha sala, lembrarei que a direção a ser tomada deve ser aquela que me põe ao encontro de um outro alguém.

Todos os dias são meus

Como mulher que sou, permito-me antecipar o que a sociedade atribuiu como meu dia e me por a dialogar com todas as demais da minha espécie.

Querida,
Permita-se a franqueza de ser quem verdadeiramente é. Permita-se a autenticidade, a verdade dos seus cabelos bagunçados e da alma entrelaçada de dor. Permita-se colocar-se confortavelmente no mundo. Permita-se a risada escandalosamente solta. Permita-se evocar a insensatez e proclamar seu desejo aos ventos. Permita-se enterrar passados sombrios e experimentar novos rios, vidas a fio. Permita-se a singeleza e a delicadeza. Permita-se o grito dos limites, a solidez do basta-se. Permita-se tocar a vida em erros, defender seus acertos e erguer o queixo, sem medo. Permita-se a descrença e a fé ingênua, o desatino do momento, criar e manter segredos. Permita-se a queda. Permita paixão à própria solidão. Permita o perdão ao não. Permita voz a cada flecha atroz. Permita-se negar e fazer parar. Permita-se estar onde quiser estar. Permita-se calar e falar. Permita-se desagradar e amparar. E quando, por algum segundo, esquecer que é em si que deve estar, permita-se parar, recolher-se e voltar.